quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sr. de Fierce


Claude Farrère - Fumaças de Ópio - O Medo do Senhor de Fierce

                        O MEDO DO SENHOR DE FIERCE
Que o falecido conde de Fierce era traído, não havia dúvida — tanto na cidade, quanto na corte. Mas para se ter uma lista autêntica das pessoas que o ajudaram, — poucos cristãos dariam sua palavra — pois a condessa sempre se mostrou tão discreta, ao mesmo tempo em que volúvel.
Agora, entretanto, velha e recatada, ela está em retiro ao fundo de suas terras em Dauphiné, para doar-se a Deus, pois os homens já não querem mais nada dela. As traidoras de outrora ficam então distantes e dissimuladas. Mas os detratores, que nunca faltam, ainda não renderam suas armas. E, como a principal glória de uma bela reside na qualidade de suas galanterias, é ainda conceito habitual que os rufiões da pobre dama não fazem nada além de a tornarem mais famosa, isso contando que sejam grandes senhores — quando na maioria esses não são mais que pequenos lacaios.
Na verdade, estas são suposições gratuitas, ou talvez, maldades vingativas de velhas barbas desdenhadas em outros tempos pela Senhora de Fierce. Todavia, a calúnia tomava aparência de verdade, quando se considerava a estranha e escandalosa vida que levava na corte o cavalheiro, filho mais novo da condessa; — escandalosa a tal ponto de revelar-se antes de tudo como um verdadeiro lacaio do que como o herdeiro de uma raça de bons fidalgos, conhecida como uma das melhores famílias do reino. E veja-se ainda, que não esta se pondo aqui a questão do primogênito dos filhos do conde, — que foi mais tarde Marechal da França após ter desposado a Senhorita de Parthenay, bastarda do Rei — mas somente a do seu segundo filho, o cavalheiro Jean, cuja carreira foi mais curta, como se irá ver.
Ora, — e isso se passou no início do ano de 1747 — o cavalheiro de Fierce, provido por seu irmão de uma distinção legítima, foi apresentado ao Rei e pôde com isso conseguir um lugar na corte. Sua Majestade, aliás, assim que o ouviu falar, e lhe tendo em grande bondade, deu-lhe de presente, ao falecimento do conde, um regimento que estava disponível. E resultou que o Sr. de Fierce, o qual jamais tinha ido às armas, se achou entretanto, aos seus vinte anos, coronel de trezentos dragões aparelhados. E o Rei, que tinha boa memória, lhe recomendou no momento da sua apresentação, que — o cavalheiro tenha o coração qualificado não somente de sustentar sobre os campos de batalha a honra de sua casa, mas de ainda a aumentar.
Isso parecia predizer ao Sr. de Fierce um destino brilhante no ofício das armas, para onde o conduzia o favor real, entretanto, o cavalheiro não se interessou pelo seu regimento, que naquele momento combatia na Alemanha. E, todo o mundo foi surpreendido quando se soube que, opondo-se a todas as probabilidades, o Sr. de Fierce foi, absurdamente, reclamar um cargo pacífico e sedentário que não o afastasse da corte. Entretanto, a um filho mais novo, não poderia cair bem tão ilustre gesto. E uma canção começou a correr entre o povo, na qual se exaltava a prudência de um novo Ulisses, que se chamava Jean. O Rei, não tendo como, terminou por consentir com a petição do seu Coronel —  dizem alguns que desdenhosamente.
Apesar de tudo, não havia nada ali que fosse claramente desonroso. Afinal, muitos intrigantes da corte consentiam em destinos bem mais medíocres, com a condição de que esse destino os aproximassem do Rei — princípio de toda vasta fortuna.
Mas no nosso caso, as boas línguas ficaram vazias quando descobriram que o cavalheiro Jean não era mais um intrigante, e que a ambição não morava de todo em sua alma. Seu desejo se limitava, com efeito, a esse status, sem que ele desejasse ter em vista outras glórias senão àquelas do leito e da boa mesa. Não que fosse tolo. Mas o seu espírito suficientemente alerta e sutil, se divertia, principalmente com os logros, as trapaças e a malícia, do mesmo modo que com bebedeiras e rapés, que são as realizações das pessoas da mais baixa linhagem. As tramas ousadas e perigosas pareciam propriamente o apavorar. — Todos instintos que testemunhavam um mérito abaixo do vulgar.
Os poetas gostam de comparar as pessoas da nobreza às feras corajosas que figuram entre os brasões e os escudos, tais como leões, unicórnios e leopardos. Mas na verdade, se se estivesse a fim de descobrir assim algum animal, com o qual o Sr. de Fierce fosse semelhante por seu valor, seria talvez necessário que se procurasse entre as criaturas menos heráldicas, tais como: cabras, lebres ou rãs.
Para encurtar palavras, o Sr. de Fierce era um covarde. — E a corte sabe prontamente como agir sobre este ponto.
A primeira aventura pela qual se ilustra essa covardia veio à luz apenas três meses depois que o Sr. de Fierce foi apresentado. Naquela época, o cavalheiro, que não estava nem mal das pernas, nem feio de rosto, foi percebido pela marquesa de Cossac, quarentona, mas que ainda permanecia elegante e se deliciava com os primeiros fogos dos mais jovens fidalgos. O marquês permanecia alheio ao fato, de olhos fechados, mais exatamente, já que, de ordinário ele os tinha simplesmente para nada ver. O acaso malicioso quis que desta vez, ele visse tudo, e não sem embaraço. Profundamente aborrecido com essa descoberta, se obrigou a tomar uma decisão; o velho senhor pensa imediatamente em solicitar ao Rei um aviso régio para a infiel e um outro para o sedutor. Mas, refletindo melhor, o grande crédito do conde de Fierce, do qual uma parte ainda refletia sobre seu filho, deixa o marquês assustado. Então, negligenciando os quase trinta anos de idade que o diferenciavam do fedelho, o Sr. de Cossac o desafia.
A corte, atenta a anedota, se admira muito da grande bondade do marquês, e da honra singular que ele faz a seu adversário, simples aspirante. O Sr. de Fierce se destaca. Na mesma noite, várias damas, e não poucas, lhe enviam em bilhetes doces seus votos de vitória, se oferecendo em outros, com mais ou menos indiscrição, a suplantarem em seu coração os encantos já um pouco antiquados da marquesa. Diversos nobres se colocam do seu lado, — desejosos de figurarem num duelo que prometia ser o derradeiro dos galantes — e solicitam ao cavalheiro de os aceitar como padrinhos.
Ora, o cavalheiro não se bate de modo algum. Na noite anterior ao combate, ele cai de alto a baixo, de não se sabe qual escada mal colocada, e quebra a perna. O Sr. de Cossac, segundo a cortesia, se apressa em enviar seus médicos. Estes encontram o ferido em seu leito, com o joelho todo enrolado em faixas e dois cirurgiões suíços aos pés. Quando eles quiseram examinar a ferida, o Sr. de Fierce se opôs vivamente a que eles concorressem com qualquer dúvida. A atitude meio séria meio jocosa dos dois helvécios os acaba enfraquecendo. Se bem que eles, ao retornarem à casa do marquês, anunciaram a quem quisesse entender que o doente se portava às maravilhas, com exceção de um mal muito mais grave, mas do qual eles não poderiam tratar — o medo.
O Sr. de Cossac, justamente indignado, faz um grande escândalo com o fato. Mas mal o fez, pois o conde de Fierce, preocupado com a honra de seu irmão, se declara responsável por ele, e desafia por seu turno o marquês. Eles se batem sobre um prado e o Sr. de Cossac é  morto. A intriga se desfez imediatamente, ainda que sobre essa já se recomeçasse o bom jogo dos murmúrios, pois, como que por milagre, o cavalheiro se acha curado e ágil dois dias após a morte do seu inimigo.
Mesmo que o duelo do conde lavasse, desta maneira, a reputação do cavalheiro, isso durou somente algum tempo.
Com efeito, algumas semanas mais tarde, as obrigações de seu cargo mandaram o Sr. de Fierce a Paris. Ele se encarregava de alguns pergaminhos que o Rei enviava ao Governador da Bastilha. Nada que fosse, aliás, de grande importância, portanto o cavalheiro partiu sozinho, munido somente de pistolas, numa carruagem sem nenhuma escolta e conduzida por alguns lacaios para manter a ideia de uma mistificação agradável.
O cavalheiro, que não se duvidava curado, tendo entregue a sua mensagem, já retornava a toda brida transportando um pacote lacrado para Sua Majestade. Ora, estando a noite negra, a chuva abundante e o caminho deserto, o Sr. de Fierce quase morreu de espanto ao ouvir o barulho, como o de uns tiros de pistola, e sentir o coche se deter de vez com um solavanco medonho. E foi bem pior quando na luz das lanternas, ele percebeu quatro cavalheiros, devidamente mascarados, que ameaçavam os lacaios com suas armas. Ele, de fato, não estava ainda curado o suficiente, pois imediatamente a valentia se rendeu sem resistência. E sob as ordens de um dos assaltantes, o Sr. de Fierce, mais morto do que vivo, duvidando de chegar a por os pés no chão, seguiu docilmente seus vencedores até debaixo da mata.
Ali, se lhe ordenou de jogar suas pistolas e sua espada, o que ele fez de modo muito voluntarioso; depois a entregar suas cartas, o que ele fez ainda sem opor resistência; e enfim para abaixar suas roupas, o que o assustou muito. Finalmente, os homens mascarados confabulando em voz baixa e parecendo chegar a um acordo, lhe comunicaram que iriam matá-lo. Então, a cena tornou-se lastimável. O Sr. de Fierce se põe de joelhos e suplica o mais humildemente do mundo que se lhe poupe, jurando, aliás, mil juras de jamais soprar palavra dessa aventura e propondo ainda as mais extravagantes razões. Os homens não se comoviam e o Sr. de Fierce implora de um após outro dos seus quatro carrascos, se atirando aos pés e beijando suas mãos como se fossem relíquias. Só então, que os cavalheiros misteriosos amoleceram e lhe fazem as graças, para logo se afastarem a galope, deixando sua vítima suja de lama, molhada de chuva, banhada em lágrimas, em suma, num estado de dar compaixão.
Todo vacilante de medo, o Sr. de Fierce correu através do bosque até Versalhes e não se considerou a salvo enquanto não teve seus ferrolhos puxados. Porém uma horrível confusão o esperava: sobre a mesa estava o pacote do Rei, aliás, intacto, e, ao lado, o desafio irônico dos quatro oficiais, gracejando com mau gosto, de que estiveram somente a se divertirem com ele.
O assunto não se propagou muito, pois nenhum desses que o tinham em sua lista se importou muito de que ela chegasse ao Rei. Entretanto, o Sr. de Fierce perdeu o pouco de consideração que ainda tinha. E o primeiro estilhaço desagradável que se seguiu decidiu necessariamente a sua desgraça.
Dessa vez, o escândalo foi tal que Sua Majestade não pode ignorar. Uma tarde, no recreio do Rei, o cavalheiro cuja alma escrava se obstinava a manifestar-se mesmo sob suas roupas de homem elegante, acreditou reconhecer que seu parceiro, que era o conde de Gurcy, o ajudava a ter sorte. Com o mais incrível mau gosto, o Sr. de Fierce convocou a assistência a testemunhar o fato, o que lhe valeu um bom e forte soco da mão do conde. Todos se apressaram em intervir, quando, para a estupefação de todos, o cavalheiro, aceitando sem replicar a afronta insuportável que lhe fora feita, roga cristãmente ao Sr. de Gurcy de aceitar as suas desculpas, lhe garantindo não ter tido jamais a intenção de o ofender e não lhe guardando, aliás, nenhum rancor desse seu arrebatamento tão justificado. Houve um grande silêncio e o Rei, que se acabou de informar, sorriu apenas, como se a humilhação de um de seus fidalgos tivesse de algum modo, salpicado de lama seu manto de arminho. O Sr. de Fierce, do qual todos se desviaram com presteza, permaneceu só como se fosse de uma espécie contagiosa.
O Rei teve, de fato, a demonstrar o seu desfavor sem mais tardar. — Ao levantar do dia seguinte, quando Sua Majestade sai dos seus aposentos, um grupo de cortesãos o vem saudar de passagem e o cavalheiro de Fierce ousa se misturar a eles. Mas o Rei, o distinguindo imediatamente, vem diretamente a ele e o censura com ironia, se admirando que um tão bravo fidalgo, que se lisonjeia da sua honra, possa amolecer assim na ociosidade, quando a guerra ensanguenta a Europa.
— Não sois vós, aliás, — acrescenta Sua Majestade — Coronel de um dos nossos regimentos? Nós não entendemos como que vós não os reunis a todos agora, pois se está guerreando aos fins da Francônia, e vossa coragem se repugnará sem dúvida a um mínimo atraso. Mas também não duvidamos que um soldado tal como vós não estejais tão preparado aos combates de mar como a esses de terra firme. E é porque nossa esquadra de Rochefort está prestes a tomar o mar, vós se reunireis imediatamente a ela. O Marquês de Estanduére, que a comanda, vos fornecerá um meio de vos destacar e vos destinar a algum posto digno, não certamente da vossa virtude, mas ao menos do vosso nascimento que lhe dá a posição que vós tendes tido até aqui.
Sire, — balbucia o cavalheiro, todo pálido. — Vossa Majestade me sobrecarrega…
Mas o Rei, sem dignar-se ao menos a tocar seu chapéu, se afasta com desdém.
Agora será preciso obedecer. O Sr. de Fierce, profundamente aflito e trêmulo, foi dizer adeus às ninfas do parque, às quais ele honrava com uma amizade particular. E de verdade, a aparência simultaneamente campestre e pomposa desses bosques que testemunhavam a sua tranquilidade perdida, o comoveram até as lágrimas. Confiando na sua solidão, ele chorou sinceramente, apoiado contra o pedestal de uma bela de mármore. Alguém que ele não havia visto passar, tosse rente a ele. Surpreso e confuso, o cavalheiro se corrige e recompõe seu rosto. Ele percebe então, que a menos de seis passos, um homem singular, vestido num uniforme muito parecido com esses dos oficiais da Prússia, o observa fixamente com os olhos imóveis. Jamais o Sr. de Fierce havia visto esse homem em qualquer parte.
— Com quem — perguntou-lhe um pouco surpreso — tenho a honra de falar?
O desconhecido sorri e soergue docemente os ombros.
— A alguém que vem para o vosso bem, Senhor Cavalheiro de Fierce, e que o deseja provar.
— De onde sabeis meu nome?
— Eu sei todos os nomes.
— Neste caso eu imagino que vós não recuseis de dizer o vosso?
— Eu não o tenho mais. Entretanto, se vos agrada me atribuir um, chamai-me Marquês de Montferrat.
O Sr. de Fierce considerou curiosamente este que se outorga ainda de um marquesado. Nada de extraordinário se revelava nele, entretanto, seus olhos, estranhamente frios e lúcidos, não se assemelhavam em nada aos olhos comuns, e a expressão do seu rosto oferecia uma tal indiferença que nenhuma idade verossímil se poderia registrar.
— Senhor, — diz enfim o cavalheiro. — Eu vos ouço.
O marquês de Montferrat senta-se sobre um banco, cruzando a perna direita por sobre a esquerda, e com uma mão sob o queixo começa.
— Senhor, eu sei de pelo menos todos os acontecimentos de que se compõem a vossa vida, e se julgasse a coisa útil, eu mesmo poderia vos revelar muitas aventuras que nem são do vosso conhecimento, a começar pela do vosso nascimento. Mas eu nada farei, por discrição e por sabedoria. E poderia quase tão facilmente vos esclarecer de vossos destinos futuros. Mas é infinitamente preferível que continueis a não os conhecer. E isso é porque, mesmo sendo feiticeiro, e eu ouso dizer, feiticeiro de algum mérito, eu não estou aqui para vos falar do futuro, nem mais que do presente ou do passado; todas coisas convenientes de se esquecer ou ignorar. Não, minha visita é por uma causa mais frívola: me é concedido de vos entregar hoje um notável serviço, — se, todavia vós o consentis.
O cavalheiro ouve boquiaberto, já antes mais inquieto que surpreso.
— Bem senhor, vejamos, — retomou o feiticeiro após um tempo. — Eu vos disse que nada da vossa história me é obscura. Isto é, eu sei melhor que os homens da França, melhor mesmo que o Rei Luis XV que esta manhã vos expulsou da sua corte, as lamentáveis aventuras que foram colocadas à luz do dia, ou àquela das vossas virtudes que foi o mais prudente dissimular com modéstia, — eu me refiro à covardia, fraqueza ou a essa incapacidade que vos ilustra particularmente.
— Senhor! — Protesta o cavalheiro encolerizado.
— Não vos ofendeis. Pensai primeiro em me considerar como uma fração de vós mesmos, ou se vos agradar melhor, como o anjo familiar que vós sabeis atado à vossa pessoa. Semelhante a ele, eu penetro em vossos mais mínimos pensamentos. Não tendes pois nenhuma vergonha de me escutar, pois eu vos mostrarei sem circunspeção, e discorrerei em voz alta os segredos íntimos que vós preferis calar a vós mesmos. As cortesias e as mentiras da boa sociedade não serão colocadas entre nós.
Ora, vós sois, Senhor cavalheiro, um covarde de rara espécie, e mais digno de portar uma libré engalanada que uma espada em riste. Por outro lado, vós estais condenado a partir para a guerra, onde a bravura é bastante em moda. Que fareis vós? — eis o que me ocupa. Pode ser que, por tais ações o vosso brasão, que é azul com galões de ouro, acompanhado de três naus do mesmo, — duas, depois uma navegando sobre um mar de prata, — esteja desfavoravelmente manchado e desbotado. Foi isso que me desagradou muito. Eu tive então, deliberadamente de chamar minha arte em seu socorro. Assim, venho vos oferecer um sortilégio infalível, maravilhosamente próprio para banir todos à vossa volta, ao dia e a hora que vos agradar.
— Senhor, — diz o cavalheiro, — vós mistificais agradavelmente.
O marquês feiticeiro se exalta.
— Não, senhor, eu não mistifico nada, e quanto ao resto, eu vos surpreendi audaciosamente e não o adverti de compor o espírito forte e cético a propósito de segredos autênticos e perigosos. Tendes antes o cuidado de guardar o silêncio e a crença: pois esses segredos, que condescendendo a vos socorrer hoje, poderão também, acredite, se irritar de vossa zombaria, e se voltarem contra vós; neste caso eu não daria por vossa pele sequer um maravedi da Espanha.
O cavalheiro nem mais respira.
— Em três palavras, — completa o loquaz. — Eis aqui! Essas drágeas contêm alguns glóbulos ou pílulas de uma substância prodigiosamente preciosa e mais milagrosa que todos os santos do calendário. Ao dia de vossa principal derrota, vós abrireis a dita drágea e comereis as pílulas, em concordância com uma inscrição manuscrita em seu envelope. Após o que, tudo voará de vossa cabeça, e vós estareis no seio dos piores perigos como estão os piedosos cenobitas entre as tentações do mundo.
O Sr. de Fierce, com as drágeas nas mãos, guarda silêncio.
— Quem me assegura, — observa ele timidamente, — que essas pílulas ou glóbulos não são antes qualquer poção venenosa que meus inimigos me enviam por vosso intermédio?
— E que então, — replica judiciosamente o dono dos sortilégios, — haveria motivo para desejar a morte de um fidalgo tal como vós, medíocre em tantas coisas, e o que é pior ainda, caído em desgraça na corte?
A isso o cavalheiro nada teve a responder. Entretanto, ainda que algo libertino, seu espírito se recusava a tomar por bom augúrio as palavras de um feiticeiro em roupas verdes, espada de desfile e toga empoeirada.
— Saberei eu ao menos, — diz ele ainda, — o nome dessa droga tão fértil em milagres? — Não, — lhe responde distintamente o feiticeiro. Pois esse nome não deixa de ser misterioso e temível. Todavia, e para que a sua coragem seja consolidada, eu vos comunicarei que os povos distantes e mais fecundos em sabedoria, tais como os chineses, os tártaros, os mongóis e malaios, têm o cuidado de usar cotidianamente dessa droga poderosa, fonte certa de suas raras virtudes. E a verdade me obriga a revelar que eu não sou o seu inventor. Essa drágea foi enchida em outros tempos em Nan-King, ilustre cidade da China; pelo viajante veneziano Signor Marco Polo, meu amigo pessoal, que me a fez presente.
— Me engano? — Fez o cavalheiro surpreso. — Eu imaginava esse veneziano morto há três ou quatro séculos?
— Há quatrocentos e quatorze anos exatamente. Mas talvez seja eu mais velho do que vós não o imaginais, — Replicou o estranho marquês com uma mesura.
E ele se pôs a rir, — de um riso cavernoso que parecia vir do além túmulo. E esse riso acaba de assustar o cavalheiro que recua prontamente.
— Senhor, — diz ele. — Eu consinto para vos agradar, em crer como palavras do evangelho a essas coisas inacreditáveis que vós me tendes dito. Mas, em troca, eu vos suplico de me revelar vossa real qualidade, e o mistério pelo qual vós sabeis de todos os meus segredos, vós que eu vejo hoje pela primeira vez.
Novamente o marquês ri às gargalhadas.
— Este é o próprio grande arcano o que vós me exigis, diz ele, — me é impossível vos satisfazer. Entretanto, eu vos disse tudo no momento em que não lhe dei um nome, e eu imagino que um espírito como o vosso tenha achado lá do que se assustar. Eu me retrato então. Eu me chamo com toda a verdade o marquês de Montferrat, mas também sou o conde de Bellamye quando estou em Veneza; e algumas vezes, quando nas terras do meu primo em Portugal, sou o marquês de Betmar. E todos esses títulos são meus, tão certos o quanto alguns títulos terrestres ainda possam ser patrimônio de espíritos superiores à terra. Também me aconteceu de ser, na Espanha, com todas as formalidades da regra, o jesuíta Aymar. Na Alsácia, pelo contrário, eu fui judeu durante seis meses e não por passatempo; me chamavam então Wolff. Tendo em Sabóia me tomado por italiano me nomearam Rotondo. E mais antigamente ainda eu tive a honra de ser confidente de príncipes famosos, entre os quais vós ficareis sem dúvida surpreso ao ouvir citar os nomes de Charles II da Espanha, Charles XII da Suécia e François I da França, pois esses magistrados estão hoje onde estão as neves de outrora, mas já estou me demorando. Meu nome na França? Dentro de três anos, nada mais, eu serei célebre nesta corte sob o título devidamente autêntico do conde de Saint-Germain, e empregarei voluntariamente meu crédito em vosso favor. Meu nascimento? Algumas pessoas bem instruídas vos dirão que ele é real, e que uma princesa viajando da Alemanha até Castilha, por ter querido essa coroa, me concebeu no caminho pela ação de um puro espírito misterioso. Essas pessoas não estão erradas, se bem que outras poderão com bom senso objetar a minha grande idade, que me faz demasiados séculos mais velho que a rainha minha mãe. Não importa, tudo isso não é mais que um enigma pouco digno de excitar vossa atenção. Nem queira saber disso. Guarde as drágeas e delas saiba servir-se; e que Deus, mestre dos homens e dos sortilégios, vos tenha em sua proteção, com o que eu lhe rogo. Amém.
Isso dito, o fabuloso personagem levanta-se, contorna a extremidade de uma aléia e desaparece.


O Sr. Desherbiers, marquês de Estanduére e o chefe da esquadra do Rei, não era um homem da corte. Sua função consistia em navegar pelos diversos mares temperados e tropicais, e com isso havia adquirido uma longa experiência guerreira e marítima, com algumas glórias orgulhosamente alcançadas. Por isso Versalhes o estava enviando a países desconhecidos, misteriosos e nobres, de onde nada poderia vir que não fosse excelente e único. Foi nessa ocasião que o cavalheiro de Fierce chegou a Rochefort, honrado com um maravilhoso acordo. De improviso, o Sr. de Estanduére o nomeia seu amigo, e o conduz em grande pompa a bordo da mais bela fragata da armada. — Ela se chama a Menteuse<![if !supportFootnotes]>[1]<![endif]>, — declara o bravo chefe da esquadra. — E de fato, ela engana frequentemente as esperanças dos inimigos do Rei que a perseguem em vão. Seu mérito, senhor cavalheiro, se encontra sob o fim dos corsários, o que a celebrizou ultimamente. Eu sei que vós sois noviço em nosso ofício; Sua Majestade me há feito a honra de me advertir. Mas eu tive o cuidado de vos dotar de excelentes tenentes, assim como de um mestre de tripulação que desde o seu nascimento esteve confinado somente entre os oficiais. Ele se chama Kerdoncuff, e é filho legítimo da Cornualha, e o irei vos apresentar se me der licença. Todos os obstáculos vos serão poupados. Além do que, a aparelhagem não estará pronta antes de quinze dias, e quinze dias são justamente o tempo que se faz necessário para transformar em velho lobo do mar um nobre de vosso mérito.

A Menteuse era uma nobre fragata de vinte e seis canhões, os melhores já construídos e os mais graciosos que já foram vistos. Mas o Sr. de Fierce, pouco sensível às belezas de guerra, se atém somente a contemplar, na grande bateria larga e clara, o duplo arranjo das peças de bronze rechonchudas e sinistras, que dardejam para as canhoneiras suas bocas desagradáveis, prestes a cuspirem o ferro e o fogo.
Neste meio tempo, conduzido pelo valente Kerdoncuff, o Sr. de Fierce passeia os seus passos cambaleantes por todos os recantos do seu navio. Suficientemente pronto a compreender e a apreender, ele distingue rapidamente os quatro mastros, que servem de timões aéreos, o grande mastro, o traquete e o gurupés, e se reconhece às maravilhas entre os periquitos, os papagaios e as cacatuas, que se empoleiram nas vergas. Aprende também que o poldre sustenta o talhamar, o qual prolonga o castelo de proa. Soube enfim, que a gávea domina o castelo de popa, e que a grande bandeira se bate na alheta. Mas ele recusa de modo evidente a jamais descer ao paiol de munições.
— Esses grandes senhores, — resmunga Kerdoncuff, — teimam deploravelmente em alcatroar o fundo dos paióis com seus floreios e outras bugigangas que eu ignoro os nomes.
O Sr. de Fierce vai se apercebendo então de muitas outras coisas. Na companhia do chefe da esquadra e dos capitães, que frequentemente se reúnem ao jantar; compreende que as guerras marítimas são prodigiosamente fecundas em canhoneadas, metralhadas, abordagens, naufrágios, massacres, afogamentos, e matanças de toda espécie. Terríveis narrações se trocam de uma borda a outra da mesa redonda, durante as quais os copos incessantemente se esvaziam à santidade do Rei. Ali bebiam e conversavam os senhores de Chaffault, de Fromentiére, e de Amblimont, e ainda o conde de Duguay e o Senhor de Bédoyére, que mais tarde se ilustrarão convenientemente. Entre todos se destacava o marquês de Vaudreuil, por quem o chefe da esquadra demonstrava uma amizade particular, e que era um dos mais famosos marinheiros desses tempos. Em meio a tais pessoas, o Sr. de Fierce fazia pequena figura, e suas anedotas cortesanas não o realçavam mais que mediocremente. Ele se esforça, entretanto, para se elevar ao nível desses homens nutridos de proezas. Mas ele não iria conseguir muito. Após o primeiro jantar, ele narra a inclinação que havia tido por ele a senhora de Cossac, e se atribui sem vergonha o golpe de espada com o qual o seu irmão matou o marquês. Mas a aventura foi acolhida friamente por esses cavalheiros, onde todos enumeram muitas galanterias e muitos duelos em suas ações, e que frequentes vezes têm posto em terra campeões bem mais perigosos que um velho cortesão enganado.
Quanto às narrativas de batalhas, surpresas e massacres noturnos, onde se deleitavam particularmente os capitães do Sr. de Estanduére, o cavalheiro de Fierce de nada conhecendo, nem arriscava a se imaginar defronte um auditório tão douto.
Às vezes, aliás, nas mais belas narrações épicas do marquês de Vaudreuil ou do Sr. de Amblimont, o Sr. de Fierce se deixava tremer visivelmente.
— Esse galanteador de Versalhes, — reconhece ao fim das contas o chefe da esquadra, — não é quiçá o valente que eu havia acreditado.

A cidade de Rochefort está em festa. A partida, mais próxima de hora em hora, enche as ruas de alegre tumulto e de libertinagem despreocupada. Muitos partirão para não regressar, e se apressam em levar para o falecimento as mais alegres lembranças, todos se excitam a beberem em pleno, a cantarem com todas as suas forças e a acariciarem as mulheres até o desmaio. O Sr. de Fierce, fortemente inclinado a esses divertimentos, não se envolve contudo na algazarra, o medo perturbou suas noites de tal maneira que ele acabou doente e abatido.
Poucos dias depois seria bem pior. A esquadra levanta as âncoras, desce o rio Charente e põe-se ao largo. Ela se acompanha de uma escolta até as ilhas do Vent, formando um comboio considerável de cento e setenta velas mercantes. O Sr. de Estanduére conduz nesse efeito muitos navios de classe, os quais se acompanham de quatro fragatas entre as quais a Menteuse; e o cavalheiro, tão logo a costa desapareceu, começou a não mais viver.
A realidade do perigo certo ampliou demasiado bruscamente as longas e espantosas apreensões que a haviam precedido. O Sr. de Fierce, totalmente aniquilado, pretexta de um mal de mar para não aparecer. O velho Kerdoncuff guia a Menteuse, e o cavalheiro, munido como lhe convém de tisanas e de drogas, permanece entrevado e aflito em seu quarto de capitão sobre um belíssimo cadeirão em fibra de rotim, proveniente de Pondichéry.
Desde o segundo dia, este quarto, ainda que claro e vasto, tornou-se para o Sr. de Fierce pior habitação que o mais funesto dos nove círculos do inferno. E além do seu mal real e doloroso, cada hora do dia também produzia seu particular terror no deplorável capitão. Já quando do nascer do sol, com o toque do clarim da alvorada, comandante e marujos, noviços e grumetes põem abaixo as suas macas ou redes. Do fundo do seu leito de retiro, o Sr. de Fierce crê ouvir o toque da assembleia que torna a convocar cada um a seu posto de batalha. Mais tarde, quando se alça pomposamente a bandeira real na popa, e os soldados da guarda a saúdam com uma salva dos seus mosquetes, erguia-se desvairado o infortunado cavalheiro, persuadido de antemão que os ingleses subiam à abordagem. Na continuação, cada apito de manobras ou sinal de canhão o levava de pavor em pavor, e a noite chegava, mas o repouso não vinha com ela, pois os marujos livres do trabalho se recreavam a cantar sobre a proa, e suas canções eram todas belicosas. As letras, distintas no ar calmo, chegavam até a popa.

— Venham ao mesmo tempo
Por detrás e pela frente
Que nós atacaremos pela proa
A golpes de machado,
De espada e de mosquetão
E então veremos quem tem razão.

Bebamos um copo, bebamos dois
Um à saúde dos amores!
Outro à saúde do Rei da França!
E merda ao Rei da Inglaterra
Que nos declarou a guerra.

Os últimos versos eram clamados a plenos pulmões por toda a tripulação inflamada. A palavra guerra soava ferozmente na noite serena. E o Senhor de Fierce se sacudia num sono repleto de pesadelos, se vendo alternativamente afogado ou enforcado e algumas vezes os dois juntos.
Sobressaltado então, no paroxismo do seu medo, o cavalheiro agarrava a drágea com suas pílulas miraculosas e a considerava com agonia, como ao supremo talismã capaz de desviar a morte cruel de sua cabeça.

E finalmente aconteceu, num dia claro de sol de outono onde a brisa marinha clareou convenientemente o céu azul, a famosa jornada de 14 de outubro de 1747, que foi num sábado.
Na primeira aurora, o bravo Kerdoncuff entra apressado no quarto onde o cavalheiro se agita.
— Numerosas velas foram avistadas sob o vento, e o Tonnant, — como se chamava o vaso do almirante, — ordenou às fragatas que se afastassem ao largo para reconhecerem o inimigo.
Agora o Sr. de Fierce pôde com justiça murmurar: — Acabou! — Com o que o coração lhe falha e ele desfalece.

O tumulto dos preparativos para o combate lhe restitui o senso. Então, revistando os bolsos na procura dos seus sais, ele reencontra a drágea que desde o embarque carrega em sua roupa. E julgando que jamais ocorrerá melhor ocasião, ele a abre.
Nove pílulas: cada uma grossa como um grão de bico e envelopadas num papel de seda. O papel se desfaz e elas rolam. São negras e foscas, e em tudo se fazem semelhantes a pequenas bolotas de resina ou de breu. Nenhum perfume se espalha. Nada de misterioso se manifesta nelas. E realmente, pareceria muito desarrazoado se esperar que um talismã soberano se tenha mofado dentro dessa pequena pilha enegrecida, a ponto de que um sopro de vento o faça voar pelas janelas abertas.
Em seguida o cavalheiro lê a prescrição manuscrita que encobre o papel do selo. O estilo é um tanto arcaico e a tinta já está amarelada.
As nove pílulas aqui contidas são da pura droga chinesa mesclada unicamente com espécies preciosas que completam e multiplicam a virtude dessa droga. As três primeiras doses, tomadas em nome de Deus darão a sapiência e a clareza de espírito, com as quais sereis nessas horas tal como Sócrates, Licurgo<![if !supportFootnotes]>[2]<![endif]> ou Pitágoras. As três seguintes, tomadas da mesma forma, darão a coragem ou o desdém pela morte companheira, quando então sereis prontamente mais bravo que César, Hanibal<![if !supportFootnotes]>[3]<![endif]> ou Judas Macabeu<![if !supportFootnotes]>[4]<![endif]>. A sétima, a oitava e a nona são a doses mortais cujas um homem não pode provar sem confissão; mas que instantaneamente o alça mais próximo do Senhor e entre os santos e heróis tais como foram Elias, Hércules e João Batista. Deus esteja convosco!

— Pois bem, pensa o cavalheiro, — experimentarei as três primeiras, ainda que não me apareça muito claramente nessa balburdia em que elas serão boas para diminuir o perigo.
E ele toma as primeiras três pílulas, não sem antes as achar mais amargas que azebre.

Entrementes, rápida como uma gaivota, a Menteuse, com todas as velas altas, passa adiante de suas companheiras e se precipita ao encontro do inimigo.
Uma após outra, as velas vão se identificando à medida em que se elevam sobre as águas. Se comparam: as fragatas e os vasos; estes e aquelas reconhecíveis por seus diâmetros diferentes, e também pela cor de suas bandeiras.
Ao topo de um mastro do traquete, os vigias avistam uma grande bandeira desfraldada. E com certeza nela se encontra o Vice-almirante da Inglaterra. Se necessita com urgência prevenir o chefe da esquadra.
O velho Kerdoncuff vai relatar ao capitão.
O Sr. de Fierce ainda está estendido sobre sua poltrona de rotim. Ele responde com uma voz muito calma, algo rouco e baixa no tom:
— Eu desejo ver por meus próprios olhos e depois resolver. Fazei com que instalem minha cadeira sobre o castelo de proa.

Pela primeira vez, a tripulação vê o capitão. Se lhe encontra de boa fisionomia, algo pálido mas com um ar convenientemente resoluto.
— Esses vasos, — interrogou o Sr. de Fierce, — Não alcançarão nossos canhões a menos de mil pés? Conservai pois a bombordo e dais o sinal à Emeraude de virar de bordo para prevenir o Tonnant… Eu conto: não são quatorze vasos e cinco fragatas? Façais o sinal para a Emeraude, de que eu vejo ainda muitos outros bem atrás… Assim é melhor. Quanto a nós, será conveniente que os ingleses fiquem na incerteza dos nossos planos. Tomemos um pouco mais de vento, como se fossemos dobrar as suas linhas…
Os vasos ingleses que ganhavam o vento prolongavam a bombordo, inquietos com a Menteuse e receando uma armadilha. Ao longe, o Sr. de Estanduére se ocupava de virar seu comboio, que começava a se afastar, para mais perto, protegendo a estibordo, voltando assim as costas ao inimigo. Sobre a Menteuse, os granadeiros nos cestos das gáveas, farejando o ardil, cantavam alegremente:

… à saúde do Rei da França!
E merda ao Rei da Inglaterra…

O Sr. de Fierce interrompe a canção.
— Aparelhar para virar! — grita ele.
Com uma surpreendente clarividência ele compreendeu a manobra do inimigo e a sobrepujou. Mais rápido que os vasos, — enfim desenganados, — a fragata faz a proteção a estibordo, e, isso antes que o almirante inglês tivesse arrastado a sua esquadra para fora do ataque, antecipando-se ao inimigo de uma boa milha marítima.
— As pessoas da nobreza, — fala por entre os dentes o velho Kerdoncuff sacudindo a cabeça, — sabem em verdade bem das coisas, mesmo daquelas onde não foram adestrados. Este     aqui, que em sua vida ainda não tinha deixado o canteiro das vacas, conseguiu manobrar por duas vezes, como eu não teria feito jamais!
Os vasos franceses permaneciam ao vento, distantes de muitas léguas. Para lhes alcançar, a esquadra inglesa deveria se aproximar bem mais e perder com isso longas horas. Salvo imprevistos, tais como mudança do vento, tempestade ou calmaria, o comboio precioso dali em diante estava fora de perigo. Ele se distanciava ainda, fazendo toda a força das velas. De seu cadeirão, o Sr. de Fierce ainda pode ver um vaso de linha que se isolou na retaguarda, para cobrir a retirada dos navios mercantes. O resto da esquadra, a saber, contando com o Sr. de Estanduére, são sete vasos, que se formam em posição de batalha, de proa a popa, pertos o suficiente de se avistarem as gáveas.
Os ingleses perseguiam em rota livre, confiando nas suas poderosas velas. Se bem que eles se aproximavam com grande desordem. A Menteuse, ganhando velocidade, dobra o Tonnant ao alcance da voz.
— Obrigado, Senhor de Fierce, — grita o chefe da esquadra. O falecido conde de Tourville não teria feito melhor.
Um sorriso singular ilumina a figura do cavalheiro. Ao pé do cadeirão, os timoneiros observam curiosamente seu chefe.
Ele não apresenta nada mais que sua aparência de homem doente; — salvo portanto, que seus olhos traíam a antiga vivacidade fugaz, tendo tomado agora uma profundidade misteriosa e uma fixidez que inquietava.
Sob o vento a batalha se engajava durante esse tempo. Já poderia ser meio-dia. No ardor do seu ataque, os vasos ingleses não chegaram ao mesmo tempo, mas um após o outro; e quando os mais hábeis veleiros já tomavam um grande avanço, detonaram-se canhonadas de um terrível vigor, onde todas as peças francesas os tomavam por alvo. Os duzentos e sessenta canhões metralharam com maldade, persistindo apenas o instante de tentar voltar atrás, para então sucumbirem rapidamente. E se soube depois que o primeiro se chamava Lion, e o segundo, Princesa Luisa.
— Isso vai bem! — fez o velho Kerdoncuff que estava montado sobre o tombadilho.
— Aguardar, — diz somente o Sr. de Fierce, ainda estirado, e com a cabeça inclinada sobre sua almofada de seda chinesa.
Com efeito, o grosso dos ingleses já alcançava a retaguarda francesa, e combatiam com tanta fúria, que o último dos vasos, desesperado por sobreviver, rompeu a linha e se rendeu. Esse era um magro casco de cinquenta e seis polegadas, muito fraco para essas bravas provas. O navio traseiro se apressa em cobrir a brecha, e a batalha continua.
— Verdadeiramente, — admira o mestre de tripulação. — O Sr. de Estanduére se defende belamente!
— Em breve será a nossa vez, — replica o Sr. de Fierce. — Faz erguer os panos, nós estamos muito longe do combate.
Os timoneiros sustentam com todas as suas forças a roda do leme, — e fazendo isso, eles viram o capitão abrir uma bomboniere de louça e dela retirar três pílulas negras que ele engole.

Ao vento, bem longe, com os cascos a desaparecerem no horizonte, o comboio segue seu rumo. Contra o vento, a três tiros somente, os ingleses, exasperados de raiva, se obstinam em vão contra o chefe da esquadra que luta, invencível, à testa de seus vasos.
Dos sete, três entretanto já sucumbiram, o Severn, o Fougueux, e o Monarque; mas quatro ainda combatem, — o Tonnant, comandado pelo Sr. de Chaffault; o Terrible, com o conde Duguay em sua cabeça; o Trident, montado pelo cavalheiro de Amblimont; e o Intrépide, onde se ilustra o marquês de Vaudreuil. Rodeado de inimigos, esses quatro vasos sustentavam heroicamente suas reputações e continuavam detendo a perseguição do almirante inglês, prestes a se jogar sobre os rastros do comboio fugidio. O sol salpicado do sangue da batalha se apressa para o horizonte, triste de iluminar a derrota inevitável de um punhado de bravos abatidos por enfrentarem demasiados adversários, e, marrom põe-se no oriente.
Uma hora mais se escorre. O mar e o céu se escurecem. Ao redor da ativa infantaria, os canhões ainda ressoam. Mas o vaso do chefe da esquadra não mais se vê, pois seus quatro mastros foram destruídos. Cinco naus inimigas se encarniçam sobre essa ruína gloriosa.
A Menteuse, ao largo, se balança molemente sobre as ondas e suas velas estalam às vezes como gargalhadas.
— Deixeis conduzir sobre o inimigo! — Ordenou de repente o cavalheiro de Fierce.
— Vossa Senhoria me desculpe, — ousa o bravo Kerdoncuff. — Mas o lugar de uma fragata não é sob o fogo dos vasos.
— Quando se trata da honra do Rei, — diz severamente o capitão, — não existem mais nem vasos, nem fragatas. E inútil é o seu posto se se têm um inimigo para cada largura.
Isso foi dito com uma nobreza orgulhosa. O Sr. de Fierce continuava estendido ao cansaço do seu cadeirão de rotim. Mas aos últimos reflexos crepusculares, o mestre de tripulação pode ver, claramente detalhada sobre a almofada marrom, uma face terrível, crispada de heroísmo, onde luziam dois olhos cintilantes.
E dócil, a Menteuse, com todas as velas plenas, se alça para a batalha.

Passaram-se sete horas. Fora de combate, mas entusiasmado de honra, o Tonnant não replica mais que o desgosto. E seus companheiros que sacrificaram sua própria salvação para poupar o almirante, agora se ocupam somente em o socorrer.
O conde Duguay tentou de tudo. Imediatamente, virou vento contrário com audácia, e, estando próximo ao chefe da esquadra, se apressa a lhe cobrir a retaguarda e lhe jogar um reboque. O Sr. de Amblimont, invejoso da mesma glória, imita sem mais tardar a manobra de seu marítimo. Por um minuto, a vitória dos dois parece sorrir. Os vasos derivam entre as linhas, à contra-bordo dos ingleses, e usando bravamente suas últimas balas em supremas canhonadas. Mas de súbito, as máquinas retalham-se como carne para patê, se rompendo ao sopro da noite, e tudo foi perdido. Desamparados, quebrados, e cercados por todos os lados, o Terrible e o Trident, sucumbiram sobre seus nomes. E condenado ao destino doloroso, os Srs. Duguay e d’Amblimont arriaram ao vento suas flores-de-lis esburacadas como gloriosos rendados. — O Intrépide solitário permanece junto ao Tonnant.
Como ultima chance, o Sr. De Vaudreuil tem ainda seu mastro erguido. Mas o tonnant não é mais que um ponto molhado de sangue, onde se misturam, estendidos o capitão com todos os seus tenentes, de tal maneira, que um simples aspirante, o cavalheiro de Malta, comanda a tripulação. Ele se chama Suffren, e chorando de raiva, se recusa obstinadamente a render o vaso.
Ora, cegamente fiel a seu dever, o marquês de Vaudreuil vira de bordo, — sem esperança, — como já viraram os Srs. Duguay e d’Amblimont. Mas a sorte inconstante muda, pois, ao mesmo instante, percebe uma fragata surgir repentinamente das trevas, e que se atira impetuosamente na confusão.
Uma voz grave, e miraculosamente distinta se eleva, dominando o canhão. É o Sr. de Fierce que distribui suas ordens, calmo como num desfile. Os reboques para o Intrépide foram requisitados pela Menteuse, e em meio a um turbilhão de balas atiradas todas contra ela, a fragata, desdenhosamente, prende os cabos ao Tonnant.
— Viva o Rei! — Grita o marquês de Estanduére. — Senhor cavalheiro, vós nos preservastes a honra!
Os ingleses estupefatos veem os dois vasos tomarem o largo, enquanto que, louca de audácia, a fragata permanece para proteger suas fugas.

Um minuto depois, o fogo cessa. Os inimigos desconcertados se recolhem e tratam de enxergar mais claramente em meio à fumaça que se ajunta ao negro da noite. Sobre a Menteuse, ocupam-se dos feridos e dos mortos.
— Em verdade, — diz o Sr. de Fierce, — creio que estou ferido. Ainda há um cirurgião vivo?
Destes já não há mais nenhum. Mas os timoneiros trazem uma lanterna à vela, pela qual o cavalheiro reconhece a sua ferida: uma bala perdida lhe quebrou as duas pernas, e o sangue escorre em largos rios dessa dupla chaga.
— Bah! — Fez o ferido risonho. — Esta não é mais que uma ferida precisando de remédio, e o talismã desse Saint-Germain não é decididamente, nada eficaz contra o choque das bombas de chumbo e de ferro. Não importa, nesse ponto em que cheguei, eu posso sem perigo tomar as últimas pílulas…
Ele as engole, sorrindo ainda com melancolia, e joga a drágea vazia ao fundo do mar. Neste instante os vasos ingleses manobram. Deixando a fragata, eles correm atrás do Tonnant e do Intrépide. A dizer a verdade, a batalha continua quente para eles, que com dificuldades flutuam cá e lá, na ponta do vento, sem empenharem-se ativamente em novos riscos. E Somente o Devonshire, que era o vaso do almirante e o Nottingham, comandado por Sir Philip Saumarez, iam ter com o Sr. de Estanduére; mas o Tonnant não agüentava mais nada, enfim eram dois contra um.
O Devonshire assaz maltratado alias, se conduzia com flacidez; e após alguns bombordos, ele renuncia. Mas o Nottingham, suficientemente poupado até essa hora, toma a superioridade sobre o Intrépide. Outra vez, tudo parece perdido. Entretanto o Sr. de Vaudreuil, instruído pela experiência ao reconhecer a Menteuse, não se desespera, e examina a retaguarda.
E calculou certo. A Menteuse, deliberadamente se mescla à batalha. Com um golpe espantoso de ousadia, o cavalheiro se colocou entre os vasos combatentes, e larga arrogantemente sua pueril borda de treze peças contra os sessenta canhões do Nottingham. Essa coragem sem medida do capitão reanima até o entusiasmo o animo dos últimos marinheiros, e nesse momento a vitória esteve hesitante.
Mas, da fragata ao vaso, a proporção é como da criança delgada ao rude homem de guerra. Os ingleses prontamente se reanimaram, e perecendo em todas as suas peças, a Menteuse começa a ceder. O Intrépide, contudo abrigado por seu frágil protetor, se repara com grande pressa, e recarrega os seus canhões. Pois, na guerra, não há uma pequena manobra que não possa, no momento certo, violar o destino, e mudar os revezes em sucessos.
Para concluir, foi quiçá suficiente que o marquês de Vaudreuil ousasse atirar por sobre a fragata. Mas a Menteuse, infalivelmente, seria roçada por boa parte das balas.
— É com muita grande piedade, exclamou o bravo capitão, que vejo acabar assim esse valente navio o qual se sacrificou duas vezes seguidas para nos salvar.
Ora o Sr. de Fierce compreendeu a hesitação do marquês. As três pílulas supremas se dissolveram em suas veias, o introduzindo sem esforço na sublime falange dos mártires e dos semideuses.
Ele avalia o Nottingham que recupera a coragem, e o Intrépide, cujos canhões de bronze ele observa de seus olhos negros, repletos do mistério da morte; e repentinamente ele grita:
— Pela sabedoria, Senhor de Vaudreuil, que esperais vós pois para atirar ao meio de nossa carcaça? Fogo de bordo! E viva o Rei!
Assim foi feito, e tão depressa que pareceu ter havido magia. O fogo partiu, fulminando ambos, o Nottingham e a Menteuse. Os ingleses foram abatidos ao azar, com todas as suas peças rompidas, e trezentos cadáveres juncando seu atrevimento. E protegidos pela fumaça como os deuses do Olimpo pelas nuvens esparsas em torno de suas fendas, o Intrépide e o Tonnant escaparam.
A Menteuse, triturada pelo açoite do ferro, oscila como uma besta moribunda, e depois lentamente se dissipa. Os ingleses se preocupam somente em salvar alguns destroços, e recolher dois ou três cadáveres que flutuam. E assim foi tirada do mar a mortalha do cavalheiro de Fierce, cujo coração fora tirado por uma bala. E pleno de admiração por um tão nobre inimigo, Lorde Hawke, vice-almirante inglês, lhe rendeu as mais grandes honras, e o sepultou em uma bandeira flor-de-lis, — a própria bandeira da Menteuse, — sem desconfiar, por certo, que em toda a sua vida, esse herói incomparável não havia sido mais que um covarde.

<![if !supportFootnotes]>

<![endif]>
<![if !supportFootnotes]>[1]<![endif]>  A Mentirosa. (n. do t.)

<![if !supportFootnotes]>[2]<![endif]>  Licurgo (de Atenas — por volta de 396-ac. a 325-ac.), financista ateniense, estadista e orador. É muito famoso pela sua administração entre 338 a 326 ac., quando ele aumentou de forma prodigiosa as riquezas do estado. (n. do t.)

<![if !supportFootnotes]>[3]<![endif]>  General cartaginês (247-183 ac.), um dos maiores comandantes militares da história. (n. do t.)

<![if !supportFootnotes]>[4]<![endif]>  Morreu em 161 ac. Um dos grandes generais da história judia. Ganhou batalhas sucessivas em inferioridade numérica. (n. do t.)