quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - Intervalo


INTERVALO

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Sobre o último importuno, a porta se fecha, expulsando a noite hostil do corredor. Agora, no interior da fumaria não há mais que os verdadeiros adeptos. No teto as sombras dançam, e depois se fundem em um claro-escuro dourado. As volutas semitransparentes rolam pesadamente sobre as lâmpadas. E reina somente o odor do ópio, despótico, todos os perfumes rivais aniquilados: o perfume dos cigarros turcos que se fumam nos intervalos; o perfume do frasco de Jicky vertido gota a gota sobre as mãos enegrecidas pela droga; e mesmo o perfume mais doce e mais tênue da fumante seminua cujo corpo molhado de beijos tornou-se uma pira ardente. Os corpos fraternos se misturam mais estreitamente sobre as esteiras. E na embriaguez tépida, as horas escorregam a passos tão leves que não se as percebem mais.

Ítalo, cuja nuca repousa sobre a perna da fumante, é o primeiro a romper o silêncio.

— Eu a amo muito — diz ele, — e eu a amo, ainda com angústia e desejo, apesar de que você se deu a um novo amante. Mas eu não quero nada neste instante além de te acariciar; pois a boa droga me faz, desde que eu deseje, reviver os tempos anteriores onde seu corpo era unicamente meu; ou viver os próximos instantes, onde fatigado e doloroso, meus braços deixarão de a embalar. Ainda que eu esqueça seus suspiros felizes de hoje, para partilhar com delícia seus suspiros de ontem ou seus suspiros de amanhã, eu não a desejo em consideração ao ópio.

Sem cessar de abraçar com suas coxas quentes a cabeça do amante amado, a fumadora, num gesto de complacência, afasta de seus lábios o cachimbo preto e os estende a Ítalo.

O segundo, Timor, cujo perfil tártaro se destaca inacessível sobre a almofada de seda marrom, fala sinceramente também, ainda que ele fosse sempre prudente e secreto:

— Em verdade, as mulheres, cujas algumas afirmam não serem como as outras, se assemelham maravilhosamente. Quando eu era o amante de Laurence de Trailles, ela não me amava nem eu a amava. Eu havia somente desconcertado seu cérebro de passarinho ao polir melhor seu pensamento, e ela vinha aos meus braços como teria vindo o espírito de uma sonâmbula. Nela não existia, aliás, outra forma de ternura que a sentimentalidade falsa e pueril das mocinhas educadas em convento. Ela experimentava, sem perceber, minha indiferença. — Você me ama? — dizia ela, — isso é um esporte, não é? — Ela ria, o esporte interessava aos seus nervos ávidos de emoções. Mas afinal, apesar da sua secura, sua perversão e o gosto em saborear beijos novos, o amor conjugal não foi absolutamente jamais injustiçado junto dela. O esposo, estúpido, apaixonado, ciumento e muito complicado, foi sempre a seus olhos, o refúgio eventual, o porto aonde se chega para aportar em busca de mais ou menos escalas sensuais. E mesmo em nossos dias, os mais esportivos, eu sei que ela não deixava jamais de estender complacentemente seus lábios ao esposo, como nossa amiga vem te oferecer os seus, a você que é seu amante por intermitência, o que é por dizer uma espécie de marido.

O terceiro, Aneyr, o amante recém amado quer falar. Mas sua amante deixa o ópio, estreita seu corpo e aspira seus lábios, por um bom tempo ele não diz nada.

E Itala questiona:

— Então você enganou Trailles, que foi seu amigo. No entanto, sem amar sua mulher. Lastima-se?

— Não. Sua tolice de vincular um prêmio qualquer a uma fidelidade sexual lhe rendeu a dignidade de ser punido por onde ele pecava. Além disso, sua rusticidade, unida à vida frívola de Laurence nada teve por produzir além de crianças perfeitamente tolas. Ao passo que, o sangue nômade e conquistador que eu agreguei com gotas voluptuosas ao sangue de suas veias, engendrou quiçá um filho da minha raça, melhor e mais alto.

Aneyr, desatando sua boca da boca ávida que o pressionava, diz:

— A voluptuosidade que você acreditou haver nessa sua união, basta sem mais para te absolver. O profeta disse com clarividência: — Cada um dos gritos de alegria de vossa esposa vos abre mais largas as portas do paraíso.

— Isso, diz Timor, é um argumento maometano que eu não posso admitir por razões etnográficas. E incontinente, eu creio muito pouco no paraíso. Mas eu não aprovo de maneira nenhuma a necessidade de legitimar meu ato legítimo. As solteironas hipócritas e os calvinistas castrados são as únicas pessoas no mundo que censurariam a união segundo a natureza de dois seres convenientemente semelhantes, sob esse pretexto cômico, de que a amante seja talvez uma esposa, ou que a mulher tenha um marido. Prodigiosamente filosófico! Admite-se então que uma mulher disponha em liberdade de sua mão ou de sua face para todos os lábios amigos, mas lhe recusam de oferecer a carícias semelhantes, sua boca ou o seu sexo. De fato, eu teria talvez achado graça, mesmo frente os preconceitos estreitos, se tivesse visto que amando Laurence eu somente pensava nas crianças mais belas que provavelmente ela conceberia…

— E isso se chama propriamente, — murmura Aneyr, — a reabilitação da traição pela importância da paternidade.

Eles divagam. Itala fuma cachimbo após cachimbo. Aneyr, seu corpo já meio desligado do corpo da amante, maneja a agulha. Por instantes, o fumante deixa o bambu, derrubando sua cabeça extasiada sobre as almofadas. A fumaria silenciosa torna-se imóvel. Nenhuma agitação se advinha nos semblantes pensativos e lúcidos, cessaram os movimentos que deformavam suas linhas.

— Uma fumaria, observa Timor, é bela como um fragmento da Grécia antiga.

Por sua vez a fumante apoia o bambu sobre a boca. Depois, o cachimbo aspirado, ela se estira como uma gota e anda sobre as mãos e os joelhos. O vestido japonês desabotoado arrasta-se sobre os corpos estendidos. Na confusão dos membros não era nada fácil de encontrar um lugar. Mas os nervos femininos são inquietados maravilhosamente pelo ópio e a mulher confusa não encontra uma esteira onde repousar. Ela hesita. Os três corpos machos, diferentes, revelam o mesmo de flexibilidade e de força em repouso. Timor, cujos olhos estavam fechados, sentiu de repente o estreito calor de dois braços escorregando sobre seus ombros e a carícia de uma boca que violentamente suga sua língua. Ele se abandona logo sem emoção, — o ópio apazigua e domina a virilidade; — sem emoção, sonhando com Laurence de Trailler e com suas sensualidades semelhantes; sonhando com isso e com outras coisas inomináveis. Aneyr, indiferente, esta se levantando para se distrair com um cigarro. Itala fuma.

No tempo que se escoa. Hora ou minuto? Os sentidos adormecidos de Timor despertam-se lentamente, ele entrega suas carícias à acariciadora e revela em voz alta seu pensamento.

Aneyr, ouça. Eu a desejo. Não olhe.

E a voz de Aneyr, pesada de fumaça negra:

— Espere, estou terminando meu cigarro.

Mas bruscamente, a amorosa se afasta do abraço, ansiando pela voz do amor de sua preferência. E é conta o corpo de Aneyr que ela vai chocar passionalmente seu corpo excitado. Eles estão em pé e se enlaçam, ela ávida e ele surpreso e impotente. Muito perto, o divã torna-se a garupa propícia.

Timor esquecendo retoma seu lugar junto à lâmpada em frente de Itala. Eles fumam alternativamente e cessam de nada perceber. Os longos gemidos do divã não os tumultua, nem o suspiro nervoso do amante que a amante não satisfaz.

Itala murmura:

— Timor, você que é o mais perfeito de nós todos. Diz-me como sua mãe pode antigamente, parir um filho tal como você, e como teu pai o amou nove meses antes, na noite láctea quando ele escolheu para te engendrar.

Timor murmura:

— Eles o esqueceram. E esses são na verdade segredos dos quais os homens e os deuses são ignorantes. O beijo de onde nasceram Hercules, Acmene e Zeus, eles mesmos não o puderam jamais repetir.

Uma queixa, um suspiro de desejo exasperado; depois uns impacientes movimentos nus sobre as esteiras. O amante se desfaz do abraço. Alguns breves passos, para retornar no mesmo instante com um frasco a mão. Mas os fumadores olham somente para as pesadas volutas que cobrem a fumaria de mistério. Sobre o divã criado, a luta dos amantes recomeça. Mas os fumadores não ouvem nada além dos estalidos do ópio que se esvai sobre a lâmpada. Mais carícias agora, os dois corpos em amor exalam um perfume mais irritante. Mas os fumadores sentem unicamente o odor da droga, soberana…

Ora, de súbito, o cachimbo escapa das mãos de Itala, e Timor o apanha já quase ao chão. Ao redor da bandeja de ópio, seus olhos se cruzam, desembriagados.

— Você sentiu?

— Sim…

A fumaça negra, como perdida, turbilhona.

E assim ocorre uma coisa terrificante. Na fumaria saturada de ópio, plena de átomos odorantes pacíficos e dominadores, outros átomos vêm penetra-los tumultuosamente, e é como uma invasão de horror e de morte. Um odor sombrio e pálido ataca o odor amigo do ópio e o subjuga. Os eflúvios contrários se chocam violentamente na conquista do ar, e o ópio então, sem atacar, se desfaz, se decompõe, vencido.

O éter…

O éter glacial, primo da loucura e da hipnose…

O frasco pernicioso está caído sobre o divã. A mulher insaciada, na pior hora, alivia assim seu cio doloroso. E uns gritos bruscos saem dementes:

— Jamais, jamais tanto… Ele não, oh não, ele não! Eu não vejo mais! Muito tarde, muito tarde…

Os fumadores de ópio levantam-se estremecidos, ferozes.

Ítalo fala:

— Eu disse que a amava ainda? Eu menti! Eu não a amo mais.

Timor:

— Laurence… Eu não disse seu nome, não é? Eu não disse? Isso não é verdade, isso não pode ser verdade…