quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

As Duas Almas De Rodolphe Hafner - Claude Farrère



AS DUAS ALMAS DE RODOLPHE HAFNER

À Henri de Régnier

De fato, Rodolphe Hafner teria mesmo duas almas? A mim, parecia claro, mas eu sei que é uma suposição bem barroca. Toda espécie de coisas respeitáveis como a religião, a filosofia, parecem estabelecer o contrário, de que ele jamais poderia ter mais que uma, e além de tudo, segundo a doutrina; — uma alma, ou nenhuma alma. Mas duas, é ridículo e louco.

Assim mesmo, eu creio que Rodolphe Hafner possuía duas almas que habitavam seu corpo uma após a outra. Para dizer a verdade, a primeira não era talvez muito boa para ele. Teria sido nesse caso uma espécie de alma errante, substituindo momentaneamente, por uma força dos poderes ocultos, à sua própria, a segunda. Se as coisas se passaram assim, essa alma errante, erra sem dúvida ainda hoje pelo mundo, em busca de um novo corpo que a acolha. Eu gostaria de a reencontrar, mesmo com o risco de perder minha própria alma para essa substituta, — tão eu prezava singularmente a primeira alma de Rodolphe Rafner.

Foi com essa alma que eu o conheci. De fato, onde o encontrei primeiro? Eu não sei mais muito bem. Nós passamos longos tempos percorrendo o mundo juntos. Por outro lado, minha memória torna-se verdadeiramente malvada depois que fumo o ópio indiano em lugar do chinês. — Não importa, eu me lembrarei de tudo em sua hora. Mas aquilo de que eu estou certo, é que foi em um país crioulo. Senhores, vocês não sabem o que são os negros. Seres moles e indolentes, que vivem em redes se balançando sob palmeiras? — Não, não é nada disso! Eu não vou explicar o que é, pois isso me fatigaria. — Ah, eis que me recordo: eu vi Rodolphe Hafner pela primeira vez em New Orleans, uma cidade muito vibrante. Eu estava lá há oito dias, vivendo na ociosidade. Uma noite, no salão dos Routh, intrépidas pessoas da St. Charles avenue, a filha da casa, que era minha amiga, me ofereceu para o dia seguinte um passatempo de prazer assaz raro: ela fazia uma lista para um regulation ring; (essas pessoas falam o inglês como as vacas espanholas). Eles anunciavam o combate singular de duas jovens mulheres, duas mulheres do melhor mundo, aliás, prontas a decidirem uma pequena diferença a golpes de murros, perante um círculo de amigos e amigas. Essas matinês crioulas dos ianques são surpreendentes. Eles não podem fazer nada a portas fechadas, nem mesmo se agarrarem pelos cabelos. Então minha companheira me deu os detalhes. Isso não era só mais um simples desafio esportivo, um pouco extravagante. Não, era uma verdadeira batalha para que vencesse a melhor. Ódio, ciúme, traição, eu não sei ao certo; e desafio a princípio. Pior, luta sem piedade, forte, comovente e provavelmente feroz. Naturalmente eu tive que ir.

De fato, foi feroz e emocionante na medida dos desejos. As duas combatentes se assemelhavam como duas gotas de água, mesmo tamanho, mesmo cabelo de ébano, mesma tez resplandecente e quente, mesmos corpos vigorosos e ágeis, mesmos perfis sensualmente animalescos e graciosos. Esse é o tipo único da Louisiana crioula, muito sedutor aliás. Elas se atacaram furiosamente, à inglesa, com as mãos endurecidas por grossas luvas de boxe, e a cabeça e a garganta nuas. — Elas vestiam roupas usadas da ópera cômica, idênticas, um uniforme para amassar: maiôs de seda negra, com feixes de cetim bufantes e pequenas blusas claras guarnecidas de um pequeno rendado. Em um quarto de hora, tudo ficou em farrapos. Elas se batiam como surdos enraivecidos a se desfigurarem. Duas francesas teriam terminado em um fechar de olhos, e se fosse preciso, com uma crise de nervos. Elas se aplicaram pacientemente sessenta e cinco minutos contados, — seis rounds sem resultado, no sétimo o nocaute. Fútil dizer que desde o segundo round o espetáculo foi mais repugnante que uma briga de cães. As duas faces inchadas, sangrantes, lamentáveis, os seios pisados, os ombros riscados de azul e negro, e elas continuavam a se martelar com todas as suas forças, sem gritos, sem lágrimas, como os selvagens que eles foram. E como eu me voltei para o outro lado, enjoado, vi um pouco à distância, atento certamente, mas sem esse vislumbre de ferocidade que brilha em todos os olhos crioulos ou ianques, um homem magro e elegante, imberbe, cuja fronte curvava-se branca como marfim sobre os soberbos cabelos negros, e cujos olhos esplêndidos, azuis safiras, possuíam o reflexo metálico de duas lâminas de aço.

Eu era nessa época muito impulsivo, sem nenhuma defesa contra minhas primeiras simpatias. Rodolphe Hafner me conquistou no mesmo instante, tanto que fui direto a ele e lhe estendi a mão.

— Por que — disse eu. — Olha essa coisa repugnante?

Ele me considera por alguns instantes, sem nenhuma surpresa. Depois, voltando seus olhos ao ringue:

— Esse é um prazer civilizado, — diz ele, — de perceber o instinto primitivo mais a nu.

E ele aperta minha mão.

No instante seguinte, minha colega, a pequena Routh, que devora com os olhos as duelistas, entrelaça seus dedos com os meus, nervosamente. Esse era o momento de um corpo a corpo trágico, e na pressão dos dedos da criança, eu senti toda a sensualidade sádica exasperada pelo brutal espetáculo. Hafner me havia apertado a mão mais fortemente ainda, mas no aperto dele não havia nem sensualidade nem emoção. Ele estava rigorosamente calmo e dono dos seus nervos. Nossas mãos se estreitaram fortemente por simpatia somente, simpatia mútua e repentina. O que fez, aliás, entre nós, desde aquele minuto, uma amizade extraordinariamente íntima que durou por muito tempo, até a nossa separação.

— Que bizarro, — me disse ele ao cabo de um instante, desta vez sem deixar de olhar a batalha. — Tudo isso não é em suma senão um corolário das leis de Newton.

E é certo que se qualquer outro me tivesse dito essa frase elíptica, eu teria sorrido sem compreender. Mas desde que Hafner a pronunciou, ela se esclareceu instantaneamente em meu cérebro, como se me fosse comunicada por algum sortilégio oculto, desde a dedução mental da origem até a sua conclusão. Eu estava certo que foi o ciúme que havia posto uma contra a outra das duas desafiantes na arena, e que, o ciúme não era outra coisa senão um corolário do amor, podendo sem paradoxos conectar-se à atração dos sexos, forma inestudada da atração universal, e de tudo isso que se passava entre nós. O silogismo me pareceu evidente, — incontestável, e eu respondi muito sinceramente.

— Por que bizarro? É natural.

Nossas mãos ainda não haviam se desprendido. Novamente eu senti seu aperto, familiar dessa vez. E o pesar que levantava em meu coração, se dissipou estranhamente a esse contato. Uma parte da sua calma me penetrou. Uma misteriosa troca de eflúvios cerebrais se fez entre nós. E eu pude contemplar como ele, sem paixão e com curiosidade. Houve uma trégua. As duas rivais ofegantes molhavam-se com esponjas e limpavam-se como os animais de esporte. E me pareceu que seus olhos olhavam para nós. Isso não foi mais que uma impressão. Logo em seguida voltaram-se face a face. Esse foi o último round. Deus sabe que um round a nocaute é particularmente hediondo, ainda que eu olhasse sem esforço, como Hafner. Esse não era mais um combate, mas sim uma execução. De antemão, o vencedor já estava designado, e ele não fazia mais que abater e de bem saciar-se com o sofrimento. Eu vi uma das rivais, embrutecida e obstinada, tropeçar duas vezes sob os golpes triunfantes que lhe caiam sobre o rosto. Eu vi seus punhos abandonarem a luta; seus cotovelos tentarem frente a sua fronte a suprema defesa do instinto, o gesto patético da menininha que tenta se esquivar de uma bofetada perversa; e finalmente seu corpo desfalecer, dobrar-se e cair sob o golpe fatal que lhe arranca um gemido de animal dilacerado. Isso foi o fim. Conduz-se a vitoriosa, somente um pouco menos machucada. E eu dei novamente o braço a miss Routh que palpitava.

Mas Hafner não me deixou mais. Ele quis ser apresentado à filhinha.

E eu percebo somente agora que não sabia nada dele, nem mesmo seu nome. Ele em seguida se apresenta: — Rodolphe Hafner, estrangeiro. — Ele não me disse mais nada. Não me surpreendi pois sempre achei burlesco o costume dos homens que minuciosamente nos informam da ocupação da qual eles são escravos, e do leito no qual, outrora, seu pai deitou sua mãe sobre o dorso. Como se eles tivessem ali algo do que se glorificar.

Nós comemos caranguejos juntos, no Chez Mers, conhecem? A cervejaria do bairro inglês. E eu o ouvi conversar pela primeira vez. Sua conversa era de um charme inexprimível. Não a loucura artificiosa dos espirituosos, nem as frases desenvolvidas e substanciais dos profundos. Não, mas de uma graça, uma ligeireza, uma poesia de sonho, com isso ou aquilo, ao acaso das ideias, um paradoxo desconcertante, uma verdade sublime e nova, uma crueza inesperada e aceitável, e, a cada ângulo do pensamento, o incomum e o indecifrável, o mais além. A conversa de um fantasma que seria poeta, filosofo e homem. Aliás, eu não conseguiria dar a sensação justa, e tudo isso que escrevi não se parece mais que uma careta de macaca ao sorriso da Gioconda.

Quase imediatamente ele nos deixou, — eu digo quase imediatamente porque isso se pareceu assim; na realidade, nós ficamos juntos até a noite.

Ele nos deixou para ir, diz ele: — fumar uma meia hora antes de voltar para casa. — Ele jantaria na cidade.

— Em casa de quem? — Perguntei eu sem discrição e sem nem mesmo pensar que isso não me dizia respeito.

— Em casa de Madame B., — disse ele sem hesitar. — Aquela que se bateu há pouco.

E ele se foi, após me ter marcado um encontro para a noite. Desde que ele partiu, constatei que miss Routh estava amorosamente louca. Ela o via pela primeira vez e estava vivamente interessada. E ela foi realmente sua amante, três dias mais tarde, quase por força, pois ele não a queria.

 

* * *

 

O poder sedutor desse homem era realmente prodigioso. Desde a primeira noite, eu soube que as duas mulheres do regulation ring estavam se batendo por ele. Ele me confiou sem mistério nem fatuidade. Não que fosse indiscreto, mas desde então não éramos mais que um em dois corpos. Nessa primeira noite, ele me recebeu em sua casa, na sua fumaria de ópio, um santuário que jamais abria a quem quer que fosse. Contrário ao gosto de todos os fumadores que eu conheci, ele somente apreciava fumar só. Extraordinariamente nós fumamos a dois, mas não houve em verdade nenhuma troca: nossos dois pensamentos estavam tão bem aferidos um ao outro, que nós não tínhamos necessidade de falar para entendermo-nos. E o silêncio da fumaria não foi perturbado, apesar do intercâmbio constante dos nossos assuntos.

E nós éramos todos, o um e o outro. Quando eu digo todos, pretendo falar de um todo intelectual e sentimental. Pois essa vida exterior, suas relações, seus antecedentes, sua fortuna, seu país, jamais me interessaram. Mesmo seu físico nunca me foi familiar. Hoje, quando eu procuro me recordar de sua silhueta, tenho consciência de que o que revejo é o perfil do último Hafner, do outro, e não desse que foi anteriormente meu amigo absolutamente íntimo.

Ora, o segundo Hafner; — no qual se alojou essa outra alma, eu o vi por duas vezes ao todo e, por conseguinte, os explicarei a sua hora.

Mas o primeiro, é em meu ser e não em meus olhos, que se imprimiu indelevelmente. Quase três anos inteiros nós não nos separamos nem por uma semana. O que se seguiram de acasos inquietantes por força dessa concordância, eu não poderia mais enumerar. Sua carreira, — de fato, eu só saberia dizer que era qualquer coisa dentro das embaixadas, e aliás, foi por acaso que eu soube; — o levou caprichosamente pelas cinco partes do mundo. Eu, eu não tenho nem profissão, nem pátria e nem mesmo assim ele me confiou alguma região, algum continente, nem um mar além dos que nos dois vimos juntos, talvez para que agora eu não os associasse à sua lembrança. E se verdadeiramente sua alma, sua primeira alma, frequentou os lugares que ele visitou outrora, é no mundo inteiro que me caberá procurá-la.

Em toda à parte, a fumaria de ópio nos seguiria, a fumaria da primeira noite. Vocês podem bem pensar que eu já havia visto as piores fumarias. Mas eu jamais vi coisa parecida. As fumarias habituais são quartos quase nus, atapetados de esteiras mais ou menos chinesas, ornamentadas de lanternas, biombos ou para-sóis, e grandes o bastante para que caibam quatro ou cinco pessoas. A nossa parecia uma tumba, e nossos dois corpos precisavam ficar deitados costa a costa para caberem. Ela era em vime, com arcos e tecidos estendidos sobre o vime. Isso se levava, desmontado e dobrado em uma caixa pequena. Nenhuma esteira, somente um tapete de Aubussom. Nenhum ornamento chinês, a não ser a seda com relevos que se arredonda num arco baixo e recai como muralhas ao redor dos fumantes. — Hafner professava que o ópio não é chinês, mas universal. — Essa seda bordada se impregnava rapidamente da fumaça negra. As volutas, aprisionadas no espaço estreito, se saturavam dos odores e da embriaguez, tão bem que após alguns cachimbos, nós não precisávamos mais fumar: o ópio revolvido se mesclava à nossa respiração para penetrar nos pulmões, e o sonho divino nos visitava sem mais esforço.

Por consequência, esse não seria para nós dois, o mesmo sonho?…

O ópio agia singularmente sobre Hafner. Algumas das sensações habituais não correspondiam as suas. E portanto, essas sensações habituais são multiformes, — eu desafio aqui todos os fumadores, pois é uma estranha audácia falar do inédito a propósito do ópio. Mas na verdade, Rodolphe Hafner, mesmo nisso, não se parecia aos outros homens.

A droga não lhe concedia a embriagues, — a embriagues normal que nos fixa deliciosa, mas irresistivelmente a terra, ainda que mais ligeiro, mais dócil, mais sutil que um espírito puro. — Se Rodolphe Hafner permanecia frequentemente horas inteiras na fumaria túmulo, era para seguir nos caprichos ondulantes da fumaça negra, o voo ativo dos seus pensamentos. E desde que lhe agradasse, ele podia, sem sofrimento e sem náusea levantar-se, vestir-se e partir imediatamente a seus afazeres.

Por consequência lógica, o ópio lhe negava a exteriorização, esse dom maravilhoso do fumeur de evadir-se por uns tempos da vida, da época e de si mesmo; de não ser mais um indivíduo, mas uma parcela infinita de matéria pensante, estranha a todos os corpos, e contemporânea, pela sua fantasia, à Cleópatra ou ao século XXX. Hafner era sempre Hafner. Mesmo sendo um Hafner mais perspicaz, ou melhor pensador. Tal dentro da fumaria, tal em qualquer parte. O ópio permanecia nele em um estado latente. Menos enérgico, menos fulminante, mais durável. Já vi Hafner se privar do ópio doze horas inteiras, — doze horas! Assim, eu não teria podido, mesmo naquele tempo. Se eu me recordo, isso foi num baile. Nós não podíamos fumar depois do jantar. Ele dança até a aurora, infatigável, resplandecente. Depois ele voltou a jogar. Eu lhe deixei para retornar ao cachimbo. Quando o revi, já era dia claro. Ele jogava ainda. O ópio o havia aconselhado nos lances, ele ganhava uma grande soma, e continuava a conversar e a sorrir como se não houvesse passado apenas um minuto. Mas então, — e isso gravou-se profundamente em minha memória e o ópio indiano não a esfacelará; — então, eu vi uma coisa inquietante, mesmo para mim, fumeur. Hafner, de um golpe deixa tombar suas cartas e não fala mais. Uma angústia trágica se expande sobre seu semblante, e eu vi, eu vi com certeza que sua alma vacilava em seus olhos, prestes a fugir. Acreditou-se que ele passava muito mal. Mas, a mim logo compreendi: o azeite faltava à lâmpada e a chama baixava. Ele não tinha mais tempo. Eu o tomei pelo braço e o conduzi a fumar rapidamente. Toda a luz estava se apagando de antemão em seus olhos mornos. — Eu pensei depois que seu corpo era como um acumulador ao consumo constante, um acumulador de ópio: e nessa espécie de maquina, a energia se amontoa, tanto que dessa energia ainda restando uma parcela, a maquina continua plena e com atividade uniforme, mas, o último átomo devorado, tudo se detém brutalmente. Hafner ficou estacado naquela manhã.

Sim, era bem isso, um acumulador de ópio. Isso que a boa droga distribui de divino a seus fieis, para alguns se dissipa em poucos instantes, e são então puramente deuses. Hafner a controlava por inúmeras horas, que eram somente horas de uma sublime humanidade, — mas de uma sublimidade constante e conservada ao longo de sua vida cotidiana.

Agindo como os outros sonhadores sob o impulso estimulante do ópio, ele era um enérgico ao mesmo tempo que um pensador. Essa acumulação só caberia ordinariamente às almas do Extremo Oriente, mais antigas e menos civilizadas que nossas almas arianas. Mas a alma de Rodolphe Hafner, — sua primeira alma, essa que ele nutria com o ópio, — não era uma alma ariana. Os ocultistas admitem que a humanidade se limita por um ciclo de evoluções sucessivas. A cada evolução, os novos homens substituem seus predecessores e a civilização dá um novo passo. Nós estamos chegando pelos seus cálculos, à quarta época; mas às vezes a natureza se engana, e mistura para nosso desespero, um indivíduo da evolução seguinte; e isso faz os gênios, os magos, os profetas, esses que parecem não serem de tempo nenhum e de nenhuma raça. A alma de Rodolphe Rafner se avizinhava das almas mais fortes.

Ele era um enérgico. Seu ser prodigiosamente afinado e delicado, capaz de todas as nuances e de todas as penumbras, se revelava frequentemente audacioso e desembaraçado contra as dificuldades materiais da vida. Amante quase profissional, sempre possuindo simultaneamente inúmeras mulheres, Hafner manobrava em meio às intrigas com a desenvoltura ousada de um mosqueteiro de Dumas. Hoje, essas aventuras não me interessam mais. Em minha concepção ampliada pelo ópio sereno, a mulher não é mais que uma vestimenta de alma um pouco diferente da vestimenta homem, e a diferença dos sexos, somente um pretexto aos contatos pouco mais ou menos agradáveis, mas de maneira alguma dignas de sua reputação exagerada. Antigamente, eu fazia juízos diferentes, como todos os seres mais jovens. E às vezes, durante demasiadas horas, eu traí o ópio pela possessão de mulheres, ou mesmo pela possibilidade dessa possessão. Hafner fazia o mesmo. E eu me recordo surpreso do sangue frio e da resolução com que ele se entregava então. Um fato que me resta, entre centenas que escorregaram pelas fissuras do meu cérebro: esse aconteceu, eu não sei em qual lugar da França. Hafner cumpria visita a uma mundana qualquer. A sala deserta, as frases se extraviando, os gestos após as palavras, e o sofá propício, — a dama rapidamente se abandonou. E no meio do abraço, a empregada hostil e devota ao esposo vigiava. Tola situação, solucionável num piscar de olhos. A noite veio, uma noite de inverno, chuvosa. A rua provincial estava deserta. Hafner apanhou a donzela, a amarrou e a amordaçou, a levou ao seu carro e a trancou dentro dele, — verificando se solidamente inviolável. — Ele a guardou três meses prisioneira no porão de uma adega. Ela morreu. Ele a enterrou. Alguns chamariam isso de um crime. Pareceu-me então que isso era apenas um mal em lugar de outro. Hoje tudo isso está longe e quem se inquieta? Eu acho, aliás, assaz cômico a mania dos homens dos julgamentos e das condenações.

Meu deus, esta história seria banal, se o envolvido fosse um atleta ou um soldado. Mas mais que um poderoso, Hafner era um cerebral. E isso é que é o mais extraordinário…

Um cerebral.

Nenhuma arte lhe era estranha. Eu vi suas telas; ele pintava enormes coisas cheias de erros e contrassensos, mas transbordantes de sabedoria e de gênio. Musico na mesma proporção que pintor, seu pincel se divertia com essa impossibilidade absurda de traduzir Schumann em Rembrandt. E o mais impressionante é que ele conseguia. Uma coisa de se destroçar os nervos: a Sonata ao Luar; Hafner a havia jogado viva sobre um pano. E eu juro que ele não tinha necessidade de escrever o título sob a obra. Não que fosse bela, mas era pior, era exata. Somente a cor muito pálida o fatiga, e numa noite de tédio, ele recorta a tela em pequenos morcegos irregulares, para fazer um jogo de paciência.

Ele esculpia também. Eu tenho em minha fumaria uma terra cozida, A Mulher do Ópio, que ele a modelou com seus dedos, e que me serve de amante no presente em que já me entedio em cortejar as mulheres de carne. Eu creio que um pedaço de sua alma, de sua primeira alma, ainda resta nessa Mulher do Ópio. Eu disse músico. Poeta também. Poeta raro. Impar, conciso de fôlego, mas puro como uma nascente, e prodigioso em versos divinos…

Eu sei de afrescos pompeianos menos luminosos que seus poemas.

 

* * *

 

Eis isso que ela era, a primeira alma de Rodolphe Hafner. Nem por uma hora, durante nossos três anos de amizade, — três, quatro? — Nem por uma hora sequer seu gênio o deixou, nem por uma hora sua alma, repleta de ópio, o decaiu ao nível banal da humanidade. Ao contrário, dia após dia, eu a via crescer em sabedoria e em sutileza.

Por exemplo…

(Talvez fosse melhor que não se escrevesse essa continuação. Talvez não seja prudente falar a torto e a direito sobre a droga. Eu sei de pessoas que julgariam muito mal. Mas, o que é seguro é que a droga jamais será um dano. Quando ela vem a alguém, ela sabe o porquê. E depois, não é isso? Se eu e você não tivéssemos nada a ver com isso, então sim, melhor seria não escrever. Mas mesmo assim alguns não compreenderão…).

Eu creio bem que desde aqueles tempos a segunda alma de Hafner já começava a nascer nele, ou a se revelar. Sim, as coisas devem ter se passado desta maneira. A segunda alma cessa de dormir. E, provavelmente como direi logo, essa segunda alma era mais sua que a primeira, a alma errante alojada por uns tempos num corpo vago. Mais sua. Portanto a alma legítima e a outra, a usurpadora. Ciúme. Ódio, Luta. Sim, luta, as duas almas acabaram por se baterem naquele ringue sem perdão. Eu não o vi, eu suponho. Mas bem seguro, que foi essa batalha que fatigou o corpo de Hafner… O ringe, após o combate, eu me recordo, estava todo pisoteado e escavado, com gotas vermelhas secando na areia… E o corpo de Hafner, também, algum tempo após a nossa separação, começa a se escavar e a murchar, muito mais rápido do que seria natural pela sua idade. Menos força, menos agilidade. A tez muito pálida, pipocada de vermelho, — como a areia do ringue. Os olhos fixos e febris. A boca branca e seca. Além disso, as costas e o peito salientes sob a pele. E tossia com uma tosse breve que soava o oco dos pulmões. E depois foi se adelgando como uma prancha aplainada. Ele veio a pesar um peso cômico, um peso de criança. Uma tarde num parque ele sobe numa balança: as pessoas se juntam. Essa noite então, eu o ouvi falar na fumaria pela primeira vez. Mergulhando a agulha no ópio, ele murmura: — droga suja! — E quando ele foi fumar o primeiro cachimbo, repetiu mais forte: — droga suja! — Achei que ele gracejava, naturalmente. Ele estava doente, vá lá. Mas por que falar do ópio? O ópio não é isso, jamais teria feito mal a alguém. Tem a mim, e eu me porto muito bem. Mesmo, e eu os asseguro que se me tivesse mantido no ópio chinês, ele não me teria deixado essas fissuras em meu cérebro… Não, Hafner estava doente porque suas duas almas se batiam embaixo de sua pele, se batiam com todas as suas forças, pisoteavam e devastavam sua carne, se bateriam até cansarem ou matarem uma ou outra…

Enfim, uma manhã, quando eu acabava o último cachimbo, ele se levanta e me diz: — Adeus.

Como eu o olhasse sem compreender.

— Eu me vou, — diz ele.

— Para onde?

— A outra parte.

E nunca mais o revi.

 

* * *

 

Nunca mais, até ontem. Ontem. Rua Blanche, — eu tenho uma fumaria nessa rua, — e eis que me choco com um senhor que caminhava com o nariz num jornal. Esse era Rodolphe Hafner.

Ele não me reconhece de imediato. Senhora, eu estou velho, eu o sei bem. Meus joelhos, agora, estão bem escavados, e até já me fez uma bengala para caminhar. Ele ao contrário, ele me pareceu jovem ainda, e mudado portanto. Eu peguei seu braço. Ele ficou muito contente.

— Ah, meu velho, — disse ele. — Que bom te reencontrar!

E ele dobra o seu jornal. Eu vejo que ele lia o Petit Parisien, — o folhetim.

— Mas eu tenho tantas coisas a te dizer, sabe, depois de trinta anos! Eu estou casado, meu velho. Tenho dois grandes meninos! — E ele me relata seu casamento, seu apartamento, os dotes de sua mulher e a sopa de suas crianças. Para ele tudo isso parecia fora do comum, prodigioso. E tinha ainda uma carreira magnífica. — Você compreende agora, que eu fiquei sério! — Ele já andou vinte e cinco milhas por sua embaixada e seria um dia ministro plenipotenciário. Eu, eu o escutava pasmado.

Mas chegando em frente a fumaria eu lhe disse:

— Sobe comigo?

— Aqui? — Ele me disse, olhando a casa.

— Aqui, sim, e nós fumaremos uns cachimbos.

Ele deu um salto de cabra. Pensei que ele tornara-se um louco.

— Fumador de ópio! — Grita-me ele — Fumador de ópio! Você vem para me matar!

Então ele começa um discurso incoerente.

Isso era para mim que estava louco, louco de fumar. Ele não fumaria nunca mais, nunca mais. Ele estava curado. Não sem pena, arre! Ele que teve de sofrer o martírio para extirpar do seu corpo essa paixão funesta. Sem contar que, meses e meses ele esteve parado vegetando, esmagado, flutuando entre a vida e a morte. Mas pouco a pouco, conseguiu retornar a consciência. — Há trinta anos, não é isso?, — e teve que recordar agora. E que ele engordou. — Oitenta quilos, meu velho!

Quanto a mim, eu já estava com a aparência de um enforcado e que se eu não desejasse estalar incontinente, ele não poderia senão me aconselhar a jogar meus cachimbos na água. — Isso que ele havia feito.

Eu escutei e pensei: a segunda alma. Essa é a segunda alma, a que ganhou a batalha. Da primeira nada restou.

E eu o questionei — seu gênio de outrora, sua pintura, sua música?

— Ah meu velho, eu não tinha nada que fazer com isso. Eu enviei a um salão uma vez antes do meu casamento, eles a recusaram, e veja você, eles tinham razão. Ofício de boêmio, a arte. Eu teria somente ganhado a manteiga do meu pão. A música, sim. Isso ainda me faz passar o tempo. A música alegre, por exemplo. Na velhice se percebe melhor as coisas. Schumann, Chopin, são um blefe macabro. E isso não é nada bom para os nervos. Mas, por exemplo, eu escrevo. Um pouco de jornalismo não prejudica a pessoa. Eu faço a política desse pasquim aqui. E foi isso que me valeu o prêmio vermelho!

A segunda alma! A segunda alma! Meu deus, que tristeza! A outra, a alma ardente e luminosa, onde jamais a encontrarei?

E começo a odiar esse Rodolphe Hafner, diferente e vil, espírito de metal, de burguesia e de barriga, inimigo da poesia e do ideal, inimigo do ópio divino.

Mas ele não lia mais os meus olhos. Ele não compreendia o meu desespero.

— Enfim — disse ele. — Envenene-se se teu coração te diz. Isso não me diz respeito. Mas quando te for bastante, pense em mim, meu velho. Olhe-me bem; eu estou forte, robusto, sólido. Eis esse que você pode ainda tornar-se. Um cachimbo a menos, é um dia a mais de vida. E com a breca, como é bom viver. Até a vista. — Ele me sacudiu a mão e atravessou a rua. Sobre a calçada em frente ele se volta e grita ainda:

— Ah sim! Arre, como é bom viver!

E ele se vai.

Ora, nesse mesmo instante, uma laje se desprende de um telhado, e vem chocar-se contra sua cabeça. Ele cai morto.

Bem morto. Eu atravessei a rua para o ver. A ardósia seccionou-lhe o crânio como um golpe de faca. E a segunda alma, procurei ao seu redor, havia fugido. Revanche justa, em suma. Não lhe parece?

Quarta Parte - Os Problemas