sexta-feira, 17 de maio de 2013

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - O que se passou na casa do Boulevar Thiers


O QUE SE PASSOU NA CASA DO BOULEVAR THIERS

O que se passou na casa do Bulevar Thiers eu não tentarei explicar. E se estou narrando aqui, é com pesar. Pois, as pessoas ditas razoáveis não farão caso e os outros, com os quais estou, não encontrarão nada que os possa curar da sua loucura.

Mas eu contarei assim mesmo porque é verdade. Isso se passou no 1º. de maio do ano passado, em uma cidade que eu não mencionarei, — por prudência — no quarto andar de uma casa que não é velha e nem misteriosa, mas nova, simples e feia. Essa casa foi construída muito recentemente, sobre os escombros de um bairro mal afamado. Uma larga avenida, margeando um rio, substitui hoje os casebres de venezianas fechadas que se suspendiam outrora nas encostas da sua margem. E o bairro novo tem um ar honesto. Mas, as antigas pedras, viciosas à força de terem vivido do vício, serviram para a fundação dos novos edifícios. E, certamente o bulevar Thiers está ainda impregnado do vício remanescente.

Essa casa traz o número 7. É uma casa alugada. Nós a ocupamos, oito ou dez amigos, durante uma temporada. Eu jamais soube ao certo quem eram os outros locatários. Nós tínhamos ali uma fumaria de ópio e os quartos se distribuíam ao redor. Mas, ninguém dormia nos quartos porque se preferia fumar e conversar até o amanhecer, estendidos sobre as esteiras de arroz. O ópio liberta os seus do julgo do sono. Algumas vezes, nós fazíamos rodar uma mesa, e nos deleitávamos em questionar essa coisa incomum que se exterioriza nos dedos para conseguir levantar os quatro pés, um após outro, sem nenhuma força aparente. Havia entre nós um homem singular, completamente imberbe, com longos cabelos pretos e macios. Ele se vestia na fumaria com uma roupa de clown, amarela e azul, que ele achava boa para as experiências espíritas. De fato, ele era um mago bastante medíocre. A mesa movia-se facilmente sob suas mãos, mas jamais algo de mais extraordinário resultou disso.

Frequentemente, as mulheres nos visitavam, ávidas da boa droga; ávidas também de carinho, pois a sensibilidade das mulheres se acolchoa e se infla, perante a embriaguez negra, tanto que o contato brutal dos homens lhes parece então delicado e dócil como o contato de um andrógino. Na noite que eu falo, uma mocinha de uns vinte anos tinha vindo. Nós a chamávamos de Éter, por causa de sua paixão: pois precisava, a cada noite, de um frasco de éter sulfúrico. Isso não a impedia de fumar em seguida uns quinze cachimbos. Nessa noite, ela estava duas vezes ébria, e jazia nua. Alguém lhe acariciava os lábios. A lâmpada terna enchia a fumaria de penumbra. Nós conversávamos, eu não sei mais sobre o que.

Porque a fantasia nos levou a girar a mesa, me é impossível de recordar. Hartus, — Hartus, o clown amarelo e azul com cabelos de mulher — levantou-se primeiro e me chamou para ajudar a carregar a mesa para um dos quartos — perto do ópio uma mesa não pode girar. E como eu estava demorando a me erguer da esteira, ele tomou a mesa sozinho e a carregou. Ainda hoje me permanece precisa a visão da sua silhueta engraçada, curvado e com a mesa apoiada sobre seu ventre. Continuei deitado por mais um minuto, aborrecido por ter de deixar o entorpecimento doce do sexto cachimbo. A minha direita, Éter, inconsciente, com a embriaguez pesando forte sobre sua cabeça, segurava com as duas mãos uma boca complacente contra seu corpo. Eu me levantei e segui Hartus.

Dentro do quarto úmido e algo vicioso, ele acendeu somente uma vela, cuja chama dançava uma sarabanda. Pelas vidraças, através das cortinas de tule, a lua peneirava de orvalho as paredes.

Presentes um em frente ao outro, com as mãos roçando a madeira, nós permanecemos silenciosos por muito tempo. Mas alguma coisa ia mal, pois a mesa permanecia inerte. Ela nem mesmo estalava — sabe, esses estalidos secos e bizarros que precedem a exteriorização do movimento. Não, alguma coisa estava errada. Nós tínhamos fumado antes, fumado sofrivelmente e talvez fosse essa a causa.

Por fim, deixei, me levantei e a lua me tentou, abri a janela e me apoiei com os cotovelos. Eu vi a noite serena, os telhados inundados de brancura e o rio cravejado de reflexos. Ele parecia doce. Uma brisa suave entreabria meu pijama e acariciava meu peito. Nesse momento, no silêncio absoluto, eu ouvi atrás de mim o clawn amarelo e azul soprar a vela. E foi então que a coisa inexplicável começou.

A brisa que soprava sobre meu corpo pareceu repentinamente fria, muito fria, como se o termômetro tivesse baixado bruscamente uma dezena de graus. E a mesa caiu ruidosamente e se reconstituiu de um golpe. Eu acreditei que na obscuridade, Hartus houvesse tropeçado nela e a virado de cabeça para baixo. Mas do fundo do quarto, ele me pediu imediatamente para fazer menos barulho. Eu não disse nada. Mas sabia bem que eu, eu não havia tocado na mesa.

Então, fiquei com tanto medo que crispei meus dedos no apoio da janela. Depois, recuperando meus nervos por um golpe de vontade, me voltei de um só passo e fiz frente para a coisa inexplicável. A mesa estava imóvel e Hartus tinha ido à fumaria. Eu contornei a mesa sem ousar tocá-la e o segui.

Na fumaria tudo estava como antes. Os fumadores estendidos, sempre misturados. Sobre sua esteira, Éter continuava a pressionar contra seu corpo os lábios do acariciador. As cortinas pesadas escondiam a lua e somente a lâmpada amarelava o teto. Ora, assim que eu entrei, Éter afastou a boca do homem e se levantou com destreza. Isso me surpreendeu muito, pois um instante antes, o éter e o ópio a paralisavam absolutamente. Mas agora ela não estava mais ébria. Eu vi seus olhos limpos e lúcidos. Ela se encostou num biombo com as mãos sob a nuca. E sua nudez magra me pareceu grande e mudada. Nos detalhes dos traços, eu reconhecia os ombros redondos, os seios rígidos e pequenos, a cabeça estreita e febril. Mas a harmonia do conjunto diferia. Me parecia descobrir uma mulher diferente, orgulhosa e casta, com uma raça nobre em seu sangue e um pensamento raro em seu cérebro — e não mais a cortesã Éter, nascida de uma lavadeira, e que não sabia nem ler. Assim, enquanto a considerava, eu tive um estupor: seu amante voltou-se para chamá-la e ela replicou com uma voz lenta:

Mundi amorem noxium horresco.[1]

Ela nem sabia ler. Ela falava unicamente francês — um francês medíocre e manchado de idiotismos bretões.

Ela repetiu imediatamente, com a mesma voz serena — uma voz de freira ou de abadessa:

Jejuniis carnem domans, dulcique mentem pabulo nutriens orationis, coeli gaudiis potiar.[2]

Os fumadores não se surpreenderam. Sem dúvida para seus espíritos desmaterializados, isso que eu achava extraordinário, parecia-lhes natural. O clown amarelo e azul apenas ergueu as sobrancelhas e olhou a mulher. Depois, ele lhe falou, com uma polidez que não nos era habitual:

— Não fique em pé, vai ficar cansada.

Ela não saiu do lugar e continuou:

— Fiat voluntas Dei! Iter arduum peregi, et afdfligit me lassitudo. Sed Dominus est proesidium.[3]

Ele a interrogou curiosamente:

— De onde vem?

Ela respondeu:

— A terra Britannica. Ibi sacrifico sacrificium justitioe, quia nimis peccavi, cogitatione, verbo et opere. Mea maxima culpa.[4]

O clawn a questionou ainda.

— Qual foi o teu pecado?

Cogitatione, verbo e opere. De viro ex me filius natus est.[5]

Distintamente eu vi sua face branca corar-se.

 

Ela continuou, falando sempre em latim, um latim da Idade Média, um latim de convento e de missal que eu compreendia por partes — o odor de ópio ajudava nas minhas recordações do catecismo. Eu estava situado junto à lâmpada, e na intermitência das palavras, eu ouvia cozer a droga na ponta das agulhas. Somente isso acalmava o meu medo — um medo surdo que me secava a garganta e que persistia malgrado a aparência simples de toda a cena. Hartus, alterado pelos cachimbos fumados, falava sem embaraço, com seus nervos dominados. Eu o olhava, eu a olhava, e essa imagem dos dois está incrustada, tão profundamente na espessura da minha retina, que jamais alguma outra imagem apagará isso dali, — eu os vejo. Ele, o homem amarelo e azul, uma mão ao solo, e a lâmpada alourando por vezes os seus cabelos negros e flutuantes. Ela, a estrangeira, — estrangeira certamente! Nua, as costas na parede, os cotovelos em ângulo, os dedos juntos sobre a nuca. E as palavras que passeavam entre eles, de um vai e vem vivo, enquanto que o quarto, progressivamente, se impregnava do além-túmulo… A voz desconhecida conservava o timbre monacal do início, mas agora soava com mais força, — como cada vez mais próximas. As frases do início, golpeadas e curtas, — frases apressadas, frases de uma viajante pressionada, que não tem tempo para discorrer — se alargaram agora em períodos mais copiosos, fartas de incidentes e floridos de retórica. E eu não compreendia mais — mau clérigo e demasiado fora de mim mesmo.

Depois, eu questionei Hartus, que sabe a língua dos seminários. Mas ele não respondeu. Ele não gosta de voltar a falar dessa coisa.

Eu guardei somente a lembrança da voz, a voz latina, que salmodiava lentamente como nos responsórios litúrgicos. No vôo eu agarro alguma das palavras, dos nomes dos homens ou dos países, dos termos eclesiásticos que se alojaram confusamente em minha memória, mas sem lhes atribuir o sentido que eu descubro hoje — ao acaso talvez. —Astrolabius, Athanase, Sens, Argenteuil, excommunitio, monasterium. A voz se anima e se dilata. Isso se assemelha a uma disputa, a um conflito oratório. Duas palavras bóiam nas ondas das frases, duas palavras dez vezes repetidas, de início com ardor e veemência, depois com o tom de contrição e de dor, — panem supersubstantialem. E de súbito, a voz se detêm, triste, infinitamente.

Eu ouvi então o clawn amarelo e azul falar, e ainda que eu não soubesse nada do que se estava dizendo até ali, sua voz e sua questão me deram igualmente a sensação de absurdo:

— Pecado de luxúria, qual foi o castigo de Deus?

A face branca enrubesceu desta vez violentamente e a voz baixou em uma oitava. Isso foi como um cochicho solene de confessionário e somente algumas palavras me chegaram, com estranhos acentos de repulsa. Ouvi — modo bestiarum, — copulatione, membris asinorum erectis — e violentamente proferiu como um vômito de desgosto que se expele, a palavra — castratus. E volta à sua serenidade anterior, a voz se afrouxa e encarnece, tão bem que, textualmente, a última frase continua em minha memória:

— Fuit ille sacerdos et pontifex, et beatificus post mortem. Nunc Angelorum Chorus illi obsequantem concinit laudem celebresque palmas. Gloria Patri per omne soeculum.[6]

— E agora? — Perguntou Hartus.

— Dominus Omnipotens et Misericors Deus debita mea remisit. Virgo ego fatua. Sed dimissis peccatis meis, nunc ego sum nihil.[7]

Ela repetiu três vezes nihil. E pareceu subitamente que ela flutuava para muito longe. O último nihil não era mais que um sopro.

O clawn amarelo e azul andou até que a tocou, e fixando seus olhos claros que não cintilavam, ele a chamou: — Heloísa[8]? Os olhos se fecharam afirmativos.

Então ele lhe sustentou o seios em seus dedos e soprou-lhe ópio no rosto. Ela não se agitou. Mas lentamente seus músculos se afrouxaram e eu vi uns estremecimentos transparentes sob sua face pálida. Um minuto. Depois os olhos se reabriram e soçobraram, o busto dobrou; e ali não havia mais, prostrado sobre a esteira, que um corpo flácido, privado de vida.

Logo, este corpo pesadamente se mexeu e de sua boca, e da mesma boca, saiu uma outra voz, balbuciante, encharcada de embriaguez.

— Me cubra que faz frio! Me passe um cachimbo, certo? E depois minha saia. Estou morta.

Era verdade, fazia frio, frio como em uma adega.

Um dos fumadores afundou dentro do fornilho a bolinha marrom que adere na agulha, e estendeu o cachimbo à pedinte. Ele havia, talvez, ouvido o mesmo que eu. Mas sem dúvida, o ópio, ao mesmo tempo, mostrou-lhe outras coisas ainda mais maravilhosas.

 



[1]   O amor culpado me causa horror. (n. do a.)

 

[2]  É domando meu corpo pelos jejuns, e nutrindo minha alma pelo doce alimento da oração, que eu alcançarei as felicidades do céu. (n. do a.)

 

[3]  Que a vontade de Deus seja feita. Eu tenho percorrido um caminho penoso, e estou cansada, mas Deus me sustenta. (n. do a.)

 

[4]  Eu venho do país da Bretanha. Ali, eu me ofereci em sacrifício como punição, pois eu muito pequei, em pensamentos, em palavras e em atos. São essas as minhas três grandes faltas. (n. do a.)

 

[5]  Por pensamento, por palavras e por atos. Um filho nasceu das minhas entranhas. (n. do a.)

 

[6]— Ele foi padre e pontífice, e beatificado após a morte. O coro dos anjos cantam agora em seu louvor ou louros de seu triunfo. Glória ao pai por todos os séculos. (n. do a.)

 

[7]  A mim, o senhor Deus todo poderoso e misericordioso há remido minha dívida. Eu fui uma virgem sem prudência, mas agora, meus pecados me foram perdoados, e eu não sou mais nada. (n. do a.)

 

[8]  Referencia ao drama medieval do amor vividos entre o Filosofo Abelardo com e a sua tutorada Heloísa. Romance que se transformou num dos mais famosos dramas platônicos após ele ter sido castrado pelo tio de Heloisa no ano de 1117. (n. do t.)

 

Quinta Parte - Os Fantasmas