quarta-feira, 25 de julho de 2012

Claude Farrère – Fumaças de Ópio – Fai-Tsi-Loung







FAI-TSI-LOUNG

À Pierre Louys.
Ao centro da baia esverdeada repousa o barco chinês e Hong-Kop descansa recostado em suas esteiras, leito do filosofo.
Para ele ainda não é hora de fumar.
Em torno, o Fai-Tsi-Loung erige como menires suas inumeráveis ilhas, todas semelhantes e surgidas nas águas calmas como um exército petrificado. E a bruma do Tonquim, pesada do sol difuso e da chuva quente, deposita seus mistérios sobre o Fai-Tsi-Loung; um mistério asiático, inquietante e perigoso.
Porém é o inextrincável Fai-Tsi-Loung, com suas brumas, que fazem Hong-Kop livre da soberania indesejável de Hoang-Ti, o Imperador que veio do norte; livre para continuar sua vida arrogante de ave de rapina, perpetuamente abatendo-se sobre as tímidas embarcações dos comerciantes e dos pescadores. Hong-Kop é um pirata. — Sem dúvida, o porquê do filósofo recomendar a seus discípulos para fugirem do aviltante trabalho e de não ser: nem laborioso, nem tecelão, nem fundidor de bronze, é que o espírito e a sabedoria se embotam no contato repetido com os mesmos objetos e as mesmas tarefas. Pode ser, entretanto, que Hong-Kop seja um pirata por causa de outras razões incomuns. Será que é possível penetrar na alma serena e desdenhosa de um intocável chefe de homens? Ele despreza todas as coisas, tanto a vida como a morte.
Ele confunde na sua indiferença irônica seus próprios guerreiros, infantilmente orgulhosos de seus hábitos irreverentes, como os comerciantes que ele rouba e massacra, ou que perdoa ao gosto de sua fantasia. Fantasia obscura e respeitada, pois os piratas acreditam que Hong-Kop é de raça quase divina, e o admiram por sua beleza séria e sua coragem absoluta. Além disso, o ópio já penetrou seu corpo e sua cabeça, aperfeiçoando a todo seu ser e o elevando muito acima dos homens.
No leito, o filósofo continua recostado em suas esteiras, na retaguarda do barco. A cortina de palha de arroz se estende à brisa, mas não há brisa. O céu pálido deita sobre a baia a sua brancura tórrida. Hong-Kop, com um sinal, chama as mulheres, que dia e noite se prostram defronte o amo, esperando sua vontade ou o seu desejo. Uma estende o pára-sol de seda amarela por sobre sua cabeça pensativa. Duas, delicadamente, abanam a face indecifrável. A quarta, receosa, assenta a sua longa cabeleira lisa, em cujo pescoço esguio parece inclinar-se. E as três últimas, com o fumador preto entre as mãos, lhe contemplam os olhos imóveis. Pois freqüentemente, quando Hong-Kop, cujo coração ainda que feito de pedra fria, deseja entretanto, ser uma alma suspensa, ele fuma.
Mas ainda não. Hong-Kop está em pé, delgado em seu roupão negro com botões de coral. Por um segundo, ele aspira o ar pesado do meio dia. Contempla então os rochedos nus e ásperos que velam ao redor do barco tal qual uma corte de gigantes. Depois, satisfeito, ele se deita. A lâmpada a seus pés, terna com seu vidro manchado de ópio. E o cachimbo de jade, herança de reis ancestrais, esconde em seu fornilho lustroso a pílula cozendo por sobre a chama. Hong-kop então, aspira profundamente a baforada divina e enquanto deita as volutas por suas narinas, seus olhos se infundem de pensamentos extra humanos, enquanto a fumaça negra se dissipa numa névoa por sobre as águas.
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… De pensamentos extra-humanos.
A raça de Hong-Kop tem mais gerações de reis que flores vermelhas num ramo de hibiscos no outono. Séculos de nobre ócio aliciaram o sangue de suas artérias e enalteceram os pensamentos de seu cérebro.
E quando o ópio se assenhoreou de Hong-Kop, o futuro, o passado e o presente não são mais que um a seus olhos desenganados. A alma dos príncipes de outrora, evadidos das tumbas mal guardadas pelos tigres de granito, vieram mesclar a sua alma com a alma dos príncipes contemporâneos: — esses que combateram um dia o invasor branco vindo do ocidente. E suspenso pela fumaça negra que o faz transportar-se de eras em eras, mais ligeiro que com uma asa de fantasma; Hong-Kop, estendido em suas esteiras na retaguarda do barco, mescla alternadamente, nos esplendores de outrora e nas tristezas de mais tarde, sua indiferença orgulhosa e lúcida.

Sobre a proa do barco, a uma respeitável distância do seu chefe, os piratas mascam o bétel e jogam o bakouan com as sapecas que ainda retém o brilho da prata nova.
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O fornilho de jade se inclina sobre a lâmpada. O ópio borbulha. Com uma só aspiração lenta, Hong-Kop atira em seus pulmões toda a fumaça.
Agora, a última parcela negra esta consumida, e o jade retorna vazio. Este foi o terceiro cachimbo.
Hong-Kop vê três mil anos atrás.
Ele não está mais no barco. Ele não está mais no arquipélago. O Fai-Tsi-Loung não é mais que um mar arenoso, indefinido. Além do horizonte, o Tonquim mostra seus pântanos incultivados aonde nascerão os arrozais.
O Rei Dragão, Hai-Loung-Wang, a serpente do mar, longa como trinta pítons, flutua descuidada. Ele dorme aguardando a sua hora, a hora de tornar a subir sobre as águas frias da China onde sua aparição prevista anuncia aos povos, uma vez por século, o advento de uma nova dinastia de Imperadores. Por instantes, sua cabeça redonda se ergue e as escamas de suas costas se eriçam num murmúrio.
Ora, o Imperador solar, Hoang-Ti, passeava no alto do seu curso, com seus olhos de ouro por sobre toda a terra, e o sono do Loung irritou sua alma efervescente. De um só golpe de seu arco, ele bateu direto em meio às escamas para revelar o vassalo adormecido.
E o Loung, coberto de vergonha, se enterrou sob o mar, até as entranhas mais profundas, tais que as rochas ígneas que jaziam abaixo das areias se dispersaram para que ele passasse. Mas neste mesmo momento, soou a hora. Lá em cima, nos confins do Hou-Pé, o Imperador será degolado na caçada e uma dinastia vai morrer. Impetuoso, Hai-Loung-Wang se arremessa e pula sobre as águas, — se vê que as rochas se arrastam e saltam com ele, para recaírem numa chuva de pedras. Um arquipélago inominável se estende agora sobre o mar tonquinês. O Fai-Tsi-Loung nasceu.
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Ainda o ópio, ainda a lágrima negra que se evapora sobre o jade acima da lâmpada. A benéfica droga se insinua nas fibras do fumante. Este é o seu sétimo cachimbo.
Hong-Kop agora vê três mil anos à frente.
O Fai-Tsi-Loung continua ali, velho e com musgos verdes agarrados às suas rochas úmidas de chuva.
Os barcos flutuam entre as ilhas. Mas são estranhas embarcações, sujas de fuligem e de pó, tombadas e quebradas. E este é o fim das nobres horas de pirataria e de sábia indolência. Para além do horizonte, os arrozais vão trocar de donos. Em torno às cidades brancas de cal e verdes de porcelana esmaltada, os invasores do ocidente avançam suas linhas de ocupação. E um grande rufar, num novo tom, anuncia a queda das cidadelas. — Mortos, os príncipes vestidos de seda bordada, que reinaram em seus palácios incrustados de nácar e repletos de sombras frescas. — Mortas, as horas literárias dos filósofos conselheiros dos tronos. Morto também, quem sabe? O Hai-Loung-Wang, — enterrado numa tumba cinza…
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Ainda três longas baforadas mais, que desta vez chegarão até os nervos do fumante e os fundirão prodigiosamente delicados e sensitivos. Este é o nono cachimbo.
Hong-Kop se ergue da esteira e volta seus olhos ao leste. O ópio o adverte de um perigo que vem flutuando sobre as águas.
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Um barco.
Ele passa entre as rochas. Suas velas estão cheias de brisa. Portanto o mar está calmo e o reflexo das ilhas não treme sobre a água prateada.
Ele aproxima. O casco verde brilha como um casco de jade. Uma tenda de seda abriga a popa. Grandes estandartes brilhantes embandeiram os mastros que parecem de marfim. Os piratas interrompem seu bakouan e exclamam. Certamente é um barco rico, um barco de mercadores opulentos, ou de grandes funcionários letrados. Pode ser o próprio barco do vice-rei que governa em nome de Hoang-Ti, o usurpador.
Hong-Kop silenciosamente aguarda. Ele sabe que um barco de jade pode não ser só isso. Ele o fareja perigoso, pesado de morte. Mas o filósofo ensina que nada escapa a seu destino, nem o trabalhador ignóbil patinando na lama do seu arrozal, nem um chefe de sangue Imperial instruído pelo próprio Kouong-Fou-Tseu em todos os ritos. E Hong-Kop espera chegar o barco sem desejo e sem euforia. Então, uma das mulheres se ajoelha para lhe oferecer seu grande arco em chifre de boi, ele sorri com cortesia e apanha o arco.
O barco de jade está bem próximo. Sobre a tenda, uma princesa vestida em pedrarias é assistida hieráticamente. A seus pés, muitas mulheres cantam versos e se acompanham de instrumentos de corda. Isso é de uma harmonia que Hong-Kop, sábio músico e sábio poeta, avalia instantaneamente perfeita. Perfeita também é a beleza das mulheres, semelhantes à das rainhas; perfeita a magnificência das vestes, o esplendor das esteiras e das almofadas.
Hong-Kop admira.
Os piratas assombrados se interrogam. Alguns são por agarrar as armas e abordar. Outros se curvam sobre os remos e permanecem em suspenso com o dorso arqueado. A maioria, entretanto, irresoluta, aguarda o chefe, imóvel e ainda sorridente.
O barco de jade se aproxima diretamente. Então, esse é o destino. Desdenhoso, Hong-Kop se ergue e brande seu arco. A flecha lança-se hábil e crava a mão da princesa contra o marfim do seu trono. Um fraco grito se mistura ao clamor dos piratas erguidos furiosamente atrás de seu chefe vencedor.
Mas subitamente, o mar salta como que sob o chicote de um gigante. Uma muralha de água espessa levanta-se entre os dois barcos, detendo o combate. Um minuto, depois o mar retomba. E nele não está mais o barco de jade. Nada além do Fai-Tsi-Loung e suas rochas afogadas de brumas. Sobre a água prateada, duas grandes rugas concêntricas fogem pelo horizonte circular.
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O Fai-Tsi-Loung é muito grande. Aqui estão muitos dos lugares que Hong-Kop já percorreu com seu barco de saque, sem, no entanto, encontrar nem as últimas rochas nem as últimas grutas. E hoje, novas fendas, jamais vistas, parecem se abrirem frente à sua rota para se fecharem logo atrás.
Foi ontem que Hong-Kop atirou a sua flecha contra o barco de jade. A brisa não é mais leve, e o ar permanece pesado e sufocante. Cansado de esperar, imóvel, ao centro da baia ardente, Hong-Kop desatou um bote e foi-se sozinho perder-se no labirinto de ilhas. Para ele nada importa a não ser o cachimbo, a lâmpada e a provisão de ópio para a jornada. Hong-kop, aprumado, um pé sobre a roda de proa, mergulha seu remo alternativamente à direita e à esquerda. Os rochedos em que ele roça, o miram afundar-se cada vez mais na bruma quente.
Ao redor não há mais que paredes escarpadas  e nuas, fendas aqui e ali com entalhes agudos por onde desliza o delgado bote. Hong-kop, pirata-rei do Fai-Tsi-Loung, conheçe muito bem o seu próprio reino, tanto que os cumes salientes dos promontórios, evitam respeitosamente de arranha-lo à sua passagem. Hoje entretanto, os picos parecem se alongar dissimuladamente sobre o casco frágil, e os cumes que pendem abaixo do nevoeiro jogam algumas vezes em seu rastro alguns pesados pedaços de xisto. Hong-Kop, obscuramente, sente ao seu redor e em todo o Fai-Tsi-Loung, em águas e pedras, hostilidade e traição.
Ele segue assim mesmo. A cada golpe de remo, seu tronco delgado se dobra em frente, depois recua atrás, os rins curvam-se como para o amor. A pele mate se carrega ligeiramente de carmim.
Sobre a seda do quimono, o corpo amarelo delicadamente transparece. Hong-Kop é muito belo. Sua linhagem antiga está escrita em cada um dos seus membros inegavelmente.
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Os rochedos tornam-se mais selvagens, as águas mais esverdeadas e mais opacas. Hong-Kop parou de remar. Deitou a cabeça sobre o flanco esquerdo, na almofada de couro inflado, ascende a lâmpada e prende o ópio na ponta da sua agulha. Entretanto, o bote deriva docemente entre as rochas. — Docemente? Não, — veloz.
Como se alguém o conduzisse com uma mão forte e invisível. E assim que a primeira dose aclara a inteligência do fumante, Hong-kop se examina.
Mais outra coisa o preocupa: ele quase não têm mais ópio no pote de porcelana; somente três doses. As mulheres se esqueceram de renovar as provisões. E Hong-Kop irritado, determina-se a matar uma ao seu retorno… A mais feia?
Ao fim do canal, barrando a passagem, uma muralha gigantesca se ergue agora.
Hong-Kop se interrompe para olhar. Negro, abrupto, sinistro. O cume perde-se absolutamente no nevoeiro. Nenhuma brecha, nenhuma fenda.
Por certo, essa muralha é nefasta. Hong-Kop sabe porque ele acabou de aspirar o segundo cachimbo. Mas o bote, rápido, fende a água como uma barbatana. O remo manejado por um braço implacável não se desvia do seu curso fixo. Na verdade, é o mar que se abaixa defronte dele e ele desliza como um pente. Tudo isso vê Hong-Kop. Mas ele permanece impassível, é que o ópio derrama a inteligência em sua alma.
Ao redor, os rochedos riem maldosamente. O reino do pirata foi abolido, sua soberania esta em rebelião. Perante a traição do Fai-Tsi-Loung, por tanto tempo fiel, um menos sábio se indignaria, maldiria ou lutaria. Mas seria uma luta vã e irrisória. Hong-Kop resigna-se friamente às perdas que ele advinha, se eleva acima delas e as despreza. E sem se comover, ele limpa minuciosamente o pote, retirando as sobras com a ponta da agulha e prepara o terceiro cachimbo, o último.
O bote vai se chocar contra a muralha de rocha. Mas rente à água, um túnel se abre. É uma abobada baixa que se rompe sob a montanha; e o bote se precipita. À direita e à esquerda, entre as colunas irregulares das estalactites, outros túneis se descobrem, perpendiculares. Toda a montanha não deve ser mais que um labirinto fantástico de cavernas subterrâneas e submarinas.
E as trevas se povoam de coisas indizíveis. Imediatamente se faz noite. A lâmpada, com sua chama que dança, aumenta a percepção das trevas. A abobada, as paredes que se alargam e se estreitam a cada curva, abrigam dentro de cada buraco, em cada fenda, estranhos sentimentos petrificados. Pois o túnel se abaixa e se estrangula. Agora, a abobada roça seus musgos úmidos no rosto de um Hong-Kop estendido.
Mas uma claridade pálida vem amarelecer a lâmpada e o bote, impulsionado como por uma funda, desemboca para fora do subterrâneo, — ao ar livre. Aqui, a montanha fecha-se em todas as partes como um circo gigantesco, uma cratera extinta que o mar encobriu. E isso fez um laço cercado por penhascos. Fora das profundezas da água, os precipícios mostram-se verticais e inacessíveis, negros e nus. Somente nos lugares mais altos é que eles se inclinam, escalando os cumes com rijas escarpas onde se agarram algumas moitas negras. O circo é um poço de onde jamais alguém poderá escapar, a não ser pela estreita passagem subterrânea. Toda escalada será loucura: A trezentos pés acima da água, grandes macacos curiosos se arriscam com precaução na parede a prumo e de baixo, eles parecem menores que os ratos.
O bote se detém. Hong-Kop, indiferente, aproxima da chama sua agulha onde tremula a gota de ópio. Depois que a gota coze e doura, a fixa com a pressão exata sobre o fornilho de jade e espera, o cachimbo em suas mãos como um cetro: — Pois que o mar se entreabriu.
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O Rei-Dragão, Hai-Loung-Wang, longo como trinta pítons, eriça para fora do mar sua cabeça terrível.
Muita vezes, Hong-Kop, a viu em seus sonhos de ópio. Ela é assim: — inexprimível.
Ao redor, a água treme loucamente. E todas as pedras, contraídas de horror, ressudam um suor frio.
Nesse silêncio prodigioso, Hong-Kop, imediatamente, percebe a febre arquejante do Fai-Tsi-Loung apavorado perante seu criador.
Face a face, o Fumante e o Deus.
Seus olhos enormes e sangrentos mergulham nos olhos negros que o ópio metalizou até a impassibilidade absoluta. O fumante não se ergue de sua esteira. E é o Deus que se determina a pronunciar a sentença.
Tu feristes, com tua flecha minha filha secreta Yu-Tcheng-Hoa. Em pagamento, tu agonizarás aqui de morte lenta, privado de arroz, privado de água e privado de ópio.
Hong-Kop fixa desdenhosamente o Loung.
— Já faz muito tempo — diz ele —, que Kouong-Tseu me ensinou que sou mortal.
E com o cachimbo inclinado sobre a lâmpada, ele aspira a terceira dose, — a suprema, — sem mais falar e nem dignar-se a olhar, defronte a saída subterrânea, as rochas que desmoronam do penhasco, fechando impenetravelmente toda e qualquer retirada.
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O sol se põe atrás da montanha. A bruma ensangüentada do ocidente é terna. Depois, a noite a tudo envolve. E o circo de morte torna-se extremamente negro.
O bote de Hong-Kop flutua inerte. Hong-Kop não dorme.
Ainda estendido em sua esteira e com a cabeça na almofada ele põe ao lado o cachimbo vazio. Por enquanto ele não irá sofrer. Com o pouco de ópio que ele tomou, a boa droga apaziguará seus nervos e seu sangue. Ele poderá contemplar friamente a morte e o desprezo.
Mas quando chegou a hora do cachimbo noturno uma inquietação incomum se insinua pela primeira vez em seu peito.
Ele não mais fuma. O ópio falta a seu ser. É um mal-estar indistinto, uma dor surda. Uma sede que sufoca. A saliva de sua boca está seca. Uma fadiga repentina cobre seus membros. E o sono se recusa a vir.
Entretanto o tempo corre.
O mal de Hong-Kop aumenta. Agora, a pele febril se crispa. Uma lassitude insuportável pesa sobre todo o corpo e a cabeça lúcida começa a se turvar. Grandes batimentos irregulares abalam suas artérias. Perto do cérebro o sangue se rarefaz. Toda a seiva interna se esgota. Muitas funções essenciais se desarranjam e param. É o inicio da morte.
A cabeça lúcida se perturba. Logo, é a sábia filosofia que se evapora. Depois a indiferença asiática e a nobre corágem destemida. Em poucas horas, Hong-Kop, não é mais muito diferente que um simples trabalhador pisoteando a lama do seu arrozal.
Depois enfim a razão vacila no cérebro vazio de ópio.
Já faz seis horas que Hong-Kop não fuma. E os perigosos gênios da noite, ousam progressivamente, descerem então da montanha e convergirem para escarnecer o fumante desarmado.
Num passo crepitante eles se aproximam. Mas eles não irão encontrar nada, nada além dos macacos sobre os declives desertos. Nada mais que pássaros no ar viscoso do nevoeiro. Nada mais que os peixes na água morta. Nada de vivo para que esses gênios horríveis possam assustar. Nada além de um homem que jaz em sua tumba flutuante.
E eis que chegam. Seus risos fúnebres fendem em suas bocas, pavorosos dentes vermelhos. Suas garras hábeis em escavarem cemitérios arranham a noite. Seus olhos brancos, olhos sem cabeça, contemplam apavorantes o supliciado. Em torno do bote, uma ronda macabra se estende em círculos, com um rangido de asas escamosas.
Em seu corpo, Hong-Kop sente o ardor de inexprimíveis contatos. Depois, a horda hedionda se aperta, tudo para anulá-lo.
Dois sopros quente de podridão se misturam junto à sua boca humana. As membranas viscosas açoitam o seu rosto e o envolvem com suas dobras. Uma amálgama obscena e terrificante sapateia seu corpo, mais brutal de segundo em segundo. Os gritos das corujas, de uma borda à outra do golfo se respondem, como a chamarem outros gênios ainda piores para descerem ao cerco…
Mas, ao oriente, uma brancura súbita escorrega do alto da montanha. E como num vôo de corvos expulsos, eis que os fantasmas malignos se dissipam, aniquilados…
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A aurora? Não, a aurora ainda esta longe sobre o mar.
Liberto do abominável assalto, Hong-Kop se agita banhado em suor.
Sobre a esteira manchada pelos contatos impuros, o corpo machucado luta dentro da roupa em farrapos e o semblante contraído retorna lentamente à sua beatitude serena.
Logo, a brancura oriental desce até o lago, e nele se faz uma grande calma, doce e viva. A bruma se irisa mais diáfana e os raios da lua começam a pratear as ondas. Pois é ainda noite plena.
Então, que é essa claridade branca? Ela está ali, banhando o dono do bote, mais brilhante que a caricia lunar. Hong-kop, confuso, a sente velar sobre sua febre muito quente e umedecer de um hálito odorante a sua boca aberta e as suas veias exauridas. É como um raio isolado da primeira aurora; um sopro de primavera que torna-se luminoso; algo de muito jovem, de muito cândido e de muito terno, debruçado misericordiosamente sobre a agonia do condenado. Hong-Kop, com seus olhos pesados, contempla a noite procurando inutilmente a realidade do doce fantasma: seus nervos privados da droga clarividente, não sabem mais compreender o mundo extra-humano.
E depois o sono, o tão sonhado sono, eis que chega, — miraculosamente, pois um fumante privado jamais consegue dormir. E as pálpebras se abaixam sobre seus pobres olhos e o cérebro torturado se detém e se apazigua. Os sonhos chegam, em asas de ouro, muito diferentes dos espectros carrancudos de a pouco. Sobre o bote, tudo, tudo o que rodeia Hong-Kop adormece e a claridade libertadora se pousa como uma borboleta. Então, pontuando o silêncio propício, uma seqüência de sons surdos, regulares e precisos: gotas que tombam uma após outra no pote de ópio vazio.
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A aurora. Depois o sol que se levanta a passos lentos no céu vazio. Sobre o lago amurado, não há nada além do bote. E progressivamente, liberta do misterioso encantamento noturno, a natureza se refaz hostil e feroz em torno do prisioneiro adormecido.
Os ardentes raios esbranquiçados batem rudemente no rosto de Hong-Kop. Hong-Kop desperta. E imediatamente ele vê o prodígio:
— O pote de ópio está cheio.
Mas como isso foi feito? — Isso é bem do ópio. — Um ópio denso e liso, não muito negro, mas tinto de reflexos vermelhos.
Diria-se de traços de sangue. Porém, na agulha, as gotas se juntam brilhantes ao se aquecerem e se inflam como o ouro em fusão assim que se aproximam da chama. — Isso é bem do ópio.
Este é um ópio maravilhoso! A fumaça aveludada é absorvida radiosamente pelo peito ávido e expandindo em sua passagem múltiplas volúpias. Num fechar de olhos, tudo se esgota, toda a angústia, desfaz-se, se esvai. Uma vida nova começa. O sangue congelado retorna fluído. A medula ressecada se umedece e vibra.
Ao coração regenerado, aflui largamente a força, o sangue frio, a impassível soberania. Ao cérebro, a clarividência e a sábia filosofia.
Imediatamente o fumante retomou e ressarciu seu domínio.
Agora não importa a rocha inimiga que o aprisiona. Nem mais a morte lenta que se fará quando começar a padecer, privado de água e privado de arroz. O ópio consolará e saberá serená-lo e a encontrar magicamente uma porta resplandecente por onde o homem liberto se unirá aos deuses. Hong-Kop fuma. O sol chega ao zênite, depois descende até esconder-se no outro lado. Hong-Kop ainda fuma.
E a noite, uma vez mais, sucede ao dia.
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Desta vez, não há mais espíritos malignos sobre a montanha. O ópio expulsou toda presença impura. Pois, agora Hong-Kop está armado contra os fantasmas e não os teme mais, por mais sutis que sejam.
Ele sabe que nada hostil ousará vir. Mas ele sabe ainda que outra coisa virá, — o ópio lhe disse, — outra coisa, a claridade protetora que ontem o salvou. Ele aguarda respeitosamente, com os olhos fixos no oriente, de onde ela descerá.
Ora, eis que chegou o momento. A lua se eleva acima dos rochedos e deslizando sobre seus primeiros raios, há um raio bem mais brilhante. A claridade desce sobre o lago. Hong-Kop a espera e seus olhos esclarecidos a reconhecem. Ela tem a forma de uma mulher infinitamente delicada e bela! O seu rosto é puro, mais branco que esse não há em nenhuma criatura de Laos ou de Annam e ornada deliciosamente de cabelos mais finos que a seda divina.
Eles são negros certamente, seus cabelos, como são todos os cabelos do mundo; e, entretanto, seus reflexos sobre a lua cintilam como os reflexos do ouro. O pescoço visível como uma haste se eleva acima dos ombros radiosos, transparente sob o roupão de pedrarias, mais brilhantes ainda que o próprio corpo que transluz.
E o braço direito, estendido em um gesto de paz, sangra de uma ferida ainda aberta. É a princesa do barco de jade, é a filha do Rei-Dragão, — Yu-Tcheng-Hoa, a preciosa.
Ela vem a Hong-Kop, caminhando ágil sobre a água vassala. E defronte os olhos claros que a fixam, ela hesita timidamente, ela, a Flor de Jade soberana. É que o fumador-pirata, cativo e desdenhoso, é estranhamente belo, mais belo que um sonho de fada. E pode ser que seja essa simples emoção de mulher, que retém os passos divinos de Yu-Tcheng-Hoa.
Assim mesmo, ela ousa, ela se aproxima. Acerca-se ao bote. Ela pousa sobre a roda de proa seu miúdo sapato de peles. Ela chega mais perto, mais perto, muito perto, — Hong-Kop percebe o coração sagrado que bate a grandes golpes receosos.
Ela estende ainda, quase implorante, seu pobre braço ferido, de onde o sangue corre em gotas pequenas. E Hong-Kop, agora reconhece o milagre: Esse sangue é de ópio e foi assim que o pote vazio foi enchido. A Flor de Jade misericordiosa quis que seu castigo fosse abreviado e o nutriu da própria seiva de suas veias divinas.
Misericórdia muito estranha e o ópio discreto se recusa em dizer o porquê ao fumante. Ele, Hong-Kop que se destinou à advinhar, não advinha mais. Toda uma região do mundo oculto lhe está fechada, essa mesma onde se esconde o pensamento misterioso da Flor. E esse mistério impenetrável mesmo ao ópio que abre a todas as portas, não é o que mais intriga Hong-Kop. Em verdade, esse ópio mágico, esse ópio que é de sangue, não é mais a droga serena que distribui indiferente seu dom a todos seus fiéis. É um ópio parcial, que guarda semelhanças com o braço que o derrama.
E voluntáriamente, no reencontro obscuro de dois pensamentos, ele se furta para não armar o pensamento de Hong-Kop contra o pensamento de Yu-Tcheng-Hoa.
Animada pela imobilidade respeituosa do cativo, animada sobretudo pela incompreenção que ela advinha em seus olhos que nada refletem, a fada agora sorri. E esse sorriso indizivel de tanta graça, perturba imperceptivelmente a alma virgem do pirata-rei.
Eles demoram-se em face um do outro, silenciosos. Ele reclinado contra as esteiras, ela em pé a seus pés. Seus olhos se encontram e pouco a pouco se enternecem. A lua cúmplice se atrasa pelo céu. Seus raios curiosos deitam-se sobre as pregas da seda que esconde o corpo esbelto e nervoso do fumante, — deitam-se sobre as esmeraldas que cintilam nas pernas leitosas da Flor de Jade.
Hong-Kop esta embriagado pelo ópio mágico. Seus membros não pesam mais. Sua cabeça se estende em uma radiosa fantasmagoria de imagens e de idéias entremeadas, todas luminosas. E, verdadeiramente ele está semelhante em imortalidade; entretanto, na plenitude da sua voluptuosidade uma alegria ainda lhe parece desejável… a alegria da virgem incomparável erguida a seus pés.
Porém, ela é incomum e indecifrável. E toda a audácia do ópio não é suficiente para erguer Hong-Kop de sua esteira, para que ele apanhe a mão divina, — que somente a ele se estende.
A lua se inclina sobre a montanha ocidental. Logo logo, a aurora embranquecerá o oriente, e os encantamentos se desvanecerão frente ao sol. Hong-Kop, mais clarividente à medida que a fada lhe sorri, advinha que alguma coisa de irreparável esta em vias de se consumir, que uma porta sublime está prestes a se abrir — que ele não terá mais muito tempo para essa hora. Mas a incerteza continua a paralisar sua decisão, — se bem que mais e mais lhe visita o desejo de aproximar seus lábios amorosos sobre o braço ferido de onde o ópio sangra ainda.
Mais que uma hora. A lua, com pesar, se faz desaparecer atrás do penhasco. Hong-Kop enfim se levanta e se ajoelha defronte Yu-Tcheng-Hoa. Sobre o rosto luminoso, uma angústia incomensurável desfaz bruscamente o terno sorriso, a angústia muito evidente da amorosa que espera ser amada. Mas a lei malvada que interdita o reconhecimento desses lábios divinos, continua obscurecendo os olhos de Hong-Kop. E Hong-Kop não vê mais. O tempo passa, ele se inquieta e se amedronta do sorriso disparatado, e se detém, tímido porque amoroso também, amoroso pela primeira vez, perdidamente apaixonado. E a hora suprema se passa sem que ela possa, sem que ele ouse, confessarem-se mutuamente que os seus corações não são mais que um e não serão mais que um nas indefinidas eras que estão por vir. Eles permanecem mudos, seus lábios, tão próximos que apenas um beijo os reencontrariam. E a amorosa, inexorável, levanta-se friamente no céu triste.
A Flor de Jade suspira longamente, uma cortina de lágrimas enlutou seu rosto. Mas esta feito, ele deve subjugar-se ao destino. Já nasce o dia, turvo e pálido de fantasmas. Yu-Tcheng-Hoa derrama-se sobre o mar, mais diáfana de segundo em segundo. E desesperadamente, Hong-Kop, que agora lúcido, volta a lhe gritar o seu amor, se esforça e com grandes golpes de remo a persegue, fazendo virar seu bote sobre a água espumante.
Mas muito tarde, muito tarde. Eis os dois ao pé do penhasco, à entrada do subterrâneo obstruído. Os rochedos, tímidos se desligam. Pois ela é a filha do Dragão e ele é o amado dela.
Um minuto, e Hong-Kop livre, flutua sobre o Fai-Tsi-Loung de onde o Dragão o havia exilado. A sentença foi declinada. O mandato de morte abolido. Mas Yu-Tcheng-Hoa, a preciosa, desvaneceu-se para sempre nas brumas do sol levante. E nos olhos metálicos do fumante, que nessa vida nunca riram nem choraram, as lágrimas brotam, muito amargas.
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Hong-Kop, entretanto tornou-se um gênio. Tal é a sorte desses que são amados das princesas imortais. Imortal também, sua vida esta suspensa entre o céu e a terra, indefinidamente.
A vida de Hong-Kop esta suspensa entre os rochedos do Fai-Tsi-Loung. No labirinto inextricável, ele procura Yu-Tcheng-Hoa sem a encontrar jamais. E os pescadores do Halong e do Kebão acreditam o avistar, pois sua aparência ainda é de um mortal.
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Eu que escrevi isso, já o vi em verdade na bruma tonquinesa, já o vi com meus olhos horrorizados: — Hong-Kop e — Hai-Loung-Wang — a Serpente-Rei que o persegue sobre o mar. Mas eu sobrevivi porque no mesmo dia, ao umbral do Circulo Sagrado, eu encontrei Yu-Tcheng-Hoa, a Clemente. E é desse dia em diante que eu ignoro todas as outras mulheres.


terça-feira, 24 de julho de 2012

Quem foi Claude Farrère?


CLAUDE FARRÈRE, escritor francês, nasceu em Lyon em 27 de abril de 1876 e morreu em Paris em 21 de junho de 1947. Filho de um oficial da marinha, ao completar a maioridade, entrou para a Escola Naval; embarcou em Brest no Borda, no qual realizou uma viagem às Antilhas. Como oficial, percorreu todos os mares. Começou sua carreira literária enviando colaboração para jornais; seus escritos chamaram a atenção de Pierre Louis que o encorajou a perseverar. Serviu algum tempo no Extremo-Oriente sobre o comando de Pierre Loti, também escritor e oficial da marinha. Na I Grande Guerra, 1914-18, pediu transferência para o exército; após o armistício, retornou à marinha e continuou a série de seus romances. Foi autor muito popular de romances exóticos, entre o fim do século XIX até a segunda guerra mundial. Ganhou o prêmio Goncourt em 1906 por seu romance "Les Civilisés". Nomeado presidente dos escritores combatente, foi ferido em 1932 por ocasião da venda anual das obras dos escritores dessa agremiação. Foi eleito membro da Academia Francesa, em 28 de março de 1935, teve como principal concorrente Paulo Claudel. Seu nome verdadeiro era Charles Frédéric Pierre Eduard Bargonne.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Capa Virtual


Créditos para as ilustrações
Éditeur : Paris, Ernest Flammarion,
Date d'édition : 1921 Illustrateur : MORIN (Louis)

Claude Farrère – Fumaças de Ópio – A Sabedoria do Imperador



 

A SABEDORIA DO IMPERADOR

Já faz muito tempo que o jovem Imperador Hoang-Ti, guia seu povo pela terra deserta.
Eles formam uma grande multidão e dia após dia, marcham obscuramente atrás do seu Imperador e a noite deitam-se sob o céu nu. Eles não possuem dromedários, nem cavalos e já estão quase sem roupas. Suas peles antes reluziam brancas e macilentas, mas agora estão douradas pela doçura das planícies do Meio. Seu Imperador também está amarelado. Seus cabelos negros misturam-se ternos e rudes e ele parece não ter pensamentos sob sua fronte.
Nenhum deles sabe mais de onde veio.
A grande solidão glacial já os ronda. E eles marcham ao redor da terrível floresta, repleta de dragões, de tigres e de gênios. A floresta guardiã que estende-se sobre o Império Prometido como uma cadela sobre os bens do seu dono.
A cada noite, enquanto Hoang-Ti arma sua tenda, — a tenda feita com peles de feras cozidas, cujos cantos elevam-se como os ângulos de um telhado, — o povo, de olhos fixos no horizonte sul sobre a tenda, vê distintamente, num profundo porvir, surgirem os seus palácios, com telhados semelhantes…
Então, uma noite, Hoang-Ti planta a tenda imperial às margens de um rio muito largo, que depois se chamou Amarelo, — Hoang-Hô. Ao redor se ergue a floresta guardiã, Hoang-Ti caminha até a água veloz, depois longamente, contempla a floresta. Do leste negro ao oeste rubro, ela se estende, indefinida, sem brechas. Hoang-Ti a escuta lamentar por suas folhas açoitadas pelo vento, assobiar pelos seus dragões anteriores à chegada dos homens, rugir por seus tigres saídos das cavernas ao primeiro frescor da noite. O povo, medroso fica atrás do Imperador, de onde percebe o vôo vago dos gênios silenciosamente acorridos. E em face de tantos perigos, muitos se amedrontaram. Hoang-Ti, ele mesmo, insensível na verdade à pior das feras ou dos deuses, estremece talvez, defronte a tarefa a fazer, ao umbral do Império Prometido que a ele cumpre fundar.
Mas quando a oeste, por sua vez, faz-se noite, nenhum desses problemas se lê em seu semblante firme. Ao nascer da lua, as sentinelas conduzem um Estrangeiro defronte o Imperador. O Estrangeiro se parece com um homem, porém ele tem seis braços e um rosto vermelho. Sem falar, ele ri um riso eterno.
Sob a tenda ele se senta. Hoang-Ti, ele próprio um deus, advinha que o Estrangeiro também é um deus. E, na esperança de uma mensagem de socorro ou de uma aliança misteriosa, ele despede seus serviçais e permanece só com o visitante. Depois de muito tempo, assentados um ao lado do outro, na cadeira dupla de ébano incrustada de nácar, eles continuam se observando. O silêncio noturno se agrava sobre a terra e os gênios da floresta, com suas faces de carrancas, estão incompreensivelmente quietos, como se o Estrangeiro estivesse comandando as suas hordas. Entretanto, Hoang-Ti não discerniu coisa alguma sobre a figura rubra próxima a si, mas o hóspede impenetrável ainda ri.
Ao primeiro canto do galo, o Estrangeiro se dobra sobre o flanco esquerdo e o Imperador o vê soprar três vezes ruidosamente. De súbito, de uma maneira mágica, um bambu pousa, depois uma cápsula de papoula, depois uma chama. O Estrangeiro quebra o bambu e apanha a papoula. Por encanto, o bambu se orna de ouro e de jade e o nó se transforma em um fornilho. As cápsulas da papoula ressudam um licor parecido ao de um mel negro. Esse foi o primeiro cachimbo e o primeiro ópio. O deus, com o cachimbo contra sua boca e o ópio balançando acima da chama, fuma.

No seu êxtase, Hoang-Ti teve uma visão.
Uma das paredes flutuantes da tenda torna-se diáfana, transparecendo a floresta guardiã do Império. E, como se os séculos repentinamente fossem precipitados de seus cursos, Hoang-Ti vê tudo: primeiramente o povo transpor o rio e marchar pela floresta.
Marcha formidável! Contra o povo, a floresta lança as armas de seus deuses e de seus monstros. As árvores cerram alinhadas suas copas e se entrelaçam juntas por suas sólidas lianas, que ressurgem na medida em que se as cortam. Os charcos se alongam e se alargam, se povoam de dragões sangrentos devoradores de homens, de gênios secretos, que atraem mortalmente àqueles que penetram os seus domínios. Todos empalidecem imediatamente, batem os dentes e tremem, delirando e divagando e rapidamente morrem entre horríveis visões. Outros deuses, dragões ligeiros que voam pelos ares, se dispersam e planam sobre o povo e matam como uma chuva fúnebre pesando eternamente sobre a terra. E as feras vêem em auxílio das divindades. As serpentes venenosas se emboscam sob as folhas mortas. Os tigres saltam e rolam e nunca sem que alguma de suas garras não degole uma vítima. Os elefantes mais terríveis se enlaçam em comitiva e traçam em toda parte suas rotas sangrentas, juncos de corpos esmagados e de membros dilacerados. — E cada passo do Imperador, e cada passo do povo, custa mais sangue que uma longa batalha. — Mesmo quando o Imperador e o povo avançam, é pouco a pouco, ceifando a floresta.
E não há mais floresta.
Agora, a planície do Meio, nua, meio árida, encoberta de estepes, lagos e pântanos, mostra-se em todos os sentidos, indefinida. E o povo, ao centro da planície, contempla a obra encerrada e a obra a cumprir. Todos aqueles que ceifaram a floresta estão mortos, e mortos seus filhos e seus netos. Mas, paciência, a quarta geração desvendará a planície.
Hoang-Ti olhou no cume da mais alta montanha e avistou sua tumba, guardada por sete avenidas de tigres de granito.
A quinta geração trabalhou a planície. As estepes, uma atrás da outra, foram retiradas dos campos. Os pântanos, cobertos com arrozais. Um verdor novo, dócil aos homens, vestiu o Império.
Os tigres acuados fugiram para as montanhas brancas de neve. Os elefantes capturados se atrelaram ao arado. Os dragões alados foram mortos e seus filhos, as nuvens, não vertem mais que uma chuva fecunda sobre a terra. O povo a cada noite aumenta, tornando-se inumerável. E as mulheres, douradas pelo sol, à imagem do seu fundador amarelo, Hoang-Ti, são belas.
Depois, eis que vieram as cidades. Às margens dos rios e dos lagos, nas encruzilhadas dos caminhos e das estradas, ao fundo das baías e das enseadas, e nos ombros tépidos dos vales rodeados de montes, as cidades nascem. Primeiramente, só algumas casas tímidas, ameaçadas pelas chuvas, pelos ventos e pelos raios; depois as mansões mais ousadas, dos cidadãos mais orgulhosos, que se ornam de palácios e se encouraçam de muralhas; depois as capitais, gigantescas, que apontam aos lagos de seus parques, seus yamens de mármore e seus pagodes de cedros. Mais distante que o círculo do horizonte, os telhados de porcelana radiantes, para o norte e para o leste, telhados em ângulos elevados, semelhantes a tetos de jade. E sobre as folhas de amoreiras, nas agradáveis campinas que cercam as cidades, mulheres dóceis, junto à seda, fiam os estofos brilhantes, os únicos que os homens aceitam para vestirem.
O Imperador e o povo venceram.
Os deuses aplacados e reconciliados deixam suas solitudes hostis e vêem habitar os pagodes ou suas estátuas a eles erigidas, esculpidas em ouro puro.
Ao seio da mais rica das dezessete províncias, a maior das dezessete capitais está assentada às margens de um rio.
Hoang-Ti contempla. Ele não é mais o avô; ele não é eterno. Outros o sucederam. Entretanto, agora é tempo de esplendor; ali está a Imperatriz das cidades. Sua muralha cinza está cercada por uma muralha vermelha; dentro dessa muralha vermelha, uma muralha amarela; e dentro dessa, um palácio violeta. É lá que habita o Imperador.
Hoang-Ti o vê: ele está estendido sobre uma esteira, com um pára-sol cravejado de gemas. Os servidores prostram-se ao longe, o adoram e queimam defronte dele bastões de incenso, em pequenas conchas de papel prateado.
Ele está deitado sobre uma esteira. Ele tem um cachimbo.
Ele fuma.
Uma felicidade soberana brilha em seus olhos, — a mesma felicidade que Hoang-Ti sente brilhar nos seus próprios olhos.
Uma paz inexprimível rege no santuário imperial, — a mesma paz que Hoang-Ti sente reger agora sobre a sua tenda entre o deus vermelho e ele mesmo.
E eis aqui o que os olhos de Hoang-Ti observam ao longe.
Fora do palácio violeta, fora das muralhas amarelas e cinza, a cidade inteira fuma, fuma como o Imperador. O ópio escapa-se dos cachimbos em largas baforadas, envolvendo todo o povo em sua embriagues sublime. Sobre as frontes libertas, o pensamento habita, diariamente enaltecido pela droga clarividente.
Além da cidade, além da província e para além das fronteiras nevadas que limitam o império do Meio, o ópio se espalha sobre os cidadãos e sobre os camponeses. E em toda parte, eis que chega com ele a paz, a tolerância, a filosofia. Eis que chegam a sabedoria e a felicidade.
O império está estabelecido, o império é próspero. O povo triunfante frui sem esforço essa vitória. E o ópio os ensina a doçura do repouso, a alegria da vagarosa preguiça voluptuosa ao fundo das fumarias, sobre o vôo suave dos sonhos que flutuam em meio à fumaça negra. O ópio filosófico tempera as rudezas bárbaras, amortece as energias desproporcionais, civiliza e refina as brutalidades demasiado poderosas e demasiado fecundas. E por ele, o povo, rapidamente, vai tornando-se heróico e sábio, muito heróico, muito sábio.
       
………………………………………

Quando o sol se levanta, Hoang-Ti, pálido e com os olhos semelhantes a espelhos de bronze, sai de sua tenda. Ele tem nas mãos, o cachimbo, o candeeiro e o ópio. O deus de face vermelha se desvaneceu ao fugir da noite.
Hoang-Ti percebe que trás em suas mãos a sabedoria e a felicidade de todo o seu povo. Mas ao mesmo tempo ele vê a floresta a ceifar. Ele mede o abismo dez mil vezes profundo que separa a floresta do império. E ele observa o povo, instrumento do trabalho extraordinário.
O povo ainda selvagem, poderoso e rude. O instrumento rústico ainda forte, irresistível. Afinar, polir, minorar; pois essa força criativa desapareceria, certamente, e rapidamente se evaporaria em meio às volutas da fumaça negra.
Hoang-Ti observa todos os seus pensamentos, sem que nada se descreva sob sua fronte imóvel.
Então, enquanto seus pés entram nas águas do rio, ele diz: — mais tarde e abre suas mãos.
O cachimbo, a lâmpada e o ópio tombam. E o povo, sem nada perceber, avança.