quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - Além do Silêncio


ALÉM DO SILÊNCIO

 

 

Não, ainda não é noite. Eu imaginava que já fosse noite. Mas ainda não é. É que está difícil de ver… Desde que fiquei pegado, um véu de brumas tombou defronte os meus olhos, um véu escuro que flutua e que ondula. E através deste véu eu apenas entrevejo penosamente os objetos... É muito esquisito. Mas eu continuo a fumar e a fumaça dos cachimbos se infla e torna-se enorme, opaca, tal como a fumaça que sai das chaminés dos vapores — a fumaça desagradável do paquete que outrora me fez voltar de Tonkin chorando… Bah! Eu não quero pensar mais nisso.

Não, ainda não é noite. Sorte. Uma hora ainda talvez, uma hora para viver satisfeito e tranquilo dentro da brilhante solidão do dia. Pois o dia é cheio de ruídos. Cheio de barulho e de tumulto, mesmo nos confins desse país perdido, mesmo dentro do isolamento absoluto de minha fumaria, dentro do isolamento absoluto de minha casa, dentro do isolamento de meu cemitério; longe da cidade, longe das granjas, longe do último casebre. As pessoas daqui não se aproximam do cemitério, elas sentem medo. Ninguém dentre eles queria ser vigia. Foi necessário me terem encontrado — eu, o velho sargento da legião, que morria de fome nas calçadas de Paris… E então me dignei a guardar. Eu, eu não tenho medo de cemitério. Eu nunca tive medo…

Já é noite? Não, deve ser a fumaça desse cachimbo. Satânico cachimbo! Ele está tão cheio de borra, que o bambu já está todo negro… Assim mesmo, eu vou fechar as portas na hora… Acho melhor ir agora, antes da noite… Antes mesmo do crepúsculo. — Me vou…

 

 

Bom, está fechado. Bom deus, quanto barulho há dentro deste cemitério cheio de sol! É de se ficar surdo. São as abelhas e as libélulas que voam com um horroroso zumbido. Os pássaros também, que clarineiam seus trinados no ar carregado de ecos multiplicadores. E depois, as árvores e a brisa estridente esfregando suas folhas, o murmúrio furioso dos grilos e das cigarras; e outros tantos sons crepitantes e longos, ou agudos, ou profundos, mas todos ensurdecedores. Isso sem calcular as sonoridades distantes que me chegam implacáveis: os animais das fazendas, os camponeses no trabalho, a usina da outra cidade — distante a cinco léguas somente… Eu os escuto alegremente bem! E todos reunidos, me impedem de adivinhar os outros ruídos, ruídos menores que murmuram em voz baixa, os ruídos da noite que se espalham por tudo… Ainda não é     noite, hein? — Para vocês é indiferente? — Por certo, também eu antigamente não entendia de todas as coisas.

Isto é o ópio. Eu tinha como que cera dentro dos ouvidos, e a fumaça quente a fez fundir. Eu me recordo os tempos de minha juventude, e mais tarde a época de militar no Sul-Oriente e no Saara. Naqueles tempos, eu não escutava nada mais além do que os outros homens escutavam. O deserto era mudo, pois desde que a aurora expulsava os chacais noturnos para suas tocas, as misteriosas areias se enchiam de silêncio. Cheia de silêncio era também, antigamente, a minha cidade cinza no flanco das Cevennes escuras; o sol, sobre as encostas rochosas, sobre os vales nas pastagens magras, sobre as matas emaranhadas de espinhos e de charnecas, este ainda era o silêncio, o silêncio soberano que só se abatia com a noite…

Velhas fantasias! Ali havia a bela melodia que eu não ouço mais, o silêncio. Isso é um sonho, um mito — uma utopia. A utopia dos brutos e dos animais de carga. A utopia das pessoas que não fumam. Pois não existe o silêncio.

Tudo começou em Tonkin, desde que fumei pela primeira vez. Sim, minha fé caiu por terra. Eu me recordo de quando cheguei lá embaixo, sobre a ponte de transporte[1]. Tínhamos feito escala em Saigon e, à tarde, os que tinham licença podiam ir até a cidade. Eu, como os outros, não sonhava senão com farras, bebedeiras e mulheres. Mas, apenas passado os portões, eu me detive subitamente defronte um grande muro que margeava a primeira rua. Por detrás dele vinha um odor jamais sentido, inquietante e doce, — um odor que desde o primeiro golpe me entrou pelo nariz até a alma e me subjugou. Eu não sabia ainda que isso era a droga. Bem como, esqueci de todo o resto e me demorei até a aurora encostado ao muro, — ao muro da fábrica de ópio — cheirando e fungando tudo aquilo que me vinha com o vento. E pouco a pouco, dentro da obscuridade muda, ouvi, longe, muito longe, bem ao longe, os risos dos meus camaradas que forçavam as portas dos lupanares…

Depois, essa coisa continuou, com os meus primeiros cachimbos, em Pak-Nah, num pequeno posto terrivelmente distante, nos confins da floresta montanhosa — uma floresta de mistério, cheia de folhas mortas e fermentadas que engendravam a febre e a loucura. Nós fumávamos muito lá embaixo. E à noite, ouvíamos muito bem os passos dos tigres, ainda que suas patas almofadadas pousassem no matagal mais docementes que as patas de um gato. E então, foi ficando divertido reconhecer esses ruídos imperceptíveis, mas que nós percebíamos infalivelmente. Uma tarde, um pirata do bando de Doc-Then veio espionar o posto. Ele escorregava mais silencioso que uma cobra ao redor das paliçadas. Mas nós o ouvimos assim mesmo, e tão preciso, que tão logo ele trepou sobre os bambus, meu Cabo lhe meteu uma bala no ventre, na suposição, sem o ver. Uma outra noite, o sino do posto disparou, e os sentinelas bateram os dentes convencidos de que os gênios da floresta nos advertiam de uma morte próxima. Mas eu, ao mesmo tempo em que o bronze disparou, já havia percebido o pisoteado delicado do nosso cavalo que havia rompido sua corda e que se batia com a cabeça baixa contra o cordel do badalo.

Sim, tudo continua perfeito. É isso que eu acho o mais admirável.

Oh, logo mais, esses inconvenientes serão pouco importantes. Até cômicos, aliás. No Tonkin, dentro do posto, eu vivia longe dos homens, e os ruídos silenciosos que eu escutava, rapidamente me eram todos conhecidos. Mais tarde, na França, em Paris, eu ouvi outros sons, mais simples, mais humanos… Desde a minha chegada ao pequeno hotel onde fiquei alojado, que isso se mostrou de uma maneira minuciosa e enervante: a agitação nos movimentos de cada viajante em cada quarto — aquele que ronca, aquele que não consegue dormir, aquele que faz amor, aquele outro despejando água em sua bacia… Então, eu fui morar ao fim do Montparnasse, num quarteirão morto, especialmente escolhido — E que bem escolhido! Desde o primeiro dia, eu escutava os vagabundos da noite, as fechaduras forçadas, as grades escaladas — como antes, em Pak-Nah, o pirata pulando a paliçada. E eu crispava as unhas no lençol do meu leito, perpetuamente preocupado em ver subitamente se abrir minha porta e qualquer malandro entrar, e de ter que o receber a golpes de porrete…

Eu tive que mudar. Agora com outra ideia, fui procurar uma morada bem no centro de Paris, bairro Saint-Antonie. Desta vez, o barulho era tal, — dia e noite — que eu não chegava mais a distinguir os ruídos uns dos outros. Era como uma orquestra formidável onde todos os instrumentos berravam de acordo. Só que, decididamente, eu não dormia mais. O ópio já não é totalmente amigo do sono! E eu simplesmente não conseguia mais dormir. E isso me fez descobrir outra coisa. Para o cúmulo do absurdo, minha provisão de ópio já soava vazia. Eu vim bem fornecido, de tudo quanto havia podido, mas rapidamente, esses sujos aduaneiros me roubaram uma caixa, e além disso eu julguei que na França fumaria menos que lá embaixo, e ocorreu o contrário. Acabei tendo que procurar um farmacêutico complacente. Mas essa droga não era mais que uma porcaria, e depois, meus novecentos e sessenta e cinco francos da reforma morriam como moscas. Naturalmente tinham me oferecido trabalho em uma tabacaria — eu coxeava de uma perna, depois do meu ferimento em Son-Tay. Mas isso é para um filho de padre, não para mim! — Então, eu requisitei este posto aqui, e agora eu guardo o cemitério.

Aí está! Faz-se noite… Já ouço os morcegos que começam seu voo aveludado. Parece-me também que os pássaros já soaram seu toque de recolher. E o vento está calmo. Só me faltava essa!

Agora, isso que vocês não sabem: eu ouço muito bem as noites do meu cemitério. Estes são outros ruídos, menos claros, menos simples, menos precisos que os barulhos do dia — mais perigosos de se ouvir, mais angustiantes, mais tortuosos. Nos primeiros tempos eu acreditei que os mortos se deslizavam para fora dos sepulcros para dançar ao clarão da lua a dança dos esqueletos. Mas não, isso não é o que acontece. Os mortos são mortos e não revivem mais. Se eles por acaso revivessem, seus passos seriam tão furtivos que nem eu os ouviria — nem eu!

Não, eu não escuto a ronda dos esqueletos, eu ouço outra coisa…

O que eu ouço são os ruídos proibidos, esses que nenhuma outra pessoa jamais escutou, os ruídos macabros e macilentos que estalam ao pé das criptas e dos mausoléus — os ruídos noturnos que têm medo do sol, da brisa viva e do canto dos pássaros; os ruídos frios que gelam o corpo dos homens e eriçam o pelo dos seus medos.

Eu ouço a madeira dos ataúdes que rangem e gemem sob a umidade viscosa do solo molhado de chuva. Eu ouço os pesados caixões se afundarem lentamente na lama pegajosa, se afundarem eternamente. Eu ouço as carnes apodrecidas, fervilhantes de vermes ágeis, e os secos rasgões de quando eles penetram um a um no pano das mortalhas. E nesse quadrado cercado de muros, onde centenas de cadáveres são postos para dormir, um após o outro, centenas de ruídos apavorantes se escapam e escorregam cada noite até meus ouvidos afinados — centenas de gemidos de tantas tumbas, cujas, cada qual insinua seu grão de loucura em minha cabeça já arruinada.

Assim é. Minha lâmpada de ópio é a única a amarelar as minhas paredes, pois não entra mais que um reflexo do crepúsculo por minha janela sem persianas; e de lá de baixo, já ouço os fogos-fátuos que roçam os pequenos teixos. Essa é a noite, a noite negra. — Hein, os ataúdes gemem? Vocês escutam?

Meu Deus! Sim, eu sei bem! Eu deveria deixar este cemitério penetrante. Mas eu não posso. Onde encontrar o ópio, o ópio que me faz viver, o ópio mágico que me inebria de delícias e de ilusões, o ópio intrépido que me mantem aqui, tremendo, mas firme no posto, e desafiando a loucura ao redor? Onde? Se é este cemitério aqui que me o dá. — É verdade, eu não havia dito ainda: as papoulas negras crescem em toda parte aqui. Mas ainda não é como em Yunnam, e em toda Índia também, que o ópio ressuda como a cera das colmeias ressudam as gotas de mel. — E eu, eu fiquei inutilmente tentando fazer ópio na França, até o dia em que minhas papoulas tonkinesas, plantadas sobre um cemitério fértil de cadáveres, se recuperaram maravilhosamente de suas virtudes. Agora, desde que incisei suas tetas inchadas de suco, as lágrimas negras jorraram a contento. E quando eu enovelei todas essas lágrimas e as fundi em uma bola grosseira, e quando dissolvi esta bola na água de minha chaleira, quando eu a filtrei, quando eu a aqueci, quando eu a purifiquei, Ah!

Bom, meu ópio negro e liso chafurda todas as drogas de Bènares e da China. E é esse cemitério aqui que faz o milagre. Vocês vêm bem porque eu não posso deixá-lo…?

Hein, eu escutei… Não, eu não escutei. Eu não escutei isso. Não, não é verdade que um estalido mais forte brotou do solo mortuário. Não é verdade que um ataúde se estremeceu dentro da sua lama. Não é verdade que uma tábua sacudiu-se, rangendo ainda horrivelmente contra seus pregos inexoráveis…

Parece que sim, que isso é verdade, que este será o sexto enterrado vivo que agoniza em meu cemitério — o sexto desse ano. O sexto que me fará ouvir, um a um, os gemidos, os soluços, os estertores. O sexto que fatigará lentamente seus esforços moribundos contra a madeira sólida do seu caixão. O sexto que eu escutarei retalhar enfim suas mãos débeis — a dentadas. E chorar, chorar de medo e de desespero. Sim, toda essa atrocidade, eu a tenho aguentado cinco vezes desde o início do ano… E eu vou suportar uma vez mais, visto que — para que mentir? — Essa é a verdade: o enterrado vivo comove, eu ouço seu respirar agonizante, cada vez mais próximo da insensibilidade letárgica a que se destina…

Ah sim? Vocês creem, boas pessoas, que isso não existe, que isso é uma simples invenção de um louco ou de um romancista, que as tumbas são sempre inertes, e que não existe isso de ser enterrado vivo? Vocês creem imbecilmente sob a fé no atestado de óbito, que a ciência de hoje não se engana mais, e que o que ela enterra não são mais que cadáveres? Confiram ali embaixo e durmam tranquilos, os que puderem… A mim, a quem o ópio há dado ouvidos para ouvir, eu ouvi. E sei que a cada dez enterrados, há um que ainda não está morto. E sei também que a sua agonia, aquela ali, a segunda agonia, ultrapassa em horror tudo isso que a sua pobre cabeça obtusa possa imaginar de apavorante. Vocês podem admitirem, ainda, este disparate dos médicos: que o bom homem em letargia, que está enterrado a seis pés sob a terra, acorda somente pela metade, que perde rapidamente todo o senso junto com o ar, e que portanto, não revive mais que um minuto. Ah, pois sim! Vocês não sabem nada do que é a vida, e com quantas unhas um moribundo se agarra, quando ele a sente escapar! No Tonquin, antigamente, eu apreciava ficar à espreita — na caça dos grandes gamos ruivos de pernas finas. Bem, um dia, eu dei dois tiros com a Lebel numa maravilhosa fêmea que caiu dura, o peito arrancado — meus dois punhos teriam entrado pelo buraco. Aproximei-me e bati com o pé em sua carcaça vermelha — e a carcaça se ergueu sobre suas três patas, arrastando pedaços dos seus intestinos, seu coração e seus pulmões! Eles são parecidos, meus enterrados vivos: quase tão mortos quanto seus vizinhos os esqueletos, eles berram com todas as forças de suas gargantas e viram-se para tentar erguer com os ombros suas tampas! Escute, escute, está ouvindo a tábua que range? Afortunadamente, a terra é pesada. Ele não sairá, o pobre diabo! Eu não o verei, todo pálido e sujo da lama viscosa, galopar loucamente através das tumbas. — Felizmente!

Bom… Mais um cachimbo, então! Bom Deus, como é longa a noite!



[1]  Lá embaixo significa o oriente, e sobre a ponte (cobertura do navio) corresponde a fazer parte de uma tripulação. (n. do t.)

 

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