quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - Os Tigres


OS TIGRES

Minha fumaria não é mais atapetada de esteiras. Eu desprezei o rotim de Hong-Kong e o bambu de Fou-Tcheou. Nas paredes já não desejo os kakimonos desenrolados, aonde os deuses cornudos fazem caretas entre as paisagens dos pagodes.

De alto a baixo, dos pés à cabeça, — do chão onde vela a lâmpada terna, às cornijas onde tocam as mais altas baforadas, minha fumaria esta atapetada de peles de tigres, de rudes peles amarelas com rajados negros, que se afastam em todos os sentidos como os espinhos pontudos de pesadas garras.

Algumas cabeças ressuscitadas com olhos de esmalte verde, pendem nas paredes ou então, achatadas contra o forro do teto. Isso faz com que umas se ofereçam de orelhas para a nuca do fumante, e as outras dispostas em círculos, velem sobre os sonhos e os seus delírios. E ao centro desse bando feroz, eu gozo da mais pura paz e repouso.

Outrora, na China iniciática onde aprendi a doçura do ópio, — acreditei que a droga deveria estar sempre acompanhada pela magnificência ou pela bizarria da decoração. Conheci espeluncas no Cantão onde as facas dos xenófobos, demasiadas vezes enganados, transformavam minha embriagues em morte; — conheci os yamens de Pequim, onde as mulheres, enfeitadas como os ídolos, juntavam ao ópio a doçura dos cantos e a voluptuosidade das danças; conheci também as fumarias sábias e corteses onde freqüentavam os mais raros espíritos, e alí amava apimentar meu gosto com o espírito sutil das causas filosóficas; conheci ainda, por algumas vezes, os redutos profanos onde o ópio não é mais que um pretexto para as lubricidades que se dissimulam e aos vícios vulgares dos que o buscam para arrogarem-se em rebelião ou em satanismo. — Hoje o ópio me lavou dessas inquietudes curiosas. E não tenho mais necessidade de quadros complicados, nem de mulheres lascivas, nem de dissertações filosóficas. Eu fumo só, em meio a essa minha guarda rajada cujos dentes luzem. E eu fumaria mesmo dentro de um quarto vazio cujas paredes estivessem nuas. Entretanto, eu prefiro meus tigres, porque sua forração retira o frio das manhãs enevoadas, e porque amo em minha embriagues repousar meus olhos sobre a geometria amarela e negra que zebram minhas paredes.

Eu não sonho mais, ao contempla-los com as florestas bárbaras onde eles tiranizaram outrora. Eu não sonho mais com os muitos ocasos avermelhados, bruscamente abatidos sobre as florestas, nem com aqueles rudes que se deitavam, iluminando perigosamente o despertar do caçador rajado, — com seu bocejar profundo e o estiramento faminto em suas quatro garras. Eu não sonho mais com o latido breve, vibrando nas antigas noites tonkinesas, com o latido que borrifa em tumulto o gado no fundo dos currais. Não; meus tigres não agitam mais em frente a mim a fantasmagoria dessas visões longínquas ou anciãs. Há muito tempo que eu fumo. O mundo dos homens e das coisas, o mundo da vida é um longo jogo, que já está há muito afastado de mim. Nada mais há de comum entre esse mundo e o meu pensamento atual. Meus tigres me alegram somente porque suas peles são tépidas, e com uma mescla de cores originais que me diverte.

Já não me importo mais com coisa alguma; não tenho mais que trabalhar, não tenho mais amigos; — eu fumo. O ópio a cada dia me afunda mais profundamente em mim mesmo. E eu tenho descoberto do que me interessar o suficiente para esquecer o lado de fora.

Antigamente, eu me deixei seduzir principalmente pela feitiçaria do ópio. E me parecia prodigioso assistir às metamorfoses que a droga suscita entre seus fiéis; — e me parecia sublime eu oferecer meu corpo a essa feitiçaria transformadora. Eu saboreei a consideração de ser uma besta diferente, de ter os sentidos atrofiados ou multiplicados, — a consideração de não mais ver e de melhor entender, de não mais gostar e de melhor sentir; eu saboreei a exasperação de meus nervos táteis e o entorpecimento do meu sexo. Mas essas bagatelas cessaram de me incomodar, depois que o ópio penetrou em meu cérebro o suficiente para que a verdadeira sabedoria me fosse enfim revelada.

Mais ainda: o prazer psíquico do ópio é indispensável ao meu corpo. Portanto, o prazer de fumar não é mais que uma débil parte do meu deleite. Certamente nenhum espasmo do coração ou da medula pode ser comparável a essa violação radiosa dos pulmões pela fumaça negra. E melhor que nunca, eu sei hoje suspirar pelo beijo traidor e doce da droga; — eu sei me embriagar do seu odor quente, eu sei fruir habilmente do comichão múltiplo que me criva de picadas sutis em meus braços e no meu ventre, eu sei esperar com ansiedade o torpor mortal que a cada dia aperta mais e mais estreitamente minha nuca e dissolve pouco a pouco os músculos dos meus membros. — E entretanto, essa indizível felicidade do meu corpo não é nada comparado ao belo êxtase do meu pensamento.

Oh! Se sentir de segundo em segundo mais carnal, mais humano, mais terrestre; — esperar a liberdade levitada do espírito que se escapa da matéria, da alma desentravada dos lóbulos do cérebro; — admirar a multiplicação misteriosa das faculdades nobres: — inteligência, memória, senso do belo; — tornar-se em alguns cachimbos repleto dessa imutabilidade verdadeira aos heróis, aos apóstolos e aos deuses; — compreender sem esforço o pensamento de um Newton, dominar o gênio de um Napoleão, educar o bom gosto como um Praxiteles[1]; unir enfim em um coração tornado muito vasto, todas as virtudes, todas as bondades, todas as ternuras; amar desmesuradamente todo o céu e toda a terra, confrontar em uma mesma doçura, inimigos e amigos, bons e maus, heróis e miseráveis. — Por certo, o Olimpo dos helênicos e o paraíso dos cristãos reservam a seus eleitos as beatitudes mais plenas. E entretanto, são essas as mesmas beatitudes que hoje são minhas!

Em verdade, as religiões, que antes desprezei do alto de uma filosofia um pouco analítica; — a filosofia de Nietzsche, — estas religiões não são injustas em exaltar acima da justiça e do orgulho a caridade e a piedade. Pois minha alegria em superar com meu gênio a todos os homens, cede singularmente à minha alegria de ser o melhor e o mais piedoso de todos os homens. Dessa superioridade do meu coração sobre todos os corações, obtenho o calor de uma satisfação que não se pode exprimir. As almas generosas, atormentadas de ideais e do mais além, conhecem somente a tristeza amarga de viver, — porque a vida lhes parece feia e suja, enegrecida pelo mal. Eu, eu vejo mais claro, já cessei de ver o mal. Desde o décimo quinto cachimbo, o mal se desvaneceu dos meus olhos. De um só olhar, eu abraço então cada efeito em todas as suas causas, cada gesto em todos os seus movimentos, cada crime em todos os seus pretextos. Mas causas e senões existem aos monted, se bem que, juiz muito justo e muito lúcido, eu não posso jamais condenar nem maldizer, somente absolver, lamentar e amar. E sobre minhas peles empoeiradas de fumaça negra, Cain, Judas ou Brutus teriam o mesmo acolhimento que César ou Kouong-Tseu.

E agora que já refleti, eis porque cobri minha fumaria de peles de tigres. Os tigres ferozes, traidores, sacrílegos, são meus Cains, meus Judas e meus Brutus. Suas carrancas ensangüentadas, seus crânios achatados sobre seus cérebros rudimentares, e a perfídia ágil dos felinos onde passeio meus dedos, tudo neles me fala da deplorável imperfeição do mundo, do mundo mais desculpável mesmo em seus piores erros, para que eu, eu o ouse condenar.

De tudo isso eu só desejo a meus tigres, encontrar uma selva antiga, suja de sangue e com clareiras azuis onde a lua pouse sobre os lábios de Endymion[2]



[1]  Praxiteles (390?-330? Ac.), Escultor grego,  considerado o maior escultor de todos os tempos.

 

[2]  Endymion, na mitologia grega era um jovem de excepcional beleza que dormia eternamente, Selene, a deusa da lua, se apaixonou por ele e o visitava todas as noites. (n. do t.)