terça-feira, 2 de abril de 2013

O Sexto Sentido - Claude Farrère


O SEXTO SENTIDO

Dezesseis, dezessete, dezoito? Eu não sei mais. Já notaram que coisa impossível é essa de se contar os cachimbos? Eu nem sei mais quantos foram fumados… Vejamos: eu sinto meu cérebro alerta e ágil sob minha fronte diáfana… Esse deve ser o vigésimo… Eu sinto minhas veias repletas de um fluido admiravelmente vivo e ligeiro, que por certo não é mais de sangue, do sangue vermelho e grosseiro dos homens. E aliás, desde as primeiras baforadas, tornei-me claramente superior aos homens, — mais próximo em verdade, dos deuses. Mas este cachimbo aqui deve ser o vigésimo, pois o julgo do sexto sentido pesa agora mais forte de minuto em minuto. E dentro em breve eu serei de fato Deus, — espírito puro. Lastimo somente que então eu não possa me levantar das esteiras, para materializar todas as maravilhas que minha cabeça cria incessantemente! Mas eu não posso. É mesmo engraçado, meu corpo com a ligeireza suprema e, entretanto, essa paralisia voluptuosa que me cola ao solo! Efeito da droga?! E eu sei de mais bizarros…

… Mowg vem fumar esse aqui? O próximo será para mim…

… Não, o sexto sentido não está ainda rigorosamente atrofiado. E me será necessário mais três ou quatro cachimbos… Ao ver Mowgli voltar para mim sua garganta e suas ancas transparentes sob a seda do quimono, uma tentação me vem, a de saborear esse corpo. Quatro cachimbos, isso não será o bastante. Para suprimir o desejo é insuficiente. É preciso suprimir até a compreensão do desejo, — desobstruir de todos os seus prismas o ato da cópula, e o ver tal como é: uma palhaçada inexplicável. Somente então, eu poderei saborear em liberdade a quintessência da minha embriagues, — sem que os suspiros de prazer que subirão das esteiras possam perturbar minha serenidade.

— Você já fumou? Dê-me o cachimbo para que eu raspe essa borra. Esse ópio aqui é muito forte, ele engana. Deve-se misturar o de Benares ao Yunnam…

Quais são os fumantes desta noite? A lâmpada ilumina tão terna e meus olhos se agradam tão longamente ao contemplar a chama, que eu não distingo mais os semblantes. Mowg, querida, vigia para que todos tenham sua esteira e a sua almofada de couro, e um pouco longe deles uma lâmpada e um cachimbo. Entretanto, reserva à minha nuca o travesseiro morno do teu ventre… Ah não! O sexto sentido vaga ainda. Deixo, Mowgli, deixo para que você ordene teu corpo e tua flor, — porque eu não posso mais usá-los; e guarde-me somente tua alma conjugal, tua alma gêmea da minha, nutrida igualmente de ópio. Tão ligeiro que nos passam os anos, já faz muito tempo que estamos unidos; eis que eu tenho trinta anos, e você vinte e sete. Nem um dia de briga, não é isso Mowg, depois do nosso primeiro beijo?

Tudo isso portanto é bem estranho, e certamente um dia, eu chegarei a me convencer da verdade dessa vida que é a nossa depois do nosso casamento. Sobretudo quando a lembrança dos anos precedentes me atormentarem, do tempo onde eu era um simples rapaz ávido de viver e que lançava apaixonadamente os milhões paternos na busca do prazer. Isso é verdade, isso é verdade! Eu fui isso. Sou isso que andou em corridas sobre os potros da minha cavalariça, eu fui esse que cruzou a baia de Cowes somente com a coragem, eu fui esse que se deixou jogar no grande fosso pelos lábios de Cendrelli, que estava tão bela em Isolda, à qual eu dava dois mil luíses por mês. E eis o mais barroco: sou eu que me enamorei de Miss Mowgli que está aqui, e que fogosamente a esposei, renunciando confusamente a todas as pompas e a todas as obras do diabo, e não sonhando mais que com a sua boca cândida e com o aperto casto dos seus braços frescos. Miss Mowgli, — nós que escolhemos esse belo nome selvagem, depois, eu já esqueci o verdadeiro, — Miss Mowgli, a criança do velho almirante vencedor de Formosa, a feroz filhinha mal liberta do seu convento, a virgem cujos olhos claros pareciam serem inacessíveis ao redemoinho assombroso das sensualidades. A mim, isso tudo era igual; e eu me recordo das nossas primeiras noites pudicas que se deliciavam, sobretudo com ternuras infantis e com beijos timidamente devolvidos… Então, nós corremos o mundo. Os ancestrais marinheiros haviam sem dúvida insinuado em minha querida, obscuras ânsias viajantes. Por todo um ano, o Japão nos possuiu, e agora ainda, agora mesmo, eu me recordo com doçura seu êxtase silencioso na tarde em que o nosso yacht atravessou o Simonoseki, ao por do sol. Sim, realmente, se pode ter felicidade sobre a terra, mesmo por pessoas que não fumam…

Mowgli, minha pequena, não se subtraias ainda, e sem receio de enegrecer seus dedos, enche-me mais um cachimbo, para que eu esteja mais rapidamente preparado para sua próxima traição. Eu leio muito bem sua querida alma fiel, e eu sei que você conterá o teu desejo até a hora eminente em que irei me eximir alegremente do meu grosseiro ciúme.

… E depois, foi na China que nós dois fumamos pela primeira vez. Na China, em Xangai, na Fou-Tchéou-Road. Oh! Como está claro em minha cabeça! O 6 de outubro de 1899; — onze horas da noite. Nós havíamos jantado na casa de um negociante chinês que se chamava Tcheng-Ta, e quando as cantoras deram por encerrados os seus miados, Tcheng-Ta nos ofereceu a curiosidade de aspirar um cachimbo em sua fumaria. A fumaria de Tcheng-Ta, no corpo de um edifício com vista para um pátio interior… Nas paredes, ele tinha quatro kakimonos, três obscenos que franziram as sobrancelhas de Mowgli. Mas, após o segundo cachimbo fumado; eu não via mais que um prodígio que se realizava misteriosamente, e que sempre eu havia acreditado impossível: os olhos claros, os olhos virginais de minha viajante, — se dilatavam, se esquadrinhavam, se fundiam em vertigens e em ansiedades sensuais, — como se fossem olhos que contemplassem o fundo de um abismo. E nessa noite ali, Mowgli, silenciosamente e brusca, procura meu membro e o absorve avidamente entre seus dentes estreitos.

Depois disso, voltamos a fumar todos os dias.

… Mistério. O sexto sentido se insinua nela ao mesmo tempo em que se extingue em mim…

Nós fomos fumar todos os dias. É tudo tão simples, não é? Jovens, ricos até a opulência, ávidos de todas as emoções nobres que a vida possa nos dar, nós teríamos sido loucos se recusássemos a emoção tão nobre do ópio. Por conseguinte, nossas almas, já bem íntimas, bem irmãs, são mais bem compreendidas, melhor aferida uma à outra. E agora, nossa paixão está no seu apogeu. Nossos pensamentos idênticos são simultâneos, nossos sorrisos, nossos sonhos, nossas lágrimas nos mesmos instantes e pelas mesmas causas. Bem mais! Quando seu corpo se abandona ao beijo de um indiferente, ali, junto a mim, na fumaria, — eu sei que sua alma se depreende para vir se entender com a minha, e me vingar portanto na mesma hora dessa insignificante traição que ela não pode evitar…

É que na realidade as coisas se passam assim: o sexto sentido se desperta em seu corpo ao mesmo tempo em que ele se adormece no meu. Não há nada ali que não seja racional, — normal, — ainda que incompreensível. Assim se diverte o ópio caprichoso, não, sábio. Nas mulheres, criaturas do amor, ele exaspera e multiplica o ardor amoroso; nos homens, criaturas do pensamento, ele suprime o sexto sentido que se opõe grosseiramente às especulações cerebrais. É evidente que as coisas são bem assim e que o ópio tem razão, — sempre tem razão.

… Outro cachimbo.

E o ópio, lentamente, me despoja de minha virilidade, me dispensa dessa obsessão sexual tão incômoda aos espíritos fiéis e verdadeiramente ávidos de liberdade. De início, louco que era, eu me afligi e me rebelei, como o escravo a cujo se quebram os grilhões e que recusa ignobilmente o pão e o teto do senhor. Eu blasfemei contra a lei prudente do ópio, eu a chamei de absurda e injusta. Eu não compreendi que fosse razoável, que o desejo cessasse de habitar minha carne de homem, ao mesmo tempo em que ele passava para a carne feminina de minha companheira. E estupidamente, comicamente, eu quis tornar a subir o rio, quis recusar a abdicar minha função de amante; — até que num dia mais sábio, o ópio abriu os meus olhos, — abriu também os olhos dela; — até o dia onde nossos corpos se divorciaram, a fim de permitirem às nossas almas de se esposarem mais amorosamente, dentro do ópio…

…Um cachimbo mais. Mowg, querida, seja paciente, é o último. Eis-me liberto de tudo no mundo. E eu sinto sua alma, graciosa e meiga, que começa a roçar o que me pertence de seus beijos provocantes. Desate, desligue seu corpo doloroso, jogue seus dedos, sua garganta, seu ventre ao homem mais próximo, e se esqueça do inútil pudor. O ópio nos eleva para o alto, acima da terra. Eu não vejo mais que a fumaça negra que se expande, magnífica ao redor da lâmpada, e eu ouço milhões de harmonias maravilhosas que irão se misturar a seus suspiros e a seus gritos de prazer. Vai, ria e chore, aperte seu amante dessa noite em seus braços ávidos, entre suas pernas lascivas, dê-lhe loucamente seus lábios, seus dentes, sua língua vibrante, esmague sob seus peitos seus seios arrepiados. Que a mim, eu tenho unido mil vezes mais íntima, nossas almas confundidas que se dissipam indelevelmente em inefáveis carícias, em indizíveis ardores. E, — eu nem por um minuto, — eu não sonharia, sem o ópio, com esse apertar de meus braços, minha língua, meu peito, que fruímos agora através de você.

O quê? De que nome me chamam vocês, imbecis? Oh! Brutas bestas que vocês são! Brutos que nunca fumaram o ópio.