quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - O Ciclone

O CICLONE

Aquele que viu a aparição foi quem me contou. Eu sei de muitas coisas bem mais estranhas. Mas elas não pareceriam tão estranhas aos que não fumam. As inteligências não aguçadas pelo ópio as conceberiam como simples e normais. Mas também eu não vou lhes dizer tudo o que vi.

Aquele que a viu não é um mentiroso e nem um alucinado, pois ele fuma. O ópio dissipa as ilusões da terra e comanda a sinceridade. Eu, eu não fumo mais por causa de um juramento. Mas a cada noite eu velo em uma fumaria e me entorpeço sobre as esteiras até que a aurora pálida entra pelo respiradouro e amarela a lâmpada. E a fumaça negra que se estende então ao nosso redor, acaba por penetrar meu cérebro de um pouco de luminosidade e de um pouco de privilegio.

Eu recontarei apenas o que ele me disse, sem nada mudar. Naquela noite, nos estendemos na fumaria como sempre. Ninguém falava. O ópio aprecia a reunião dos seus fiéis. Haviam ali duas mulheres sobre as esteiras. Uma, não se pode escrever seu nome porque ela é isso que se chama uma mulher honesta; e é em segredo que ela vem fumar conosco, pois seu marido, que viaja em um paquete, não sabe de nada. A outra, nós a chamamos Joujou, porque ela serve freqüentemente de brinquedo a muitos homens. Na rua, certamente, essas duas mulheres se desprezariam por suas vidas diferentes, mas frente ao ópio nivelador, elas são amigas e dormem somente de braços entrelaçados. — Sobre as esteiras, havia ainda três rapazes, vindos para namorar e fumar ópio. Estes fumavam pouco e acariciavam as mulheres. Seus corpos entrelaçados mal se divisavam ao luar terno da lâmpada. Eles não escutavam talvez, e quem sabê o que eles distinguiam? Ele fumava, e eu observava prepararem seus cachimbos, e ele aspirar as volutas negras que depois soltava pela boca.

Esse eu não vou dizer quem é. É que eu não sei sua idade, nem seu tamanho: pois eu o via somente deitado sobre a esteira e a lâmpada ilumina muito pouco. Entretanto, sua barba era grisalha, e seus olhos de um metal verde. Nós o chamávamos de O Silencioso, pois ele não falava senão após o trigésimo cachimbo. Mas ele dizia então palavras extraordinárias. Já havia visitados todos os países e o ópio os fez compreende-los. Eu creio que ele é capitão de um navio de guerra; mas não estou muito seguro: isso que se passa fora do homem me é indiferente.

Ora, eis o que ele me disse numa noite em que por muito tempo tínhamos falado das aparições e dos fantasmas.

“— Os mais sinistros não são esses que erram nos cemitérios, ou que se emboscam nas casas esperando para estrangular os tolos incrédulos. Desses aí, todos nós já os vimos, nós fumadores. Eles não ousam, aliás, nada contra nós, pois eles sabem bem que o ópio também nos fornece fluídos e imaterialidades como a deles mesmas e que nós os pressentiríamos na noite, tão rapidamente, que seria antes mesmo deles nos perceberem. Mas eu vi outros, desses que não se ocupam dos vivos, pois seu trabalho de fantasmas é muito mais pesado e terrível.

… — Me diga, você se lembra do Renard? Não? Isso se passou a alguns bons anos, num tempo em que sete cachimbos um pouco grossos eram suficientes para me embriagar. Quando agora são necessários quarenta. O Renard era um cruzeiro que naufragou não se sabe como; um navio estreito e comprido, cujo casco parecia somente descansar sobre o mar e cujos três mastros erguiam-se muito alto, como que para evitar a água negra. Ele partiu num belo dia calmo e nunca mais retornou. Em seu lugar, um ciclone aportou e assolou toda a costa. E esse ciclone, não era um ciclone parecido aos outros: ele girava da direita para a esquerda, enquanto que todos os outros ciclones do Oceano Índico giram da esquerda para a direita, imutavelmente. Eu sempre achei isso bizarro. Mas não havia ainda pensado o suficiente. Somente um dia, em uma fumaria do Tonkin, um holandês me afirma que existiam tempestades especiais, tempestades vivas: se as reconhece pelo fato de que elas violavam todas as leis naturais, soprando do norte quando teriam que soprar do sul, indo-se à direita quando se os esperava à esquerda e só fazendo enfim o que quisessem. Essas tempestades, me explica ele, são as manifestações de espíritos ocultos e perversos. E estes são os mais perigosos para os navios. — E ele ainda me contou diversas coisas a respeito deles.

Enquanto eu o escutava, me pus a pensar que o ciclone que colheu o Renard deveria ser uma dessas tempestades vivas. Mas não me inquietava entretanto.

Aliás, ninguém mais se ocupava do Renard. As mulheres do pessoal de bordo, já haviam posto a saia negra e o véu de luto, e também já os retirara. A maioria casara-se novamente, o que não lhes faria provavelmente nenhum bem. Enfim, os anos haviam escorridos. Quantos eu não sei mais, pois os cachimbos me impediram de sentir o tempo passar. — Espere, abaixe um pouco a lâmpada, a chama queimou esse cachimbo aqui…”

Ele segurou enquanto que eu diminui a mecha. E nós ouvimos então uma doce queixa ofegante, que subia das esteiras. Uma das mulheres acariciadas entrava em êxtase. Mas eu não sabia qual era, pois ele havia recolocado o ópio na ponta da sua agulha, — e eu preferia contemplar o ópio amarelecer e inchar sobre a chama.

Ele recomeça, suas frases se intercalam com os suspiros voluptuosos como que por acordes de alaúde.

“— Sim, todo mundo já havia esquecido o Renard, e eu também. Nenhuma novidade então, depois de tanto tempo! Somente uma prova de sua perda, e bem evidente: uma prancha quebrada que um veleiro encontrou sobre o mar, uma prancha do quadro da proa, sobre a qual se lia ainda RENA… as outras letras haviam sido arrancadas. Mas nenhuma dúvida era possível, e todos os marinheiros haviam reconhecido a prancha e as letras.

Ora, eu solicitei um dia ir à China, pois o ópio das farmácias daqui não valem nada e a necessidade me levava a fumar do outro. Eu parti em um grande cruzador que eu não gosto de dizer o nome pois ele me traz azar. E no Oceano Índico, um ciclone nos encontra.

Em Aden, já nos haviam prevenido. O ciclone foi anunciado pelo telégrafo. Mas como estávamos com pressa, partimos assim mesmo. O comandante me encarregou de calcular a curva do torvelinho. Você sabe que esses instrumentos não são difíceis. E eu fiz as minhas observações, alinhei meus ponteiros e lhe entreguei meu papel no dia seguinte à partida, no serão. Após o que eu voltei a minha cabina e, bem fechada, me pus a fumar.

Logo, tudo ia bem. Eu fumei até a noite. O mar se fazia de mais em mais forte, mas sobre minha esteira o balanço não me incomodava.

Mas quando a noite caiu, eu senti em seguida que acontecia qualquer coisa de anormal. O quê? Eu não sabia. Mas eu pressentia o obscuro do sobrenatural se aproximando de nós. Nesse momento o ópio me pareceu mudar de gosto. Com isso eu pensei que a fumaça também estava impressionada e inquieta, como eu. Entretanto, enquanto eu fumava, a noite tornava-se muito negra. E nenhuma claridade entrava mais pelo vidro da vigia.

Eu fumava ainda e a sensação se determinava. O ópio, todo alterado que foi pela coisa que se aproximava, aclarava, apesar disso, a minha mente. Uma a uma as certezas me vieram. Logo, aquele era um perigo duplo, duplo por quê? Eu não sabia; mas infalivelmente duplo, dois perigos igualmente mortais, que vinham diretamente sobre nós, implacavelmente, e eu senti que eles chegavam em um redemoinho. E em meu espirito a ligação se fez então: eu lembrei do ciclone. Mas ao mesmo tempo, eu senti que o giro ia da direita para a esquerda. Infalivelmente, meus cálculos então estariam errados. Mas eu não me demorei nesse pensamento. Pois de antemão eu sabia que meus cálculos importavam pouco e que nós não estávamos combatendo um ciclone ordinário.

E de súbito uma coisa horrível me aconteceu; a lâmpada extinguiu-se sem uma causa evidente e a obscuridade me encheu de horror. Eu escutei os móveis gemerem e as fibras da esteira se encolherem de espanto. Os bramidos do vento atravessaram a parede e vieram até a mim. E eu compreendi então bem claramente que esse vento ali não era um vento natural, um simples deslocamento de ar mais ou menos furioso; mas sim, uma coisa viva que sabia e que pensava, e que neste caso estava sem dúvida em marcha, e se perguntava a ela mesma se sim ou não, se iria ou não despedaçar a casca de noz em que estávamos.

Eu estava ébrio, e minhas pernas falseavam. Consegui me levantar assim mesmo de um salto. Subi para a cobertura me agarrando pelos barrotes. O balanço era tão forte que minhas mãos mal me detinham.

Ora, eu chegava ao topo da escada quando o vento se apaziguou de um golpe como sob a voz de Cristo. Sem dúvida que estávamos no centro do redemoinho. Você sabe que no centro ele é sempre calmo. Mas apesar disso, é o lugar mais perigoso, porque ao redor, o vento gira mais rápido que uma funda.

Não importa, nessa calma artificial, eu pude me endireitar e ir até a amurada. E foi então que eu vi a aparição.

Sobre a água prodigiosamente fosforescente, que se assemelhava a uma mortalha fúnebre, pespontada de uma infinidade de lágrimas de ouro, um navio flutua ao nosso lado. — Um navio delgado e longo, cujo casco parecia somente repousar sobre o mar e cujos três mastros erguiam-se tão alto, como que fugindo do mundo dos vivos. Eles estremeciam, esses mastros, como estremeciam seus reflexos sobre a água, seus picos não estavam claros, mas se perdiam no céu como a fumaça. O casco, ao contrário, se via com extraordinária precisão, mais preciso que um casco de ferro e madeira. E sobre a proa, alguns homens se sobressaíam com as faces pálidas e com os dourados de suas roupas, cintilantes. Mas, entretanto, todas essas coisas estavam diáfanas e por entre as pranchas e os homens, eu ainda podia ver o mar e a sua fosforescência.

O navio-fantasma nos ultrapassou, sem que eu ouvisse qualquer ruído de seus motores. Girando lentamente sobre si mesmo. Sua popa passa junto a mim e eu vejo o painel; uma tábua quebrada, arrancada, restando somente duas letras, as últimas: RD…

Ele se afasta. O vento torna a soprar, mais violento do que antes e eu não vi mais nada. Evidentemente, o centro do ciclone vivo arrastava ao infinito, eternamente, o fantasma do navio morto. — Então, eu voltei a descer e me pus a fumar. Mas o ópio havia transmutado como que em leite e os cachimbos estavam todos insípidos. Isso foi o que mais me espantou. — Passe-me a esponja, meu fornilho está muito engordurado”.

Ele se calou. Sobre as esteiras, as duas mulheres gemiam agora, suas carícias e seus suspiros se misturavam. Mas eu, eu olhava somente o cachimbo que tornava-se brilhante sob a fricção da pequena esponja embebida em água.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - O que se passou na casa do Boulevar Thiers


O QUE SE PASSOU NA CASA DO BOULEVAR THIERS

O que se passou na casa do Bulevar Thiers eu não tentarei explicar. E se estou narrando aqui, é com pesar. Pois, as pessoas ditas razoáveis não farão caso e os outros, com os quais estou, não encontrarão nada que os possa curar da sua loucura.

Mas eu contarei assim mesmo porque é verdade. Isso se passou no 1º. de maio do ano passado, em uma cidade que eu não mencionarei, — por prudência — no quarto andar de uma casa que não é velha e nem misteriosa, mas nova, simples e feia. Essa casa foi construída muito recentemente, sobre os escombros de um bairro mal afamado. Uma larga avenida, margeando um rio, substitui hoje os casebres de venezianas fechadas que se suspendiam outrora nas encostas da sua margem. E o bairro novo tem um ar honesto. Mas, as antigas pedras, viciosas à força de terem vivido do vício, serviram para a fundação dos novos edifícios. E, certamente o bulevar Thiers está ainda impregnado do vício remanescente.

Essa casa traz o número 7. É uma casa alugada. Nós a ocupamos, oito ou dez amigos, durante uma temporada. Eu jamais soube ao certo quem eram os outros locatários. Nós tínhamos ali uma fumaria de ópio e os quartos se distribuíam ao redor. Mas, ninguém dormia nos quartos porque se preferia fumar e conversar até o amanhecer, estendidos sobre as esteiras de arroz. O ópio liberta os seus do julgo do sono. Algumas vezes, nós fazíamos rodar uma mesa, e nos deleitávamos em questionar essa coisa incomum que se exterioriza nos dedos para conseguir levantar os quatro pés, um após outro, sem nenhuma força aparente. Havia entre nós um homem singular, completamente imberbe, com longos cabelos pretos e macios. Ele se vestia na fumaria com uma roupa de clown, amarela e azul, que ele achava boa para as experiências espíritas. De fato, ele era um mago bastante medíocre. A mesa movia-se facilmente sob suas mãos, mas jamais algo de mais extraordinário resultou disso.

Frequentemente, as mulheres nos visitavam, ávidas da boa droga; ávidas também de carinho, pois a sensibilidade das mulheres se acolchoa e se infla, perante a embriaguez negra, tanto que o contato brutal dos homens lhes parece então delicado e dócil como o contato de um andrógino. Na noite que eu falo, uma mocinha de uns vinte anos tinha vindo. Nós a chamávamos de Éter, por causa de sua paixão: pois precisava, a cada noite, de um frasco de éter sulfúrico. Isso não a impedia de fumar em seguida uns quinze cachimbos. Nessa noite, ela estava duas vezes ébria, e jazia nua. Alguém lhe acariciava os lábios. A lâmpada terna enchia a fumaria de penumbra. Nós conversávamos, eu não sei mais sobre o que.

Porque a fantasia nos levou a girar a mesa, me é impossível de recordar. Hartus, — Hartus, o clown amarelo e azul com cabelos de mulher — levantou-se primeiro e me chamou para ajudar a carregar a mesa para um dos quartos — perto do ópio uma mesa não pode girar. E como eu estava demorando a me erguer da esteira, ele tomou a mesa sozinho e a carregou. Ainda hoje me permanece precisa a visão da sua silhueta engraçada, curvado e com a mesa apoiada sobre seu ventre. Continuei deitado por mais um minuto, aborrecido por ter de deixar o entorpecimento doce do sexto cachimbo. A minha direita, Éter, inconsciente, com a embriaguez pesando forte sobre sua cabeça, segurava com as duas mãos uma boca complacente contra seu corpo. Eu me levantei e segui Hartus.

Dentro do quarto úmido e algo vicioso, ele acendeu somente uma vela, cuja chama dançava uma sarabanda. Pelas vidraças, através das cortinas de tule, a lua peneirava de orvalho as paredes.

Presentes um em frente ao outro, com as mãos roçando a madeira, nós permanecemos silenciosos por muito tempo. Mas alguma coisa ia mal, pois a mesa permanecia inerte. Ela nem mesmo estalava — sabe, esses estalidos secos e bizarros que precedem a exteriorização do movimento. Não, alguma coisa estava errada. Nós tínhamos fumado antes, fumado sofrivelmente e talvez fosse essa a causa.

Por fim, deixei, me levantei e a lua me tentou, abri a janela e me apoiei com os cotovelos. Eu vi a noite serena, os telhados inundados de brancura e o rio cravejado de reflexos. Ele parecia doce. Uma brisa suave entreabria meu pijama e acariciava meu peito. Nesse momento, no silêncio absoluto, eu ouvi atrás de mim o clawn amarelo e azul soprar a vela. E foi então que a coisa inexplicável começou.

A brisa que soprava sobre meu corpo pareceu repentinamente fria, muito fria, como se o termômetro tivesse baixado bruscamente uma dezena de graus. E a mesa caiu ruidosamente e se reconstituiu de um golpe. Eu acreditei que na obscuridade, Hartus houvesse tropeçado nela e a virado de cabeça para baixo. Mas do fundo do quarto, ele me pediu imediatamente para fazer menos barulho. Eu não disse nada. Mas sabia bem que eu, eu não havia tocado na mesa.

Então, fiquei com tanto medo que crispei meus dedos no apoio da janela. Depois, recuperando meus nervos por um golpe de vontade, me voltei de um só passo e fiz frente para a coisa inexplicável. A mesa estava imóvel e Hartus tinha ido à fumaria. Eu contornei a mesa sem ousar tocá-la e o segui.

Na fumaria tudo estava como antes. Os fumadores estendidos, sempre misturados. Sobre sua esteira, Éter continuava a pressionar contra seu corpo os lábios do acariciador. As cortinas pesadas escondiam a lua e somente a lâmpada amarelava o teto. Ora, assim que eu entrei, Éter afastou a boca do homem e se levantou com destreza. Isso me surpreendeu muito, pois um instante antes, o éter e o ópio a paralisavam absolutamente. Mas agora ela não estava mais ébria. Eu vi seus olhos limpos e lúcidos. Ela se encostou num biombo com as mãos sob a nuca. E sua nudez magra me pareceu grande e mudada. Nos detalhes dos traços, eu reconhecia os ombros redondos, os seios rígidos e pequenos, a cabeça estreita e febril. Mas a harmonia do conjunto diferia. Me parecia descobrir uma mulher diferente, orgulhosa e casta, com uma raça nobre em seu sangue e um pensamento raro em seu cérebro — e não mais a cortesã Éter, nascida de uma lavadeira, e que não sabia nem ler. Assim, enquanto a considerava, eu tive um estupor: seu amante voltou-se para chamá-la e ela replicou com uma voz lenta:

Mundi amorem noxium horresco.[1]

Ela nem sabia ler. Ela falava unicamente francês — um francês medíocre e manchado de idiotismos bretões.

Ela repetiu imediatamente, com a mesma voz serena — uma voz de freira ou de abadessa:

Jejuniis carnem domans, dulcique mentem pabulo nutriens orationis, coeli gaudiis potiar.[2]

Os fumadores não se surpreenderam. Sem dúvida para seus espíritos desmaterializados, isso que eu achava extraordinário, parecia-lhes natural. O clown amarelo e azul apenas ergueu as sobrancelhas e olhou a mulher. Depois, ele lhe falou, com uma polidez que não nos era habitual:

— Não fique em pé, vai ficar cansada.

Ela não saiu do lugar e continuou:

— Fiat voluntas Dei! Iter arduum peregi, et afdfligit me lassitudo. Sed Dominus est proesidium.[3]

Ele a interrogou curiosamente:

— De onde vem?

Ela respondeu:

— A terra Britannica. Ibi sacrifico sacrificium justitioe, quia nimis peccavi, cogitatione, verbo et opere. Mea maxima culpa.[4]

O clawn a questionou ainda.

— Qual foi o teu pecado?

Cogitatione, verbo e opere. De viro ex me filius natus est.[5]

Distintamente eu vi sua face branca corar-se.

 

Ela continuou, falando sempre em latim, um latim da Idade Média, um latim de convento e de missal que eu compreendia por partes — o odor de ópio ajudava nas minhas recordações do catecismo. Eu estava situado junto à lâmpada, e na intermitência das palavras, eu ouvia cozer a droga na ponta das agulhas. Somente isso acalmava o meu medo — um medo surdo que me secava a garganta e que persistia malgrado a aparência simples de toda a cena. Hartus, alterado pelos cachimbos fumados, falava sem embaraço, com seus nervos dominados. Eu o olhava, eu a olhava, e essa imagem dos dois está incrustada, tão profundamente na espessura da minha retina, que jamais alguma outra imagem apagará isso dali, — eu os vejo. Ele, o homem amarelo e azul, uma mão ao solo, e a lâmpada alourando por vezes os seus cabelos negros e flutuantes. Ela, a estrangeira, — estrangeira certamente! Nua, as costas na parede, os cotovelos em ângulo, os dedos juntos sobre a nuca. E as palavras que passeavam entre eles, de um vai e vem vivo, enquanto que o quarto, progressivamente, se impregnava do além-túmulo… A voz desconhecida conservava o timbre monacal do início, mas agora soava com mais força, — como cada vez mais próximas. As frases do início, golpeadas e curtas, — frases apressadas, frases de uma viajante pressionada, que não tem tempo para discorrer — se alargaram agora em períodos mais copiosos, fartas de incidentes e floridos de retórica. E eu não compreendia mais — mau clérigo e demasiado fora de mim mesmo.

Depois, eu questionei Hartus, que sabe a língua dos seminários. Mas ele não respondeu. Ele não gosta de voltar a falar dessa coisa.

Eu guardei somente a lembrança da voz, a voz latina, que salmodiava lentamente como nos responsórios litúrgicos. No vôo eu agarro alguma das palavras, dos nomes dos homens ou dos países, dos termos eclesiásticos que se alojaram confusamente em minha memória, mas sem lhes atribuir o sentido que eu descubro hoje — ao acaso talvez. —Astrolabius, Athanase, Sens, Argenteuil, excommunitio, monasterium. A voz se anima e se dilata. Isso se assemelha a uma disputa, a um conflito oratório. Duas palavras bóiam nas ondas das frases, duas palavras dez vezes repetidas, de início com ardor e veemência, depois com o tom de contrição e de dor, — panem supersubstantialem. E de súbito, a voz se detêm, triste, infinitamente.

Eu ouvi então o clawn amarelo e azul falar, e ainda que eu não soubesse nada do que se estava dizendo até ali, sua voz e sua questão me deram igualmente a sensação de absurdo:

— Pecado de luxúria, qual foi o castigo de Deus?

A face branca enrubesceu desta vez violentamente e a voz baixou em uma oitava. Isso foi como um cochicho solene de confessionário e somente algumas palavras me chegaram, com estranhos acentos de repulsa. Ouvi — modo bestiarum, — copulatione, membris asinorum erectis — e violentamente proferiu como um vômito de desgosto que se expele, a palavra — castratus. E volta à sua serenidade anterior, a voz se afrouxa e encarnece, tão bem que, textualmente, a última frase continua em minha memória:

— Fuit ille sacerdos et pontifex, et beatificus post mortem. Nunc Angelorum Chorus illi obsequantem concinit laudem celebresque palmas. Gloria Patri per omne soeculum.[6]

— E agora? — Perguntou Hartus.

— Dominus Omnipotens et Misericors Deus debita mea remisit. Virgo ego fatua. Sed dimissis peccatis meis, nunc ego sum nihil.[7]

Ela repetiu três vezes nihil. E pareceu subitamente que ela flutuava para muito longe. O último nihil não era mais que um sopro.

O clawn amarelo e azul andou até que a tocou, e fixando seus olhos claros que não cintilavam, ele a chamou: — Heloísa[8]? Os olhos se fecharam afirmativos.

Então ele lhe sustentou o seios em seus dedos e soprou-lhe ópio no rosto. Ela não se agitou. Mas lentamente seus músculos se afrouxaram e eu vi uns estremecimentos transparentes sob sua face pálida. Um minuto. Depois os olhos se reabriram e soçobraram, o busto dobrou; e ali não havia mais, prostrado sobre a esteira, que um corpo flácido, privado de vida.

Logo, este corpo pesadamente se mexeu e de sua boca, e da mesma boca, saiu uma outra voz, balbuciante, encharcada de embriaguez.

— Me cubra que faz frio! Me passe um cachimbo, certo? E depois minha saia. Estou morta.

Era verdade, fazia frio, frio como em uma adega.

Um dos fumadores afundou dentro do fornilho a bolinha marrom que adere na agulha, e estendeu o cachimbo à pedinte. Ele havia, talvez, ouvido o mesmo que eu. Mas sem dúvida, o ópio, ao mesmo tempo, mostrou-lhe outras coisas ainda mais maravilhosas.

 



[1]   O amor culpado me causa horror. (n. do a.)

 

[2]  É domando meu corpo pelos jejuns, e nutrindo minha alma pelo doce alimento da oração, que eu alcançarei as felicidades do céu. (n. do a.)

 

[3]  Que a vontade de Deus seja feita. Eu tenho percorrido um caminho penoso, e estou cansada, mas Deus me sustenta. (n. do a.)

 

[4]  Eu venho do país da Bretanha. Ali, eu me ofereci em sacrifício como punição, pois eu muito pequei, em pensamentos, em palavras e em atos. São essas as minhas três grandes faltas. (n. do a.)

 

[5]  Por pensamento, por palavras e por atos. Um filho nasceu das minhas entranhas. (n. do a.)

 

[6]— Ele foi padre e pontífice, e beatificado após a morte. O coro dos anjos cantam agora em seu louvor ou louros de seu triunfo. Glória ao pai por todos os séculos. (n. do a.)

 

[7]  A mim, o senhor Deus todo poderoso e misericordioso há remido minha dívida. Eu fui uma virgem sem prudência, mas agora, meus pecados me foram perdoados, e eu não sou mais nada. (n. do a.)

 

[8]  Referencia ao drama medieval do amor vividos entre o Filosofo Abelardo com e a sua tutorada Heloísa. Romance que se transformou num dos mais famosos dramas platônicos após ele ter sido castrado pelo tio de Heloisa no ano de 1117. (n. do t.)