sábado, 22 de setembro de 2012

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - As Bestas






As Bestas  
AS BESTAS
O palácio de Tong-Doc fica ao final da cidade. A cidade é uma capital do Extremo-Oriente, uma capital bastarda, mongol e malaia. Um povo franzino e escuro, que se curvou ao julgo bárbaro dos homens de faces brancas vindos do oeste.
O palácio de Tong-Doc não é, portanto, mais que uma pesada construção, que tem por torres eriçadas, algumas grades de colunatas à moda dos anos vinte. O velho príncipe, traidor e servil, jogou às urtigas sua honra de patriota e sua lealdade de fiel; — jogou às urtigas as tradições ancestrais, cobrindo-as com sua filosofia céptica; — proclamou-se ostensivamente europeu, democrata e católico, mas conservou, não sem muitas desculpas corteses, uma simpatia pela arte diferente de sua raça: o palácio de Tong-Doc é um parque sombreado por grandes cedros, onde dormem espalhados cinco zimbórios e alargados por vastos terraços. O chão é de mármore e as paredes de ébano; o telhado é todo em porcelana verde. E por toda parte há uma profusão de madrepérola incrustada. A água jorra livremente sob as árvores, e o vento leva seu frescor até o fundo das últimas salas onde o sol jamais violou as suas varandas.
Dentro do yamem que lhe é reservado, — sob o golpe das pás ritmadas dos pancás de seda branca, — a filha de Tong-Doc, que no verão passado foi princesa, dorme a sesta do meio-dia.

Jamais alguém a chamou pelo seu verdadeiro nome, o nome perigoso é portanto, somente murmurado à noite, com pesar ou cobiça, ao fundo das obscuras canas dos arrozais. Fiel a sua política submissa, Tong-Doc a chama Ana, como a uma filha europeia. E é também por Ana que a tratam o clã privilegiado dos tenentes e dos professores que vêm ao palácio somente para jogar tênis com a filha de Tong-Doc e receberem em seguida, dessa pequena mão morena, uma taça de chá adoçado à inglesa, com o creme e os bolos, pois a senhorita Ana professa algum desprezo pelo chá de Yunnam. — Uma tisana de água quente, meu querido? — A senhorita Ana sorri e faz a reverência, — ela foi educada num convento; — reclinando os admiráveis cachos do seu penteado de jovem escolhida ao vice-residente. A senhorita Ana flerta enfim, flerta muito, e dessa galantaria, se sabe que dois dos ajudantes-de-campo do governador começaram, dizem, a se enervarem do seu jeito. Tudo pesado, a senhorita Ana difere muito pouco de não importa qual mademoiselle Ana de Paris ou de Londres; e alguém até se enganaria, não fosse o traje oriental, enfeitado de argolas de ouro presas na seda negra e as sandálias anamitas, que revelam um inconfundível pé asiático. Mas não se trata, entretanto, da bela diferença, mas de algo pálido — muito hábil, muito artificioso, misterioso. Não importa, a filha de Tong-Doc verdadeiramente esqueceu a sua raça e anulou o seu destino. Ela ignora a linguagem antiga do império e quando ela fala desses que são seus vassalos, ela diz: — Os indígenas.

Quatro horas. Hoje não se jogará mais o tênis, pois dois coronéis de bigodes brancos vieram saudar amigavelmente Tong-Doc. Senhorita Ana distribui suas ordens: — Não se servirá mais o chá.
— Senhorita, o que está preparando não vai nos embebedar?
— Oh!, um pouco, meu coronel! É um coquetel de minha criação. Põe-se um dedo de marrasquino, uma lágrima de scoth-wisky
— Com bastante gelo?
— Com muito gelo! Com icebergs! Com Banquisas! Meu coronel, deixe que os prepare.
Os Képis, cinco vezes agaloados se inclinam, e o ritual está encerrado — sob os antigos cedros que assobiam.

Cinco horas, a hora do passeio. Trajando um vestido verde com fortes bordados, — jamais o amarelo, jamais o púrpura, jamais as cores imperiais proscritas! — Para o passeio da tarde a filha de Tong-Doc monta uma carruagem. A carruagem trás a marca Binder, e os cavalos são dois australianos, — a raça soberba, da qual não vi mais nenhum sob o céu da Indochina. Dentro da cidade, usam a equipagem mais elegante, meio parisiense. A libré, alias é escura, sem divisas, e o verniz negro, virgem de todos os armários.
O passeio da moda é uma ala do parque, distante a uma légua, todo plano, ensaibrado de vermelho. Ao redor, a natureza asiática estende melancolicamente seu esplendor: arrozais verdes como a relva, córregos ocultos pelas moitas, altos bosques de graciosos bambus, matas de arecas e palmas arrojadas. O sol, mortal aos crânios europeus, orna-se de rubi e de esmeralda para acentuar de nuanças todo esse verdor úmido. Durante muitos séculos, os imperadores letrados, invisíveis atrás de palanquins de ouro puro, passearam sua desdenhosa indolência por essas sombras preferidas.
A carruagem de Tong-Doc se junta às outras carruagens do passeio. Duas filas de veículos sobem e descem a ala ao passo lento dos cavalos. Os vestidos claros, as sombrinhas alegres, os braços nus em meias-luvas brancas, e o sol no horizonte, mais forte por seus raios oblíquos, formam uma visão da Europa, uma visão luxuosa de Armenouville ou do Hyde-Park. — A túnica verde bordada com filigranas hieráticos, tom sobre tom, dá para a cena um toque de exotismo discreto. — Na cena, senhorita Ana trás negligentemente seu guarda-sol e lança jocosas olhadelas aos cavalheiros diligentes que a saúdam! — Cá e lá as mãos se agitam, e as moitas estremecem, soltando ao vento vozes de crianças. E quando a noite se precipita, riscando de negro o poente ruivo como a pele de um tigre, as carruagens prontamente retornam à cidade. Mas, na luz das lanternas, os retardatários distinguem então o sorriso divertido da filha de Tong-Doc, fixo até o fim, o sorriso muito distante, na verdade, do ricamente eterno, que gesticula ao fundo dos pagodes, nos ídolos imperiais esquecidos.

Dez horas, a hora do teatro. O proscênio esta florido com uma colheita de rosas. A filha de Tong-Doc escuta Samson, com o semi-recolhimento que se recomenda. O pequeno binóculo de nácar mira as vezes o tenor ou o contralto, mas mais frequentemente, esquadrinha os camarotes e detalhadamente, suas roupas.
Nas luzes, a formosura esbelta e castanha da nobreza asiática resplandece. O robe suntuoso ganha intimamente quadris de mulher e cintura de fada; o busto orgulhoso e pouco volumoso, o pescoço delicado mais parece de algum metal ignorado, mais claro que o bronze e mais precioso que a prata. As mãos magras à força de delicadeza, os braços inegáveis e até o olhar enigmático, apesar de mortiços, de dois olhos puros e frios, em tudo evoca o pensamento de uma estranha estátua antiga, modelada por um mestre apaixonado pelo misterioso e pelo incomum. Mas sobre toda essa máscara atávica, a educação recente a colocou numa mascara nova; e o sorriso, e o olhar e os gestos são ajustados para transformar a princesa mais longínqua em uma parisiense toda moderna, que mal se distingue sob seu robe oriental.
Na porta do camarote, dois golpes são discretamente batidos. É a visita do chefe da casa militar, um tenente coronel muito jovem e galanteador. Cumprimentos, reverências, dedos beijados. Desta feita, Saint-Seans fica injustiçada. Entra-se, se instala, se conversa, se ouve música. — Como em Paris.

E agora é noite, — a noite pesada e cintilante, — a noite da Indochina, quente como um dia de verão. A filha de Tong-Doc volta para o seu yamem. A cidade adormece, debilitada. Nas avenidas silenciosas não há mais ninguém para contemplar a fila violeta das luzes elétricas iluminando a cortina de árvores verdes.
Solitárias, apenas as espeluncas de ópio, na orla da aragem negra, avermelham vagamente à noite. Espeluncas de prostituição sobretudo. As portas baixas revelam vagos fumadores miseráveis, terra batida, fracamente amassada, madeira quebrada, esteiras podres. Dois quintos de petróleo empestando o ar já insípido. Ao fundo, quatro nichos fechados, que numa claridade vacilante abrigam casais com humor lúbrico. Na terra, a lâmpada, o cachimbo e a agulha atendem o fumante. Mas quase já não há mais ninguém que venha fumar, um ou dois marinheiros livres, ou algumas vezes um grupo por diversão ou simplesmente para se chapar.

Mais longe, atrás do palácio de Tong-Doc, na pequena caserna vela um sentinela. — A boina plana se assenta sobre os cabelos bem penteados, e o fuzil repousa no antebraço direito. — Subitamente, alguns passos miúdos estalam em contato com a areia e, silenciosamente um batente de porta volta-se sobre seus eixos. Uma forma morena passa, a forma de uma mulher que se evade do palácio. Entretanto, a sentinela nada vê, nunca vê, pois ela permanece impassível e muda, atenta somente às moitas que margeiam o caminho da ronda.

No extremo do cais do arroio, entre as últimas canas baixas que cheiram a pó e a podridão, a última luz de ópio abre sua boca terna. Três meretrizes, — jovens ou velhas, pois não se distingue muito, — estão agachadas ao lado de um rapaz equivoco, e as garrafas de aguardente de arroz enchem as taças sem asas. E também, por certo, a chaleira para o chá fumega num canto.
Ora, a porta vermelha se abre, e quem entra? Uma mulher jovem e bela, muito elegante na simplicidade pobre do seu robe escuro. E ali se passa uma coisa inteiramente bizarra. As prostitutas e o lugar, de ordinário sem cortesia e lento nas saudações, se levantam em presteza, juntam as mãos e curvam a cabeça, selando um rito de profundo respeito. As frases se trocam, frases anamitas do mais puro dialeto. — A visitante ordena em modos breves — os hospedeiros balbuciam humildes comprimentos e oferendas servis. E precipitadamente, o aguardente é deixado de lado, um candeeiro se acende e o cachimbo se aquece à chama. Uma das meretrizes trás ao joelho a primeira chávena, um chá verde de Yunnam, que se distingue dos grosseiros; e o ópio sobre o candeeiro começa seu engorduramento misterioso.

Mas com um estrondo a porta se rompe, e um grupo ruidoso se precipita, um grupo travesso que retorna de um jantar e que procura uma pândega. Eles são dois oficiais, dois funcionários públicos e dois magistrados, o resumo perfeito do ocidente invasor, a própria essência da Europa, sempre incitando a morte, sempre essa barbárie ocupada e grosseira, a que a sabedoria indolente e sutil do oriente foi vencida. Toda essa gente tumultuosa penetrou no recinto com fulgor e exclamando em voz alta:
— Que horror! Que podridão! — Eis aqui aquela esparrela de que lhes falei. — Que vício sórdido, entre esses selvagens!
A visitante, alongada defronte a lâmpada, com o cachimbo de bambu em sua mão frágil, não dignou voltar a cabeça.
— É preciso ter coragem para se deitar nesse lugar!
— Você não viu ainda as bestas! Esta noite, elas parecem quietas.
— As bestas?
— Sim; as baratas, as lacraias, as formigas, as aranhas, as centopeias, os escorpiões, e eu nem sei o quê mais… Elas regem aqui em plena onipotência. E durante o dia ficam aí onde estão agora as esteiras — Pouah!
— Ei, e quem é essa congai que fuma?
— Uma bonita meretriz, mas parece que eu nunca a vi.
Impassível, a fumante aspira lentamente a fumaça negra, e seus olhos absorvem fixamente o vazio. Pode ser que ela não compreenda nada, mas são muito poucas as mulheres da cidade que não compreendem nenhuma coisa da língua dos senhores.
— E então, pequena? Preciso ver o teu nariz.
Esse que fala é um dos primeiros de sua raça por nascimento e saber. Italiano e francês. Tudo junto, poeta, doutor e soldado, ele resume harmoniosamente a delicadeza e o espírito de dois povos, o orgulho e a sabedoria de três castas. Mas é, entretanto, em presença do Extremo Oriente, como uma criança diante de um enigma complexo.
Ele se aproxima da fumante e com o dedo a toca no ombro. Ela, friamente, o contempla, deixando apenas a incógnita entre eles.
Vejam, ela é gentil… — Como se chama? Não diz nada? — Ela não fala francês, é uma pequena selvagem. Veremos… — Deixe-me ver teus peitos… Ora, vamos, isso é uma coisa permitida num ambiente desses… Eles me parecem muito bem feitos… Há não? Não tão longe? A teu prazer minha querida. Você é excelentemente bem feita, sabias?
— Ah, estou pensando! — Você não imagina minha querida que é o próprio retrato de Ana, a filha de Tong-Doc? — Mas creio que ela é alguma coisa… Mãos finas demais para o povo…?
— Dama, aqui?
— Ela é igual, só que bem melhor que a maioria. — E você boba, se aproxime!
— Quem é essa, está recente como pensionada?
A mais velha das prostitutas ri, com sua grande boca obscena fendida sobre seus dentes negros. Ri num riso gritado e tão estúpido, que sobre aquela pessoa o mundo jamais suspeitaria uma zombaria e uma brutal emboscada. Depois da confusão ela explicou.
— A visitante chegou ontem, ela vem lá de baixo. — Lugar impreciso, gesto vago. — Ela se chama Thi-Nam, — um nome bem vulgar, — à menos que isso não os enfade…
— Aqui não se enfada. Pode-se comprar este objeto de arte?
Louco riso, de mais em mais gritado e estúpido. As três meretrizes se dobram em duas, contorcendo-se de riso. — Não se pode, é a coisa mais impossível do mundo! Thi-Nam é inviolável, no sentido muito preciso da palavra. — Por quê? O capitão vai saber? Ah Deus! Porquê! — Gesto ignóbil. — Esse anjo de beleza não é, ai de mim, uma ovelha perdida, muito perdida. Thi-Nam está doente, e o excelente capitão não há que insistir um pouco para ganhar o lugar que tem a mais admirável sífilis de todo o país. Perfeitamente, esses lábios corados, esses olhos negros com o clarão da prata, esse pescoço orgulhoso e claro, — Tudo aqui, tudo apodrecido!
— Hein?
— De verdade, meu querido! Deixo-lhes então as pequenas, que são meninas com um ar melhor. — Honesta a sua maneira essa velha feiticeira. Pois ela tem medo que o serviço dos costumes venha a se ocupar com ela, e olhe então a  pequena! Aqui ela é rudemente igual, seria uma revelação pública! Uma branca morrendo de vergonha, e as mulheres daqui são como as chinesas, pobre raça!
— Então, nada a fazer nessa lama. Partimos?
Eles saem, por último o francês, filho de italianos, que se detém junto ao umbral e olha ainda. Ele advinha obscuramente muitas coisas misteriosas entre esses quatro muros enlameados, muitos enigmas dissimulados nessas frontes morenas que pensam outros pensamentos, diferentes dos pensamentos ocidentais. Mas mesmo assim, ele sai, depois de ter hesitado. E a suspeita, nasceu de uma verdade inverossímil.

A porta é novamente fechada, os ferrolhos gemem com a ferrugem. E a matrona repugnante precipita-se então de joelhos em terra e se prostra com a cabeça de encontro às esteiras. — A Santa Princesa, a Sucessora da Cidade, a Reservada, — por direito de raça — ao Leito Imperial, a filha de Tong-Doc que outrora chegou a Sétimo no império, a Inegavelmente Virgem, perdoa-me!, perdoa mais essas três pequenas escravas, vis como o excremento dos sapos, à blasfêmia proferida?! Concede perdão a essa criminosa que para salvá-la do ultraje dos bárbaros, ousou sair de sua própria ignomínia? — As prostitutas e o morador tremem, as mãos juntas e a fronte no lodo. Duas lágrimas correm, não mais hipócritos gemidos que raiam a brutalidade dos opressores: duas lágrimas amargas, quentes de horror e de indignação.
Impassível, com o desdém hierático dos ancestrais ressuscitados intactos nos seus olhos, a filha de Tong-Doc olha seus súditos e não diz nada. Somente um estalo de língua impaciente lhe escapa: o cachimbo está vazio. Timidamente, as mulheres se apressam. E novamente a fumaça negra sobe e se dilata pela fumaria silenciosa.

O odor mágico se expande e flutua. Começa impregnando as esteiras, depois a terra, as paredes e por fim as vigas do teto.
E misteriosamente atraídas, inumeráveis bestas saem de cada fresta e de cada canto, e avançam pouco a pouco ao redor da lâmpada.
Pois a nobre droga estende sua realeza sobre todos os seres. Nada vivo escapa ao seu cetro, e defronte os átomos poderosos, os mesmos que saturam os fumantes, o instinto do mais insignificante dobra-se assim como a razão dos homens, e é aqui que a princesa vem esquecer seu trono morto, — e no meio de uma multidão de insetos, elevar-se por uma hora sobre suas obscuras animalidades.
As bestas convergem lentamente junto à fumante, sem ousar tocar em seu corpo que sente o ópio. Ao redor, elas pululam. Entre as esteiras, os interstícios da terra escura cessam de serem vistos, porque as esteiras são agora escuras como a terra, escuras de animaizinhos amontoados.
Os arrozais são antigos de muitas gerações de homens, e de miríades de insetos que habitam seus grãos carunchados; — de miríades, igualmente pelo úmido calor do sol. Nas frestas do teto, grandes aranhas peludas estendem suas teias. Nos compridos bambus que servem de vigas, e por entre as ripas cruzadas que sustentam o telhado, morcegos marrons passeiam e se deixam as vezes cair desajeitadamente. Os outros, muito gordos e negros, abrem suas asas indolentes e se jogam brutalmente de uma parede a outra, para logo tombarem meio atordoados pelo choque. Em baixo, é o reino das formigas, das baratas, dos escorpiões e das lacraias. Todos correndo sobre as esteiras, se misturando e se evitando; se chocando e se batendo, se amando e se devorando, ao acaso das raças e dos sexos. Nas paredes, as pequenas lagartixas emergem das rachaduras do cimento e se lançam de uma fresta a outra com bruscos arremessos ansiosos. Ao centro enfim, numa atmosfera mofa e tépida os mosquitos e as mariposas engrossam suas sarabandas, dando assalto ao quinteto de fumadores, e chamuscados pela chama caem enrugados, um após outro.
Ora, a fumaça negra se impôs a toda essa vida furtiva e confusa. E pouco a pouco, se acalmam os zumbidos e a inquietação. Não que as bestas estejam dormindo, mas é que os seus instintos inquietos se dissiparam, e o clarão da inteligência, — da inteligência calma e confiante — se faz dia nos seus cérebros rudimentares.
E as bestas suspendem sua agitação intermitente. Suas longas linhas concêntricas hesitam e flutuam frente à fumante, pois ela finalmente se encerra como que de uma aureola imóvel. A princípio surpreso, e logo ávido, seu peito tênue se enche junto às volutas que dão a sagacidade e a paz.
Ela, a rainha desprestigiada, não mais digna aos olhos de seu povo obscuro e dócil, abandona impassivelmente seu corpo recostado nas esteiras, e respeitosamente fuma. Num abrir e fechar de olhos foi à ruína todo o verniz ocidental. Ela vai aqui de tirana a adoradora. Aqui a alma do Extremo-Oriente pode se erigir soberana debaixo dos trejeitos bárbaros da raça conquistadora. E o sorriso energético que se entrevê em seus delgados lábios negros de ópio, parece agora assemelhar-se mais e mais ao sorriso dos ídolos imperiais esquecidos ao fundo dos pagodes que desabam.
A filha de Tong-Doc sonha.
Ela sonha sonhos incomuns ao ocidente; — são sonhos plenos de uma filosofia muito árdua para a inteligência das raças jovens. No cenário do seu devaneio, flutuam sem dono os yamens que os bárbaros jamais irão poluir, os yamens orgulhosos onde as fumantes virgens e os gênios perigosos das florestas febrilmente se honram em servir, ajoelhados à princesa de sangue sacro. E nesse sonho se encontra uma outra em si mesma, com uma cor, um talhe e uma alma própria, e esses dois eus nunca se verão passar por sua fronte imóvel, nem nesses olhos metalizados pela droga…
Em seguida a princesa se detém, e repousa o cachimbo de bambu. Ela contempla a multidão de bestas congeladas de êxtase em meio às volutas negras que rolam abaixo do teto. Sonha ela, a virgem viúva de um império, de um destino traído que a arrebatou à obediência de um povo, — muito numeroso, — de um povo humano muito parecido a seu povo de insetos, no seu respeito imóvel e na sua adoração petrificada! Chora ela unicamente com seus suspiros de raiva, o império morto, e o cetro caído em escravidão?
         Entretanto, o cachimbo novamente se inclina sobre a lâmpada, e a boca muda aspira o bambu. A droga compassiva sabe como curar todas as dores. A filha de Tong-Doc nutre com o ópio seu orgulho sangrante, seu trágico orgulho dinástico sessenta vezes centenário.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - A Igreja


A IGREJA


Quando despertei, compreendi imediatamente: meu relógio marcava nove horas e treze minutos. A igreja estava fechada. O porteiro não me viu em meu recanto e me acho prisioneiro.
Prisioneiro. Eu abro a boca para gritar, mas depois ergo os ombros. Para quê? Ninguém me ouviria. Lá fora está nevando. A grande praça certamente está vazia, e, além disso, as paredes são muito espessas. Depois, quem se importaria com meus gritos?
Não, se não há com quem contar, esperarei que a igreja reabra para a missa da aurora; só me resta aguardar e tornar a adormecer. Fixa ideia essa que me veio, de entrar nessa diabólica igreja para escapar uma hora do vento áspero das ruas! Fixa ideia, sobretudo, de me esconder ao fundo desse confessionário, para aqui sonhar entre os pecados furtivos dos devotos, sorrateiramente confessados com rubor, através da grade estreita, e da cortina grosseira, na semiescuridão estofada do santuário. Pela minha grande sorte, a nave está aquecida. Com passos incertos eu me arrisco na direção do aquecedor, chocando aqui e ali em bancos e cadeiras, pois está terrivelmente escuro. Muito longe, pela dilatação misteriosa das arcadas, uma lâmpada vermelha queima solitária, brilhante como uma estrela. Reina um enorme silêncio, e cada um dos meus passos provoca no alto da abóbada um eco bizarro, inverossimilmente prolongado.
Junto ao banco dos fabriqueiros, encontrei um canto tépido e suficientemente confortável. Estendi minha capa forrada sobre três genuflexórios e me deitei, antes bem que mal. Ao redor, as capelas, os pilares e os tabernáculos pareciam montar guarda em torno a mim. E apesar da estranheza do lugar, eu me sentia tranquilo e calmo. A sugestão do meu isolamento absoluto se reforçou de uma impressão de seguridade extrema. O mundo exterior, distante, reduziu-se em meu torpor, a um perigo contornado, — um perigo brumoso e gelado que se excluía no calor doce da nave gótica, nas paredes imensas, e nas portas trancadas. Somente meus olhos, já habituados à obscuridade, descobriam, nos vitrais antigos, a transparência macilenta da noite enevada. E nenhum ruído me chegava, salvo muito incerto e inconstante, os últimos sons das buzinas dos bondes retardatários na cidade deserta. E eu voltei a dormir.
Ora, essa aventura me aconteceu em Lyon, na igreja de Saint-Jean-L’evangeiste, catedral metropolitana do primato de Gaules, no ano da graça de mil e novecentos, à sétima noite de janeiro.

Eu não sei absolutamente a hora que poderia ser quando me despertei pela segunda vez. Quis consultar o relógio mas minha caixa de fósforos estava vazia. A lâmpada vermelha que eu havia visto antes, me estava sem dúvida oculta por um pilar, pois eu não a via mais.
Imediatamente, na nave rigorosamente vazia, eu ouvi passos.
Eu ignoro as formas mais usuais que revelam o terror entre os homens. Nos livros, se fala de cabelos eriçados, de suores frios e de tremores convulsivos. Eu não experimentei nada parecido. Entretanto, eu senti tanto medo, que durante alguns segundos, ele pareceu deixar-me louco. Todas as faculdades pensantes do meu cérebro vacilaram. Uns pedaços de ideias turbilhonaram em mim sem conseguirem chegar a se unirem em ideias completas. Se bem que eu nem cheguei mesmo a supor uma causa, — natural ou sobrenatural, — ao ruído que continuava a ouvir. E permaneci dentro do abrigo de minha capa, paralisado e fulminado.
Os passos apavorantes percorriam toda a nave, da porta principal ao coro. Lá, eles subiam avançando no altar-mor, e não se ouvia mais enquanto pisavam no tapete. Mas, pouco depois eles ressoavam novamente distantes e velados. Percebi que eles contornavam o altar por detrás. E após um breve silêncio, — ainda atravessando o tapete, — eu os ouvi retornando a grande nave. Passaram a dez metros de mim, — dez metros! — E se distanciaram, lúgubres, surdamente repetidos por um eco arrepiante. Foram até a porta e lá se deteram.
Que fazer? Levantar-me, andar por minha vez, caminhar direto até o ser inverossímil, que, meia-noite tocando, surge no seio da catedral inacessível? Isso, eu não teria feito nem por um reinado; — nem pelo cavalo de Ricardo III! Calar-me, ficar quieto, sem mover-se e nem respirar, sem ver nem compreender, e viver, não, agonizar ainda cinco, seis, sete horas… Quantas horas? Os fisiologistas afirmam que os sonhos, — e por consequência os pesadelos, — começam e terminam necessariamente no mesmo instante, alguns complicados, outros inextricáveis, como sejam. E, portanto, para nos acordarmos de um sonho terrificante, não se deve deixar a razão evadisse da cabeça, — pois ao sair de um desses sonhos mais longos, entretanto, não terá havido mais que dois tic-tacs do pêndulo. Mas este está sendo vinte, está sendo trinta mil pesadelos sucessivos, ininterruptos, que vieram a se encarniçarem sobre meu cérebro, — pois que trinta mil segundos são o que me separam do nascer do sol.
Compreendi a evidência de que não poderei resistir; que ao amanhecer, os bedéis não acharão na nave, deitado sobre o genuflexório dos fabriqueiros, mais que um cadáver, ou melhor, que um possesso, que um louco uivando e arranhando com os olhos brancos revolvidos em suas órbitas. E de quatro, rastejando entre as cadeiras, me deslizei obliquamente, para o centro da igreja, — pálido com a ideia de uma cabeçada ou de um rangido revelador, me desviei até as lajes medianas aonde os passos acabaram de passar, e parei desfalecido.
Esperei algum tempo. Os passos não se decidiram mais a voltar. Eu os escutava martelarem longe nas lajes sonoras, à direita, à esquerda, atrás. Por duas vezes eles atravessaram o coro; e então ouvi o ranger da pequena porta de mármore. Depois, ao fim de uma nave lateral, uma cadeira cai, e isso fez um longo ruído bizarro que me tranquilizou sem que eu saiba porque. Mas por um minuto somente, pois o medo me estrangulou novamente desde que os passos recomeçaram. Eles tomaram enfim a passagem central da grande nave, e senti o coração hesitar em meu peito. Por certo, nesse instante minha vida não valia grande coisa: a menor distração, um estalo na madeira, um sopro de vento, e eu estaria morto, morto de medo, simplesmente. Mas nada crepitou nem suspirou. E eu vi, de tão perto que me roçou, um grande capote marrom, sobrecoberto por um capuz de monge, e tudo o mais se fundiu na noite.
Não importa! Eu respirei com toda minha força: eu havia visto, e porque havia visto, isso já era menos terrível. E depois, a coisa havia passado por mim sem me ver, sem me descobrir. E isso por si só me conferia uma evidente vantagem: de nós dois, eu era o melhor escondido, o mais misterioso. Homem ou fantasma, ele não teria quiçá que a mim para lhe devolver ao cêntuplo meu medo de há pouco, nada mais que uma cadeira jogada em terra, ou uma explosão de riso nesse silêncio majestoso.
O ser incomum se deteve junto ao altar-mor. Uma vez mais eu havia deixado de ouvir seus passos sobre o tapete dos degraus. E de súbito, uma luminosidade dança junto ao tabernáculo. Dois círios se ascenderam. E na pequena zona iluminada, eu revi o manto marrom. O capuz estava derrubado e pude distinguir vagamente uma cabeça de homem, com longos cabelos lançados para trás.
Depois, a visão estendeu os braços, e o manto tombou por terra. Sobre a brancura do altar, um corpo magro e alto se desenha, vestido com uma espécie de uniforme bizarro, negro, ornado de ouro e com uma espada. Pude ver muito bem a espada, pois no mesmo instante, o desconhecido a desembainha, e a chama dos círios jorra por sobre a lamina nua. Essa era uma espada ligeiramente curva, semelhante a um sabre, com um cabo dourado. O homem a pousa sobre o altar, depois desafivela a bainha, que cai sobre os degraus com um tinido de metal.
E então presenciei um espetáculo o mais singular.
O homem negro e bordado de ouro deixa o altar-mor e se dirige para a nave da direita, para retornar um instante depois carregando em suas mãos a lâmpada vermelha que eu havia visto primeiro que tudo. Essa lâmpada, ele a pousa defronte o tabernáculo, entre os dois círios. Tudo isso rápido e sem hesitação nem apalpadelas. O homem evidentemente conhecia cada recanto da catedral, e se guia na obscuridade como em pleno dia. Após o que, estendendo as mãos por sobre a lâmpada, ele permanece demasiados minutos imóvel, como se fosse queimar voluntariamente seus dedos. E ouvi, no silêncio absoluto, uma espécie de encrespamento regular, parecido ao que seria uma fritura minúscula. Olhei melhor então. A mão do homem negro não chegava a tocar a chama: ele tinha na ponta de seus dedos uma longa agulha, e por intervalos, a mergulhava num pequeno frasco que eu não havia visto anteriormente. Era portanto a agulha que crispava acima da lâmpada vermelha; a agulha, e a substância desconhecida cujas gotas cosiam-se dessa maneira, uma após a outra. Agora as volutas de uma fumaça pesada subiam e descendiam em frente ao altar, e um odor bizarro jamais sentido, penetrava em minhas narinas, tênue e possante. Isso durou de dois a três minutos. Depois, com um gesto solene, o homem aproximou seus dedos e pareceu engolir as cinzas desse perfume misterioso.
Pensamentos ansiosos soltaram-se em mim, pensamentos de mácula e de sacrilégio, de missa negra e de bruxaria. Mas não, a porta de ouro do tabernáculo permanecia fechada, e, visivelmente, o homem estranho respeitava o lugar sagrado. Duas vezes eu o vi, — subindo ou descendo as escadas, — riscar em seu peito um largo sinal da cruz. Esse homem ali era cristão e católico, — familiar das igrejas, — e quanto mais me assegurava, mais me perturbava e me inquietava. Existiria pois, ao seio de minha religião moderna e liberal, cultos esotéricos cujos padres, vestidos de negro e de ouro, cingidos de espadas curvas, oficiavam obscuramente, longe de todos os fieis, na solidão das catedrais noturnas? Nesta mesma hora, outros pontífices semelhantes, ao fundo de outras igrejas, cumpririam ritos idênticos? E o mesmo incenso estranho queimaria sem dúvida por sobre as lâmpadas litúrgicas, jogando pelas naves vazias seu aroma perturbante? Seria um momento eucarístico, quando esses padres porta-espadas elevam em seus dedos o incenso consumido pela chama? — E o teriam como uma hóstia?
Eu não tinha mais o mesmo medo, agora era um medo de tudo. Um mal-estar grandioso se apoderou dos meus nervos. Demasiadas suspeitas inquietantes sitiavam meus pensamentos. E de instante em instante se apoderava em mim a tentação de romper o encanto do silêncio e de mistério a cujo eu me sentia constrangido. O gesto, imaginado a todo momento, — a cadeira derrubada sobre as lajes, ruidosamente, — meus dedos o esboçavam agora, sorrateiramente atraídos pelo espaldar do genuflexório mais próximo. Uma obsessão de tumulto e de fracasso me opunha.
E subitamente acabei cedendo. Com todo o meu vigor retirei o genuflexório do chão e o lancei sobre a abóbada. Ele recai, eu não sei onde, com uma espécie de detonação pavorosa, indefinidamente repercutida por todos os ecos uivantes. E eu sucumbi, desfalecido de ansiedade e de desejo, ao terror soberano e atroz do outro, do homem, lá em cima, que não havia ainda tido medo. Meus olhos ávidos se afincaram sobre sua silhueta grave erguida ao pé do tabernáculo.
Ora, ele nem se mexeu. Apenas se volta negligentemente para escrutar a igreja negra. Um segundo, e depois o ouvi rir, rir de um estrepito breve e desdenhoso, rir e se virar. E o terror que eu lhe havia atirado refletiu violentamente no meu coração, repercutido em sua substância intrépida. Que homem seria esse ali, e que sortilégio, — o sortilégio, quiçá, de seu incenso fantástico, — o eleva tão alto acima dos mortais?
Então, o que me restava de razão vacila e dança, como vacilavam e dançavam os dois círios do altar. Desmoronado, aniquilado, sem vontade de gritar nem de me calar, o tempo, o lugar, a vida tornaram-se noções indistintas a cujas eu deixei de ter consciência. Não desanimado, mas ridículo, eu vi numa bruma de sonho, o homem negro e ouro, tornar a levar eu não sei onde, a lâmpada litúrgica, depois cingir sua espada e afivelar seu manto. Eu o vi, não, eu o adivinhei descer do altar, e ouvi seus passos sobre as lagens, sem estar mais certo que esses não fossem somente o eco de seus passos precedentes que se repetiam em minhas orelhas. Eu ouvi estalar uma porta e o ranger das escadas de madeira. Enfim, minha última sensação dessa noite de hipnose, foi perceber sua presença obscura no alto do púlpito, e as dobras flutuantes de seu hábito encostarem sobre a rampa de veludo. Os círios, usados até o fim, pestanejaram e adormeceram, restituindo à nave profunda sua obscuridade mais temível…


Sono, letargia, semi-morte? Eu não sei mais. A aurora terna, mais pálida ainda por estar nevando, aclara tristemente os vitrais da igreja. As chaves rangem, uma porta se abre, sacristãos piedosos, cá e lá, sem me ver, sem nos ver. Pois ele ainda estava lá. As paredes góticas não teriam nada entreaberto para lhe dar uma passagem miraculosa. Eu o ouvi descendo do púlpito, reconheci seus passos ritmados sobre a abóbada sonora. Ele não se ocultava mais. Ele caminha em direção a porta, sem pressa. Eu o examinei, e o rocei com um tremor, justamente por sentir, realmente, o cabo de sua espada sobre seu capote largo. Ele se detém no átrio, defronte a praça branca de neve. E pude ver sua face humana comum e seus olhos, — olhos muito fixos, — em cujos não encontrei o olhar.
Depois, ele se vai simplesmente, desaparecendo imediatamente na neve.