quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - O Ciclone

O CICLONE

Aquele que viu a aparição foi quem me contou. Eu sei de muitas coisas bem mais estranhas. Mas elas não pareceriam tão estranhas aos que não fumam. As inteligências não aguçadas pelo ópio as conceberiam como simples e normais. Mas também eu não vou lhes dizer tudo o que vi.

Aquele que a viu não é um mentiroso e nem um alucinado, pois ele fuma. O ópio dissipa as ilusões da terra e comanda a sinceridade. Eu, eu não fumo mais por causa de um juramento. Mas a cada noite eu velo em uma fumaria e me entorpeço sobre as esteiras até que a aurora pálida entra pelo respiradouro e amarela a lâmpada. E a fumaça negra que se estende então ao nosso redor, acaba por penetrar meu cérebro de um pouco de luminosidade e de um pouco de privilegio.

Eu recontarei apenas o que ele me disse, sem nada mudar. Naquela noite, nos estendemos na fumaria como sempre. Ninguém falava. O ópio aprecia a reunião dos seus fiéis. Haviam ali duas mulheres sobre as esteiras. Uma, não se pode escrever seu nome porque ela é isso que se chama uma mulher honesta; e é em segredo que ela vem fumar conosco, pois seu marido, que viaja em um paquete, não sabe de nada. A outra, nós a chamamos Joujou, porque ela serve freqüentemente de brinquedo a muitos homens. Na rua, certamente, essas duas mulheres se desprezariam por suas vidas diferentes, mas frente ao ópio nivelador, elas são amigas e dormem somente de braços entrelaçados. — Sobre as esteiras, havia ainda três rapazes, vindos para namorar e fumar ópio. Estes fumavam pouco e acariciavam as mulheres. Seus corpos entrelaçados mal se divisavam ao luar terno da lâmpada. Eles não escutavam talvez, e quem sabê o que eles distinguiam? Ele fumava, e eu observava prepararem seus cachimbos, e ele aspirar as volutas negras que depois soltava pela boca.

Esse eu não vou dizer quem é. É que eu não sei sua idade, nem seu tamanho: pois eu o via somente deitado sobre a esteira e a lâmpada ilumina muito pouco. Entretanto, sua barba era grisalha, e seus olhos de um metal verde. Nós o chamávamos de O Silencioso, pois ele não falava senão após o trigésimo cachimbo. Mas ele dizia então palavras extraordinárias. Já havia visitados todos os países e o ópio os fez compreende-los. Eu creio que ele é capitão de um navio de guerra; mas não estou muito seguro: isso que se passa fora do homem me é indiferente.

Ora, eis o que ele me disse numa noite em que por muito tempo tínhamos falado das aparições e dos fantasmas.

“— Os mais sinistros não são esses que erram nos cemitérios, ou que se emboscam nas casas esperando para estrangular os tolos incrédulos. Desses aí, todos nós já os vimos, nós fumadores. Eles não ousam, aliás, nada contra nós, pois eles sabem bem que o ópio também nos fornece fluídos e imaterialidades como a deles mesmas e que nós os pressentiríamos na noite, tão rapidamente, que seria antes mesmo deles nos perceberem. Mas eu vi outros, desses que não se ocupam dos vivos, pois seu trabalho de fantasmas é muito mais pesado e terrível.

… — Me diga, você se lembra do Renard? Não? Isso se passou a alguns bons anos, num tempo em que sete cachimbos um pouco grossos eram suficientes para me embriagar. Quando agora são necessários quarenta. O Renard era um cruzeiro que naufragou não se sabe como; um navio estreito e comprido, cujo casco parecia somente descansar sobre o mar e cujos três mastros erguiam-se muito alto, como que para evitar a água negra. Ele partiu num belo dia calmo e nunca mais retornou. Em seu lugar, um ciclone aportou e assolou toda a costa. E esse ciclone, não era um ciclone parecido aos outros: ele girava da direita para a esquerda, enquanto que todos os outros ciclones do Oceano Índico giram da esquerda para a direita, imutavelmente. Eu sempre achei isso bizarro. Mas não havia ainda pensado o suficiente. Somente um dia, em uma fumaria do Tonkin, um holandês me afirma que existiam tempestades especiais, tempestades vivas: se as reconhece pelo fato de que elas violavam todas as leis naturais, soprando do norte quando teriam que soprar do sul, indo-se à direita quando se os esperava à esquerda e só fazendo enfim o que quisessem. Essas tempestades, me explica ele, são as manifestações de espíritos ocultos e perversos. E estes são os mais perigosos para os navios. — E ele ainda me contou diversas coisas a respeito deles.

Enquanto eu o escutava, me pus a pensar que o ciclone que colheu o Renard deveria ser uma dessas tempestades vivas. Mas não me inquietava entretanto.

Aliás, ninguém mais se ocupava do Renard. As mulheres do pessoal de bordo, já haviam posto a saia negra e o véu de luto, e também já os retirara. A maioria casara-se novamente, o que não lhes faria provavelmente nenhum bem. Enfim, os anos haviam escorridos. Quantos eu não sei mais, pois os cachimbos me impediram de sentir o tempo passar. — Espere, abaixe um pouco a lâmpada, a chama queimou esse cachimbo aqui…”

Ele segurou enquanto que eu diminui a mecha. E nós ouvimos então uma doce queixa ofegante, que subia das esteiras. Uma das mulheres acariciadas entrava em êxtase. Mas eu não sabia qual era, pois ele havia recolocado o ópio na ponta da sua agulha, — e eu preferia contemplar o ópio amarelecer e inchar sobre a chama.

Ele recomeça, suas frases se intercalam com os suspiros voluptuosos como que por acordes de alaúde.

“— Sim, todo mundo já havia esquecido o Renard, e eu também. Nenhuma novidade então, depois de tanto tempo! Somente uma prova de sua perda, e bem evidente: uma prancha quebrada que um veleiro encontrou sobre o mar, uma prancha do quadro da proa, sobre a qual se lia ainda RENA… as outras letras haviam sido arrancadas. Mas nenhuma dúvida era possível, e todos os marinheiros haviam reconhecido a prancha e as letras.

Ora, eu solicitei um dia ir à China, pois o ópio das farmácias daqui não valem nada e a necessidade me levava a fumar do outro. Eu parti em um grande cruzador que eu não gosto de dizer o nome pois ele me traz azar. E no Oceano Índico, um ciclone nos encontra.

Em Aden, já nos haviam prevenido. O ciclone foi anunciado pelo telégrafo. Mas como estávamos com pressa, partimos assim mesmo. O comandante me encarregou de calcular a curva do torvelinho. Você sabe que esses instrumentos não são difíceis. E eu fiz as minhas observações, alinhei meus ponteiros e lhe entreguei meu papel no dia seguinte à partida, no serão. Após o que eu voltei a minha cabina e, bem fechada, me pus a fumar.

Logo, tudo ia bem. Eu fumei até a noite. O mar se fazia de mais em mais forte, mas sobre minha esteira o balanço não me incomodava.

Mas quando a noite caiu, eu senti em seguida que acontecia qualquer coisa de anormal. O quê? Eu não sabia. Mas eu pressentia o obscuro do sobrenatural se aproximando de nós. Nesse momento o ópio me pareceu mudar de gosto. Com isso eu pensei que a fumaça também estava impressionada e inquieta, como eu. Entretanto, enquanto eu fumava, a noite tornava-se muito negra. E nenhuma claridade entrava mais pelo vidro da vigia.

Eu fumava ainda e a sensação se determinava. O ópio, todo alterado que foi pela coisa que se aproximava, aclarava, apesar disso, a minha mente. Uma a uma as certezas me vieram. Logo, aquele era um perigo duplo, duplo por quê? Eu não sabia; mas infalivelmente duplo, dois perigos igualmente mortais, que vinham diretamente sobre nós, implacavelmente, e eu senti que eles chegavam em um redemoinho. E em meu espirito a ligação se fez então: eu lembrei do ciclone. Mas ao mesmo tempo, eu senti que o giro ia da direita para a esquerda. Infalivelmente, meus cálculos então estariam errados. Mas eu não me demorei nesse pensamento. Pois de antemão eu sabia que meus cálculos importavam pouco e que nós não estávamos combatendo um ciclone ordinário.

E de súbito uma coisa horrível me aconteceu; a lâmpada extinguiu-se sem uma causa evidente e a obscuridade me encheu de horror. Eu escutei os móveis gemerem e as fibras da esteira se encolherem de espanto. Os bramidos do vento atravessaram a parede e vieram até a mim. E eu compreendi então bem claramente que esse vento ali não era um vento natural, um simples deslocamento de ar mais ou menos furioso; mas sim, uma coisa viva que sabia e que pensava, e que neste caso estava sem dúvida em marcha, e se perguntava a ela mesma se sim ou não, se iria ou não despedaçar a casca de noz em que estávamos.

Eu estava ébrio, e minhas pernas falseavam. Consegui me levantar assim mesmo de um salto. Subi para a cobertura me agarrando pelos barrotes. O balanço era tão forte que minhas mãos mal me detinham.

Ora, eu chegava ao topo da escada quando o vento se apaziguou de um golpe como sob a voz de Cristo. Sem dúvida que estávamos no centro do redemoinho. Você sabe que no centro ele é sempre calmo. Mas apesar disso, é o lugar mais perigoso, porque ao redor, o vento gira mais rápido que uma funda.

Não importa, nessa calma artificial, eu pude me endireitar e ir até a amurada. E foi então que eu vi a aparição.

Sobre a água prodigiosamente fosforescente, que se assemelhava a uma mortalha fúnebre, pespontada de uma infinidade de lágrimas de ouro, um navio flutua ao nosso lado. — Um navio delgado e longo, cujo casco parecia somente repousar sobre o mar e cujos três mastros erguiam-se tão alto, como que fugindo do mundo dos vivos. Eles estremeciam, esses mastros, como estremeciam seus reflexos sobre a água, seus picos não estavam claros, mas se perdiam no céu como a fumaça. O casco, ao contrário, se via com extraordinária precisão, mais preciso que um casco de ferro e madeira. E sobre a proa, alguns homens se sobressaíam com as faces pálidas e com os dourados de suas roupas, cintilantes. Mas, entretanto, todas essas coisas estavam diáfanas e por entre as pranchas e os homens, eu ainda podia ver o mar e a sua fosforescência.

O navio-fantasma nos ultrapassou, sem que eu ouvisse qualquer ruído de seus motores. Girando lentamente sobre si mesmo. Sua popa passa junto a mim e eu vejo o painel; uma tábua quebrada, arrancada, restando somente duas letras, as últimas: RD…

Ele se afasta. O vento torna a soprar, mais violento do que antes e eu não vi mais nada. Evidentemente, o centro do ciclone vivo arrastava ao infinito, eternamente, o fantasma do navio morto. — Então, eu voltei a descer e me pus a fumar. Mas o ópio havia transmutado como que em leite e os cachimbos estavam todos insípidos. Isso foi o que mais me espantou. — Passe-me a esponja, meu fornilho está muito engordurado”.

Ele se calou. Sobre as esteiras, as duas mulheres gemiam agora, suas carícias e seus suspiros se misturavam. Mas eu, eu olhava somente o cachimbo que tornava-se brilhante sob a fricção da pequena esponja embebida em água.