quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - Os Cachimbos


OS CACHIMBOS

Em minha fumaria, tenho cinco cachimbos.

Assim também a China, origem do ópio, origem da sabedoria, reconhece somente cinco virtudes primordiais.

 

Meu primeiro cachimbo é de concha marrom, com um fornilho de louça negra e dois pedaços de conchas amareladas.

Ele é antigo e precioso.

O tubo é espesso, opaco ou diáfano, conforme as pinturas da concha. O nó que retêm os dedos enquanto se fuma, é uma saliência cor de âmbar, finamente esculpida na forma de uma raposa minúscula. O fornilho é hexagonal e se prende por meio de uma garra de prata.

Resta em seu interior, a cinza coagulada do ópio. A borra amarga e rica em morfina, que foi depositada pouco a pouco, por diminutas partículas negras. Ele possui no seu interior a alma dos cachimbos de jade, a alma de êxtases passados. E a concha, penetrada progressivamente pela borra, retém entre suas moléculas os vestígios dos anos que se passaram.

Estes foram anos japoneses. Pois meu primeiro cachimbo foi feito em Kiou-Siou, a ilha japonesa das tartarugas. E pelo espelho convexo do seu largo tubo, eu vejo todo o Japão se refletir.

A raposa que figura como nó não é bem uma raposa. Ela é o Kitsouné da lenda, a fera-fada que se metamorfoseia à vontade; assim, quando pego em minhas mãos o cachimbo de concha eu não deixo jamais de examinar o nó, para ver se ele não trocou misteriosamente de forma. Se ele se transformar num belo mastim, eu não ficarei muito surpreso. O kitsouné do meu cachimbo deve ser, com efeito, uma besta célebre e sábia em feitiçarias, para que o artista escultor a tivesse assim escolhido como modelo. Quiçá haja sido o próprio kitsouné que outrora perdeu a heroína Sidzouka nas montanhas de Yosino.

O cachimbo de concha conhece a história de Sidzouka e me a recontou várias vezes em voz baixa, — durante as vigílias de inverno, enquanto o ópio borbulha e crepita sobre a lâmpada. Sidzouka foi uma japonesa de nobre raça, que era amada pelo herói Yositsouné. — Yositsouné vivia em Nipon há muitos séculos atrás. Irmão do príncipe Yoritomo o Terrível, nada mais fazia que assegurar o triunfo fraternal sobre os clãs rivais de Taíra. Mas os samurais entusiastas o proclamaram demasiado alto o mais bravo de sua raça. E Yoritomo invejoso lhe condenou à morte. Yositsouné fugitivo erra por muito tempo longe das cidades na solidão das montanhas violetas onde subiam somente os javalis. Mas o exílio perigoso lhe era agradável porque Sidzouka, a mais doce, lhe havia seguido em sua desgraça e partilhava fielmente suas fadigas.

Durante muito tempo a floresta japonesa abriga duvidosamente sua lassitude. Os cedros musgosos montam negligentemente a guarda ao redor do proscrito, enquanto que a lua muito branca prateava os perigosos charcos das clareiras e as cascas das bétulas. E nessas horas ansiosas, Sidzouka dança com passos voluptuosos em frente a seu amante; e o herói encantado esquece sua tristeza e esquece a austera perseguição dos soldados do tirano obstinados atrás dele.

Até o dia fatal, onde o inimigo finalmente estreita seu cerco mortal, e Yositsouné se despede de sua amante para enfrentar só seu supremo destino. Ora, antes que ela se afastasse guiada por um samurai fiel, o herói oferece a amorosa, em prova de terna gratidão, o tamborim que a acompanhou recentemente em sua dança noturna, lembrança desses tempos nas solitárias florestas das montanhas de Yosino.

E, com os olhos banhados em lágrimas, Sidzouka partiu. Mas o samurai engana misteriosamente sua confiança. A vereda que ele tinha escolhido se afunda logo em regiões estranhas e terríveis, eriçada de picos e crivada de abismos. A viajante assustada não reconhece mais o seu caminho. E como ela se detém apanhada pelo pavor, o guia joga seus dois sabres e despojando repentinamente sua forma humana, aparece aos últimos raios da lua, como o que ele realmente era, — um kitsouné de longo rabo que urra fantasticamente para a princesa traída e dança a dança sobrenatural dos Kitsounés.

Depois, com passos furtivos, a besta-mágica caminha para sua vítima, e bruscamente lhe rouba o tamborim de Yositsouné. Pois era esse a causa de todo o mal. Esse tamborim de pele de raposa que o kitsouné reconheceu como o seu, pois o havia perdido por engano ao preparar um pergaminho, e o instrumento enfeitiçado retornou logicamente ao seu feiticeiro original. Quanto a Sidzouka, a mais fiel, dispensada do tamborim nefasto, reencontra sem esforço o caminho correto, e a lua em seus olhos azuis a quis prontamente para o mosteiro que ela havia escolhido ao chorar o seu amado.

… O cachimbo de concha sabe de muitas histórias japonesas, e me as reconta de vez em quando em voz baixa, durante as vigílias de inverno, enquanto o ópio borbulha e crepita sobre a chama.

 

Meu segundo cachimbo é todo de prata, com um fornilho de porcelana branca.

Ele é antigo e precioso.

O tubo muito longo, não é espesso, mas delgado, para que o cachimbo não seja demasiado pesado às mãos do fumante. O nó é uma saliência de prata maciça, cinzelada na forma de um rato. E o fornilho foi cuidadosamente polido e arredondado como uma pequena bola de neve.

Em todo o comprimento do cachimbo, o artista gravou maravilhosos adornos chineses. Pois este meu segundo cachimbo é chinês, — cantonense. Ele me fala minuciosamente da China meridional onde passei antigamente três doces anos.

Enroladas ao redor do cachimbo de prata, estão as flores, as ramagens e as ervas. As flores são de belos hibiscos desabrochados, as ramagens, folhas de menta selvagem, e as ervas são delicadas hastes de arroz. Tudo isso recende à China de Kouang-Toung, aos caminhos frescos, aos arrozais fecundos, às cidades lindamente atapetadas em meio aos bosques de árvores.

Enrolados ao redor do cachimbo de prata estão os homens e as mulheres. Os homens são alternativamente trabalhadores e piratas, e tanto uns como outros: delicados e impassíveis. As mulheres são as filhas de Pak-Hoi, de Nau-Cham ou de Hainam. Sua pele doce reluz como o cetim cor de âmbar. Suas mãos e seus pés fazem inveja as mais nobres de nossas marquesas. Oh minha amante Ot-Chen, onde estás? Essa é a tua lembrança que me visita, é a lembrança dos teus dedos destros a manejar a agulha. —Quando eu sonho ao seio da fumaça negra, o teu cachimbo de prata repousa em minhas mãos…

 

Meu terceiro cachimbo é de marfim, com um fornilho de jade branco e com dois engastes de jade verde.

Ele é mais antigo e mais precioso que os dois primeiros.

Foi talhado de uma presa de elefante. Ele é muito espesso e bem pesado, pelo que se advinha feito por homens de outrora, mais robustos que nós. O nó foi elaborado na própria superfície e tem a forma de um signo rusticamente esculpido. O fornilho, quadrado, brilha como o leite verde de um pedaço de pistache, e algumas veias opacas serpenteiam em meio ao jade transparente.

Antigamente, o cachimbo de marfim era branco, branco como a raça ocidental que doma os elefantes além dos montes. Mas a borra paciente o amarelou pouco a pouco, e depois o escureceu, pelo que ele é hoje mais parecido à raça oriental que fuma o ópio. E a alma das duas raças rivais, se mesclam dessa maneira no cachimbo de marfim.

A Índia fecunda que fervilha do Ganges ao Dekkan; o Tibet sábio, agachado sobre suas estepes de neve; a Mongólia nômade, onde trotam os camelos desengonçados; a China inumerável e divina, a China imperial e filosófica; o cachimbo de marfim evoca misteriosamente toda a Ásia.

Pois ele é velho, mais velho que muitas civilizações. Eu sei que uma Rainha Ocidental, — Persa, Tártara, Cita? — o ofereceu em um dia histórico a um Imperador Chinês que ela visitou. Isso foi há trinta séculos. Eu sabia o nome da Rainha e o nome do Imperador, mas o ópio desdenhoso os varreu da minha memória; assim que me recordo somente da nobre história pacífica desses grandes príncipes vindos um à frente do outro através de seus impérios, para trocar por cima das fronteiras abolidas juramentos de paz semelhantes aos juramentos de amor. Trinta vezes cem anos… Cachimbo de marfim, quantas bocas imperiais te passaram em todo esse tempo? Quantas majestades vestidas de seda amarela foram buscar em teus beijos acalentadores o esquecimento de suas tristezas e de suas preocupações, o esquecimento das ruínas e das injúrias que a cada dia mais difícil, se abateram sobre o Império sacro de Hoang-Ti? E se te vejo agora envelhecido e enegrecido, é que esse é o luto com que te portas, o luto de tantos séculos sábios, mortos para dar lugar a esse nosso século fraco e vão?

 

… Eu nem sei mais do que meu quarto cachimbo é feito. Ele foi o cachimbo de meu pai, e ele morreu à força de fumar.

Este é um cachimbo mortuário. Ele está saturado de borra, saturado em todos os seus poros e em todas as suas fibras. Dez peçonhas todas ferozes se emboscam em seu cilindro negro, semelhantes ao tronco de uma cobra venenosa. — Morfina, codeína, narcotina, narceína, — que sei eu? Meu pai está morto por ter fumado demasiado. O ópio quando se evapora em seu fornilho desprende um sabor misterioso de morte.

Esse é um cachimbo fúnebre. Todo negro, por causa da borra, e revestido com gravados de ouro, que brilham como as lágrimas de uma mortalha de ataúde. Eu não ouso aproxima-lo de minha boca, — ainda não. Mas somente o contemplo, — como se olha a uma tumba entreaberta — com desejo e vertigem.

Meu pai está morto de o ter fumado, — meu pai que eu amava. Entre a vida e a morte, — a vida desagradável e fútil, a morte serena, fecunda de uma maravilhosa embriagues, — ele escolheu a morte. Quando meu dia chegar, farei como ele.

E então, buscarei sobre o cachimbo negro aplicado em ouro, o gosto frio dos lábios paternos, — piedosamente.

 

 

Ora, aqui estão: a lâmpada acesa, as esteiras sobre chão, e o chá verde que fumega na taça sem asa.

E também meu quinto cachimbo, todo preto. Ele não é antigo e nem precioso. Eu comprei seis iguais de um fabricante de ataúdes. É um simples bambu marrom, completado com um fornilho de barro vermelho. O nó do próprio bambu é o suficiente para reter os dedos.

Ele não tem nada de ouro, nem de jade, nem de marfim. Nenhum príncipe, nenhuma rainha nele fumou. Ele não evoca magicamente as províncias distantes e poéticas, nem os séculos de glórias passadas.

Mas assim mesmo, é a ele que prefiro há todos os outros. Pois é nele que eu fumo, — os outros, demasiados sagrados. — É nele que, a cada noite, me verte a embriagues, me abre a porta deslumbrante das voluptuosidades lúcidas, me arrebata triunfalmente horas de vida entre as esferas sutis dos fumantes de ópio; — as esferas filosóficas e benevolentes onde habitaram Hoang-Ti, o Imperador Solar, — Kouong-Tseu, o Perfeito sábio, — e o Deus sem nome que o fumou primeiro.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Claude Farrére - Fumaças de Ópio - Fou-Tcheou-Road


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FOU-TCHEOU-ROAD


Esse agora tornou-se meu hábito mais querido. Toda noite eu fumo o ópio.
Não na minha casa. Eu não quero ter uma fumaria em minha casa. Estou morando sobre o Bound, na Concessão Francesa. Muitas pessoas me visitam e prefiro que elas não saibam: ensina-se cada absurdo sobre os fumantes!
Não, ninguém sabe. Ao cair da tarde, na hora em que os europeus sonolentos vão ao club ou flertam nos salões, eu finjo voltar para casa, enfastiado da vida mundana. E o meu Djin-rickshaw, que me atende à porta, me leva imediatamente, nas grandes passadas de suas sólidas pernas amarelas, ao longo das ruas desertas que conduzem ao centro da Concessão Internacional. É lá que eu fumo, na Fou-Tchéou-Road, a rua alegre de Xangai. Eu não tenho uma fumaria preferida. Na Fou-Tchéou as fumarias abundam, todas acolhedoras. Xangai é a cidade das festas, o lugar dos encontros voluptuosos de todo o Yang-Tsé, — Deauville, Biarritz e Monte Carlo ao mesmo tempo. E a fou-tchéou-road é o coração chinês de Xangai. A noite chega, e a rua inteira se ilumina e avermelha-se. Cada porta é uma boca mais ou menos estranha, mais ou menos sedutora, mais generosa de ópio. Entro ao acaso da minha fantasia, me estendo junto de uma lâmpada desocupada, e imediatamente um boy, — um mostardo de face enrugada e velha, — se aproxima e prepara o cachimbo. Eu não me canso de o contemplar.
Não importa onde, esse é sempre o mesmo ser silencioso e pronto que jamais sorri e jamais olha. No pequeno pote cheio do ópio viscoso, ele mergulha a agulha. Depois, sobre a chama da lâmpada ele cozinha a gota perolada. A gota se infla, amarelada e gomosa. Ele a amassa e a achata contra o fornilho do cachimbo; ele a rola, a estira, a amacia, e finalmente a gruda com uma pressão brusca ao centro do fornilho, contra o orifício delgado do tubo. E eu, eu não tenho mais que sugar, de um longo fôlego, a fumaça insulsa e teimosa, enquanto que ele mantém sobre a chama a pílula negra que enruga, diminui e se evapora.
O primeiro cachimbo me aterra e me esmaga. Eu me estendo sobre o dorso, incapaz de um bater de cílios. E isso dura um, dois, três minutos. O boy, paciente, me oferece a segunda dose negra. Mas eu continuo a saborear minuciosamente o princípio de minha embriaguês, eu saboreio com gulodice os turbilhões enlouquecidos do meu cérebro que ainda não sabe suportar com frieza o primeiro ataque da poção divina. E é somente quando se dissipa essa voluptuosa vertigem, que eu ergo a nuca, e já tenho em meus lábios a segunda dose.
Ao redor há outros fumantes. Eu mal os vejo, pois parece que a fumaria esta quase às escuras, mas sei que todos nós estamos deitados sobre as esteiras marrons. Mal, ainda, vejo luzir as lâmpadas entre a fumaça negra, e ouço o crepitar harmonioso dos cachimbos, e sinto seu odor indescritível. Sei também que outras inteligências vizinhas se aprofundam simultaneamente nessa embriagues, e isso me enche a alma de satisfação fraternal e de afetuosa confiança. O ópio, realmente, é uma pátria, uma religião, um laço forte e cioso que estreita os homens. Eu me sinto mais irmão dos asiáticos que fumam na fou-tchéou-road que dos franceses inferiores que vegetam em Paris, onde nasci.
Antigamente, eu tinha esses asiáticos separados de minha raça por um abismo. E de fato, que precipício insondável entre nós? Nós somos as crianças e eles os anciões. O menino que pula corda é muito diferente do centenário que se precipita para a sua tumba escavada. Mas hoje eu sei que o ópio pode maravilhosamente cobrir esse precipício. O ópio é o mago das transformações e das metamorfoses. Os europeus, o asiático, são semelhantes, — nivelados — frente seu sortilégio todo-poderoso. Raças, fisiologias, psicologias, tudo se desfaz; e outros seres vêm ao mundo, incomuns e novos, — os fumadores, que mais propriamente, cessaram de serem homens.
É isso mesmo. Cada noite na fou-tchéou-road, eu despojo minha humanidade grosseira, e me liberto, a jogo na rua como a um farrapo. Eu, e todos os outros fumadores como eu. Desde então, com nossos cérebros renovados, filhos do ópio, somos irmãos entre nós, que se compreendem imediatamente, se apreciam e se ligam nessa amizade. Maravilhosamente, a embriagues é muito breve, e de manhã, quando dolorosamente, eu volto a minha casa e ao meu leito, e abdico essa minha superioridade, e reendosso o andrajo humano, os homens amarelos da outra raça tornam a ser para mim, indecifráveis e fechados.
Não importa. Entre esses homens, a embriagues me há dado amigos.
Muitas noites, um adolescente de olhos agudos se estendia junto a mim, na mais dourada das fumarias de fou-tchéou-road, — uma fumaria de teto muito baixo, toda guarnecida de esculturas bizarras cuidadosamente vestidas de ouro polido. — Um rapaz, num robe de seda malva e cujos dedos magros despelotavam o ópio com uma destreza maravilhosa. Ele se chamava Tcheng-Ta. Seu pai é um negociante rico e ele vive à sua maneira, ao gosto chinês, na arte e na opulência.
Tcheng-Ta me conduziu à sua fumaria, na sobreloja de uma das casas mais inextrincáveis de fou-tchéou-road. Entra-se por uma rua perpendicular bastante obscura; sobe-se em seguida dois andares, para depois descer um, — tudo isso entrecortado de corredores sinuosos e de pátios estreitos por onde se expõem somente coisas singulares… E bem ao fundo se acha a fumaria de Tcheng-Ta. Essa é uma peça bem simples, branca de cal, com muitas esteiras e almofadas por terra. Enquanto se fuma, a ama de Tcheng-Ta prepara o chá verde, ou canta se acompanhando de uma guitarra, melodias que se parecem a miados assaz doces.
Nós não fazemos curas entre nós, pois nossos pensamentos não são desses que se trocam facilmente como em um longo mal familiar; pois o ópio nos poupa as palavras ociosas. Nossos olhares se penetram, benevolentes. E eu sei, e ele sabe, que nós estamos agora em comunhão perfeita.
Outro dia, ele apanhou um olhar, rapidamente contido que eu havia deixado sobre Ot-Chen, sua amante. Ontem, ele me apresentou a Tcheng-Hoa, a irmã de Ot-Chen. Todas as duas são iguais, rosas e brancas como de porcelanas pintadas. Suas mãos âmbar são adoravelmente finas e seus pés vestidos em faixas, descansam em sapatos de cetim do tamanho de duas nozes.
Os cabelos são de ébano curiosamente esculpidos. Dos quais não se pode mais que vislumbrar, porque estão cacheados com perolas o mais estreitamente agarradas. Tcheng-Hoa e Ot-Chen não gostam do mundo que as cobriu de jóias. A cada braço, elas trazem dezesseis braceletes e em cada dedo, sete anéis. Somente para o amor é que elas consentem em despojar essa couraça preciosa, e então se oferecem nuas como as menininhas pobres; mas ao abraço desatado, elas se precipitam aos seus adornos antes mesmo de se preocuparem com suas roupas espalhadas.
Elas fumam o ópio junto a nós. Os dedos apanham o cachimbo com um bonito gesto afetado, e suas bocas são dois biquinhos sutis frente ao bambu que se umedece nos seus lábios. Elas vestem blusas de mangas  largas, em seda clara guarnecida de cetim, e por baixo, outra camisa sem mangas. Suas calças descem retas até o tornozelo e  são do mesmo tecido pesado e rijo, suntuoso; e todas as costuras se escondem sob bordados da mesma cor do tecido: — verde anil, malva pálido ou cinza prateado.
Quando o ópio me tem apanhado em suas garras e me arrebata ao vôo de suas asas, Ot-Chen e Tcheng-Hoa transformam-se por minha fantasia em duas princesas de lendas, e eu me delicio com esses sonhos antigos e maravilhosos. A fumaria de Tcheng-Ta é um palácio de mármore onde abrigo minha soberana indolência, e eu sei que ao redor se estende: não mais o tumulto da fou-tchéou-road, mas o silêncio temível das florestas históricas onde dormem os yamens imperiais. A fumaça dos cachimbos recaem num fino pó negro, e as paredes, as esteiras, o teto onde dança a enorme lanterna vermelha e amarela, — se encobrem, se esfumaçam, se matizam de cores antigas e misteriosas, se vestem de bronze, de ouro e de marfim, se enfeitam de porcelanas gigantes e se ensombressem de lacas seculares. As rainhas preferidas me oferecem o chá de Yunnam na taça imperial, a taça de jade verde. E muito propriamente, eu sou o Imperador, o Hoang-Ti, o muito-sacro. — Entretanto a memória me falta, e eis que eu não sou mais nada. Qual é esse século? Qual é essa dinastia, minha dinastia? E por que esses gritos inconvenientes penetram minhas muralhas de mármore? Será então que, sem me lembrar, eu transportei minha capital para uma cidade barulhenta? Quê preferirão meus sucessores — à Ho-Nam ou a Tchen-Tou-Fou?…
          Não, não! Tudo está calmo, tão calmo que seguramente eu havia sonhado até agora… E sobre o que eu não sei, também não sei em qual balanço invisível, o ópio irá me embalar agora, me embalar até a náusea…

Terceira Parte - Os Extases