quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - Intervalo


INTERVALO

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Sobre o último importuno, a porta se fecha, expulsando a noite hostil do corredor. Agora, no interior da fumaria não há mais que os verdadeiros adeptos. No teto as sombras dançam, e depois se fundem em um claro-escuro dourado. As volutas semitransparentes rolam pesadamente sobre as lâmpadas. E reina somente o odor do ópio, despótico, todos os perfumes rivais aniquilados: o perfume dos cigarros turcos que se fumam nos intervalos; o perfume do frasco de Jicky vertido gota a gota sobre as mãos enegrecidas pela droga; e mesmo o perfume mais doce e mais tênue da fumante seminua cujo corpo molhado de beijos tornou-se uma pira ardente. Os corpos fraternos se misturam mais estreitamente sobre as esteiras. E na embriaguez tépida, as horas escorregam a passos tão leves que não se as percebem mais.

Ítalo, cuja nuca repousa sobre a perna da fumante, é o primeiro a romper o silêncio.

— Eu a amo muito — diz ele, — e eu a amo, ainda com angústia e desejo, apesar de que você se deu a um novo amante. Mas eu não quero nada neste instante além de te acariciar; pois a boa droga me faz, desde que eu deseje, reviver os tempos anteriores onde seu corpo era unicamente meu; ou viver os próximos instantes, onde fatigado e doloroso, meus braços deixarão de a embalar. Ainda que eu esqueça seus suspiros felizes de hoje, para partilhar com delícia seus suspiros de ontem ou seus suspiros de amanhã, eu não a desejo em consideração ao ópio.

Sem cessar de abraçar com suas coxas quentes a cabeça do amante amado, a fumadora, num gesto de complacência, afasta de seus lábios o cachimbo preto e os estende a Ítalo.

O segundo, Timor, cujo perfil tártaro se destaca inacessível sobre a almofada de seda marrom, fala sinceramente também, ainda que ele fosse sempre prudente e secreto:

— Em verdade, as mulheres, cujas algumas afirmam não serem como as outras, se assemelham maravilhosamente. Quando eu era o amante de Laurence de Trailles, ela não me amava nem eu a amava. Eu havia somente desconcertado seu cérebro de passarinho ao polir melhor seu pensamento, e ela vinha aos meus braços como teria vindo o espírito de uma sonâmbula. Nela não existia, aliás, outra forma de ternura que a sentimentalidade falsa e pueril das mocinhas educadas em convento. Ela experimentava, sem perceber, minha indiferença. — Você me ama? — dizia ela, — isso é um esporte, não é? — Ela ria, o esporte interessava aos seus nervos ávidos de emoções. Mas afinal, apesar da sua secura, sua perversão e o gosto em saborear beijos novos, o amor conjugal não foi absolutamente jamais injustiçado junto dela. O esposo, estúpido, apaixonado, ciumento e muito complicado, foi sempre a seus olhos, o refúgio eventual, o porto aonde se chega para aportar em busca de mais ou menos escalas sensuais. E mesmo em nossos dias, os mais esportivos, eu sei que ela não deixava jamais de estender complacentemente seus lábios ao esposo, como nossa amiga vem te oferecer os seus, a você que é seu amante por intermitência, o que é por dizer uma espécie de marido.

O terceiro, Aneyr, o amante recém amado quer falar. Mas sua amante deixa o ópio, estreita seu corpo e aspira seus lábios, por um bom tempo ele não diz nada.

E Itala questiona:

— Então você enganou Trailles, que foi seu amigo. No entanto, sem amar sua mulher. Lastima-se?

— Não. Sua tolice de vincular um prêmio qualquer a uma fidelidade sexual lhe rendeu a dignidade de ser punido por onde ele pecava. Além disso, sua rusticidade, unida à vida frívola de Laurence nada teve por produzir além de crianças perfeitamente tolas. Ao passo que, o sangue nômade e conquistador que eu agreguei com gotas voluptuosas ao sangue de suas veias, engendrou quiçá um filho da minha raça, melhor e mais alto.

Aneyr, desatando sua boca da boca ávida que o pressionava, diz:

— A voluptuosidade que você acreditou haver nessa sua união, basta sem mais para te absolver. O profeta disse com clarividência: — Cada um dos gritos de alegria de vossa esposa vos abre mais largas as portas do paraíso.

— Isso, diz Timor, é um argumento maometano que eu não posso admitir por razões etnográficas. E incontinente, eu creio muito pouco no paraíso. Mas eu não aprovo de maneira nenhuma a necessidade de legitimar meu ato legítimo. As solteironas hipócritas e os calvinistas castrados são as únicas pessoas no mundo que censurariam a união segundo a natureza de dois seres convenientemente semelhantes, sob esse pretexto cômico, de que a amante seja talvez uma esposa, ou que a mulher tenha um marido. Prodigiosamente filosófico! Admite-se então que uma mulher disponha em liberdade de sua mão ou de sua face para todos os lábios amigos, mas lhe recusam de oferecer a carícias semelhantes, sua boca ou o seu sexo. De fato, eu teria talvez achado graça, mesmo frente os preconceitos estreitos, se tivesse visto que amando Laurence eu somente pensava nas crianças mais belas que provavelmente ela conceberia…

— E isso se chama propriamente, — murmura Aneyr, — a reabilitação da traição pela importância da paternidade.

Eles divagam. Itala fuma cachimbo após cachimbo. Aneyr, seu corpo já meio desligado do corpo da amante, maneja a agulha. Por instantes, o fumante deixa o bambu, derrubando sua cabeça extasiada sobre as almofadas. A fumaria silenciosa torna-se imóvel. Nenhuma agitação se advinha nos semblantes pensativos e lúcidos, cessaram os movimentos que deformavam suas linhas.

— Uma fumaria, observa Timor, é bela como um fragmento da Grécia antiga.

Por sua vez a fumante apoia o bambu sobre a boca. Depois, o cachimbo aspirado, ela se estira como uma gota e anda sobre as mãos e os joelhos. O vestido japonês desabotoado arrasta-se sobre os corpos estendidos. Na confusão dos membros não era nada fácil de encontrar um lugar. Mas os nervos femininos são inquietados maravilhosamente pelo ópio e a mulher confusa não encontra uma esteira onde repousar. Ela hesita. Os três corpos machos, diferentes, revelam o mesmo de flexibilidade e de força em repouso. Timor, cujos olhos estavam fechados, sentiu de repente o estreito calor de dois braços escorregando sobre seus ombros e a carícia de uma boca que violentamente suga sua língua. Ele se abandona logo sem emoção, — o ópio apazigua e domina a virilidade; — sem emoção, sonhando com Laurence de Trailler e com suas sensualidades semelhantes; sonhando com isso e com outras coisas inomináveis. Aneyr, indiferente, esta se levantando para se distrair com um cigarro. Itala fuma.

No tempo que se escoa. Hora ou minuto? Os sentidos adormecidos de Timor despertam-se lentamente, ele entrega suas carícias à acariciadora e revela em voz alta seu pensamento.

Aneyr, ouça. Eu a desejo. Não olhe.

E a voz de Aneyr, pesada de fumaça negra:

— Espere, estou terminando meu cigarro.

Mas bruscamente, a amorosa se afasta do abraço, ansiando pela voz do amor de sua preferência. E é conta o corpo de Aneyr que ela vai chocar passionalmente seu corpo excitado. Eles estão em pé e se enlaçam, ela ávida e ele surpreso e impotente. Muito perto, o divã torna-se a garupa propícia.

Timor esquecendo retoma seu lugar junto à lâmpada em frente de Itala. Eles fumam alternativamente e cessam de nada perceber. Os longos gemidos do divã não os tumultua, nem o suspiro nervoso do amante que a amante não satisfaz.

Itala murmura:

— Timor, você que é o mais perfeito de nós todos. Diz-me como sua mãe pode antigamente, parir um filho tal como você, e como teu pai o amou nove meses antes, na noite láctea quando ele escolheu para te engendrar.

Timor murmura:

— Eles o esqueceram. E esses são na verdade segredos dos quais os homens e os deuses são ignorantes. O beijo de onde nasceram Hercules, Acmene e Zeus, eles mesmos não o puderam jamais repetir.

Uma queixa, um suspiro de desejo exasperado; depois uns impacientes movimentos nus sobre as esteiras. O amante se desfaz do abraço. Alguns breves passos, para retornar no mesmo instante com um frasco a mão. Mas os fumadores olham somente para as pesadas volutas que cobrem a fumaria de mistério. Sobre o divã criado, a luta dos amantes recomeça. Mas os fumadores não ouvem nada além dos estalidos do ópio que se esvai sobre a lâmpada. Mais carícias agora, os dois corpos em amor exalam um perfume mais irritante. Mas os fumadores sentem unicamente o odor da droga, soberana…

Ora, de súbito, o cachimbo escapa das mãos de Itala, e Timor o apanha já quase ao chão. Ao redor da bandeja de ópio, seus olhos se cruzam, desembriagados.

— Você sentiu?

— Sim…

A fumaça negra, como perdida, turbilhona.

E assim ocorre uma coisa terrificante. Na fumaria saturada de ópio, plena de átomos odorantes pacíficos e dominadores, outros átomos vêm penetra-los tumultuosamente, e é como uma invasão de horror e de morte. Um odor sombrio e pálido ataca o odor amigo do ópio e o subjuga. Os eflúvios contrários se chocam violentamente na conquista do ar, e o ópio então, sem atacar, se desfaz, se decompõe, vencido.

O éter…

O éter glacial, primo da loucura e da hipnose…

O frasco pernicioso está caído sobre o divã. A mulher insaciada, na pior hora, alivia assim seu cio doloroso. E uns gritos bruscos saem dementes:

— Jamais, jamais tanto… Ele não, oh não, ele não! Eu não vejo mais! Muito tarde, muito tarde…

Os fumadores de ópio levantam-se estremecidos, ferozes.

Ítalo fala:

— Eu disse que a amava ainda? Eu menti! Eu não a amo mais.

Timor:

— Laurence… Eu não disse seu nome, não é? Eu não disse? Isso não é verdade, isso não pode ser verdade…

 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - Os Tigres


OS TIGRES

Minha fumaria não é mais atapetada de esteiras. Eu desprezei o rotim de Hong-Kong e o bambu de Fou-Tcheou. Nas paredes já não desejo os kakimonos desenrolados, aonde os deuses cornudos fazem caretas entre as paisagens dos pagodes.

De alto a baixo, dos pés à cabeça, — do chão onde vela a lâmpada terna, às cornijas onde tocam as mais altas baforadas, minha fumaria esta atapetada de peles de tigres, de rudes peles amarelas com rajados negros, que se afastam em todos os sentidos como os espinhos pontudos de pesadas garras.

Algumas cabeças ressuscitadas com olhos de esmalte verde, pendem nas paredes ou então, achatadas contra o forro do teto. Isso faz com que umas se ofereçam de orelhas para a nuca do fumante, e as outras dispostas em círculos, velem sobre os sonhos e os seus delírios. E ao centro desse bando feroz, eu gozo da mais pura paz e repouso.

Outrora, na China iniciática onde aprendi a doçura do ópio, — acreditei que a droga deveria estar sempre acompanhada pela magnificência ou pela bizarria da decoração. Conheci espeluncas no Cantão onde as facas dos xenófobos, demasiadas vezes enganados, transformavam minha embriagues em morte; — conheci os yamens de Pequim, onde as mulheres, enfeitadas como os ídolos, juntavam ao ópio a doçura dos cantos e a voluptuosidade das danças; conheci também as fumarias sábias e corteses onde freqüentavam os mais raros espíritos, e alí amava apimentar meu gosto com o espírito sutil das causas filosóficas; conheci ainda, por algumas vezes, os redutos profanos onde o ópio não é mais que um pretexto para as lubricidades que se dissimulam e aos vícios vulgares dos que o buscam para arrogarem-se em rebelião ou em satanismo. — Hoje o ópio me lavou dessas inquietudes curiosas. E não tenho mais necessidade de quadros complicados, nem de mulheres lascivas, nem de dissertações filosóficas. Eu fumo só, em meio a essa minha guarda rajada cujos dentes luzem. E eu fumaria mesmo dentro de um quarto vazio cujas paredes estivessem nuas. Entretanto, eu prefiro meus tigres, porque sua forração retira o frio das manhãs enevoadas, e porque amo em minha embriagues repousar meus olhos sobre a geometria amarela e negra que zebram minhas paredes.

Eu não sonho mais, ao contempla-los com as florestas bárbaras onde eles tiranizaram outrora. Eu não sonho mais com os muitos ocasos avermelhados, bruscamente abatidos sobre as florestas, nem com aqueles rudes que se deitavam, iluminando perigosamente o despertar do caçador rajado, — com seu bocejar profundo e o estiramento faminto em suas quatro garras. Eu não sonho mais com o latido breve, vibrando nas antigas noites tonkinesas, com o latido que borrifa em tumulto o gado no fundo dos currais. Não; meus tigres não agitam mais em frente a mim a fantasmagoria dessas visões longínquas ou anciãs. Há muito tempo que eu fumo. O mundo dos homens e das coisas, o mundo da vida é um longo jogo, que já está há muito afastado de mim. Nada mais há de comum entre esse mundo e o meu pensamento atual. Meus tigres me alegram somente porque suas peles são tépidas, e com uma mescla de cores originais que me diverte.

Já não me importo mais com coisa alguma; não tenho mais que trabalhar, não tenho mais amigos; — eu fumo. O ópio a cada dia me afunda mais profundamente em mim mesmo. E eu tenho descoberto do que me interessar o suficiente para esquecer o lado de fora.

Antigamente, eu me deixei seduzir principalmente pela feitiçaria do ópio. E me parecia prodigioso assistir às metamorfoses que a droga suscita entre seus fiéis; — e me parecia sublime eu oferecer meu corpo a essa feitiçaria transformadora. Eu saboreei a consideração de ser uma besta diferente, de ter os sentidos atrofiados ou multiplicados, — a consideração de não mais ver e de melhor entender, de não mais gostar e de melhor sentir; eu saboreei a exasperação de meus nervos táteis e o entorpecimento do meu sexo. Mas essas bagatelas cessaram de me incomodar, depois que o ópio penetrou em meu cérebro o suficiente para que a verdadeira sabedoria me fosse enfim revelada.

Mais ainda: o prazer psíquico do ópio é indispensável ao meu corpo. Portanto, o prazer de fumar não é mais que uma débil parte do meu deleite. Certamente nenhum espasmo do coração ou da medula pode ser comparável a essa violação radiosa dos pulmões pela fumaça negra. E melhor que nunca, eu sei hoje suspirar pelo beijo traidor e doce da droga; — eu sei me embriagar do seu odor quente, eu sei fruir habilmente do comichão múltiplo que me criva de picadas sutis em meus braços e no meu ventre, eu sei esperar com ansiedade o torpor mortal que a cada dia aperta mais e mais estreitamente minha nuca e dissolve pouco a pouco os músculos dos meus membros. — E entretanto, essa indizível felicidade do meu corpo não é nada comparado ao belo êxtase do meu pensamento.

Oh! Se sentir de segundo em segundo mais carnal, mais humano, mais terrestre; — esperar a liberdade levitada do espírito que se escapa da matéria, da alma desentravada dos lóbulos do cérebro; — admirar a multiplicação misteriosa das faculdades nobres: — inteligência, memória, senso do belo; — tornar-se em alguns cachimbos repleto dessa imutabilidade verdadeira aos heróis, aos apóstolos e aos deuses; — compreender sem esforço o pensamento de um Newton, dominar o gênio de um Napoleão, educar o bom gosto como um Praxiteles[1]; unir enfim em um coração tornado muito vasto, todas as virtudes, todas as bondades, todas as ternuras; amar desmesuradamente todo o céu e toda a terra, confrontar em uma mesma doçura, inimigos e amigos, bons e maus, heróis e miseráveis. — Por certo, o Olimpo dos helênicos e o paraíso dos cristãos reservam a seus eleitos as beatitudes mais plenas. E entretanto, são essas as mesmas beatitudes que hoje são minhas!

Em verdade, as religiões, que antes desprezei do alto de uma filosofia um pouco analítica; — a filosofia de Nietzsche, — estas religiões não são injustas em exaltar acima da justiça e do orgulho a caridade e a piedade. Pois minha alegria em superar com meu gênio a todos os homens, cede singularmente à minha alegria de ser o melhor e o mais piedoso de todos os homens. Dessa superioridade do meu coração sobre todos os corações, obtenho o calor de uma satisfação que não se pode exprimir. As almas generosas, atormentadas de ideais e do mais além, conhecem somente a tristeza amarga de viver, — porque a vida lhes parece feia e suja, enegrecida pelo mal. Eu, eu vejo mais claro, já cessei de ver o mal. Desde o décimo quinto cachimbo, o mal se desvaneceu dos meus olhos. De um só olhar, eu abraço então cada efeito em todas as suas causas, cada gesto em todos os seus movimentos, cada crime em todos os seus pretextos. Mas causas e senões existem aos monted, se bem que, juiz muito justo e muito lúcido, eu não posso jamais condenar nem maldizer, somente absolver, lamentar e amar. E sobre minhas peles empoeiradas de fumaça negra, Cain, Judas ou Brutus teriam o mesmo acolhimento que César ou Kouong-Tseu.

E agora que já refleti, eis porque cobri minha fumaria de peles de tigres. Os tigres ferozes, traidores, sacrílegos, são meus Cains, meus Judas e meus Brutus. Suas carrancas ensangüentadas, seus crânios achatados sobre seus cérebros rudimentares, e a perfídia ágil dos felinos onde passeio meus dedos, tudo neles me fala da deplorável imperfeição do mundo, do mundo mais desculpável mesmo em seus piores erros, para que eu, eu o ouse condenar.

De tudo isso eu só desejo a meus tigres, encontrar uma selva antiga, suja de sangue e com clareiras azuis onde a lua pouse sobre os lábios de Endymion[2]



[1]  Praxiteles (390?-330? Ac.), Escultor grego,  considerado o maior escultor de todos os tempos.

 

[2]  Endymion, na mitologia grega era um jovem de excepcional beleza que dormia eternamente, Selene, a deusa da lua, se apaixonou por ele e o visitava todas as noites. (n. do t.)

 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - Os Cachimbos


OS CACHIMBOS

Em minha fumaria, tenho cinco cachimbos.

Assim também a China, origem do ópio, origem da sabedoria, reconhece somente cinco virtudes primordiais.

 

Meu primeiro cachimbo é de concha marrom, com um fornilho de louça negra e dois pedaços de conchas amareladas.

Ele é antigo e precioso.

O tubo é espesso, opaco ou diáfano, conforme as pinturas da concha. O nó que retêm os dedos enquanto se fuma, é uma saliência cor de âmbar, finamente esculpida na forma de uma raposa minúscula. O fornilho é hexagonal e se prende por meio de uma garra de prata.

Resta em seu interior, a cinza coagulada do ópio. A borra amarga e rica em morfina, que foi depositada pouco a pouco, por diminutas partículas negras. Ele possui no seu interior a alma dos cachimbos de jade, a alma de êxtases passados. E a concha, penetrada progressivamente pela borra, retém entre suas moléculas os vestígios dos anos que se passaram.

Estes foram anos japoneses. Pois meu primeiro cachimbo foi feito em Kiou-Siou, a ilha japonesa das tartarugas. E pelo espelho convexo do seu largo tubo, eu vejo todo o Japão se refletir.

A raposa que figura como nó não é bem uma raposa. Ela é o Kitsouné da lenda, a fera-fada que se metamorfoseia à vontade; assim, quando pego em minhas mãos o cachimbo de concha eu não deixo jamais de examinar o nó, para ver se ele não trocou misteriosamente de forma. Se ele se transformar num belo mastim, eu não ficarei muito surpreso. O kitsouné do meu cachimbo deve ser, com efeito, uma besta célebre e sábia em feitiçarias, para que o artista escultor a tivesse assim escolhido como modelo. Quiçá haja sido o próprio kitsouné que outrora perdeu a heroína Sidzouka nas montanhas de Yosino.

O cachimbo de concha conhece a história de Sidzouka e me a recontou várias vezes em voz baixa, — durante as vigílias de inverno, enquanto o ópio borbulha e crepita sobre a lâmpada. Sidzouka foi uma japonesa de nobre raça, que era amada pelo herói Yositsouné. — Yositsouné vivia em Nipon há muitos séculos atrás. Irmão do príncipe Yoritomo o Terrível, nada mais fazia que assegurar o triunfo fraternal sobre os clãs rivais de Taíra. Mas os samurais entusiastas o proclamaram demasiado alto o mais bravo de sua raça. E Yoritomo invejoso lhe condenou à morte. Yositsouné fugitivo erra por muito tempo longe das cidades na solidão das montanhas violetas onde subiam somente os javalis. Mas o exílio perigoso lhe era agradável porque Sidzouka, a mais doce, lhe havia seguido em sua desgraça e partilhava fielmente suas fadigas.

Durante muito tempo a floresta japonesa abriga duvidosamente sua lassitude. Os cedros musgosos montam negligentemente a guarda ao redor do proscrito, enquanto que a lua muito branca prateava os perigosos charcos das clareiras e as cascas das bétulas. E nessas horas ansiosas, Sidzouka dança com passos voluptuosos em frente a seu amante; e o herói encantado esquece sua tristeza e esquece a austera perseguição dos soldados do tirano obstinados atrás dele.

Até o dia fatal, onde o inimigo finalmente estreita seu cerco mortal, e Yositsouné se despede de sua amante para enfrentar só seu supremo destino. Ora, antes que ela se afastasse guiada por um samurai fiel, o herói oferece a amorosa, em prova de terna gratidão, o tamborim que a acompanhou recentemente em sua dança noturna, lembrança desses tempos nas solitárias florestas das montanhas de Yosino.

E, com os olhos banhados em lágrimas, Sidzouka partiu. Mas o samurai engana misteriosamente sua confiança. A vereda que ele tinha escolhido se afunda logo em regiões estranhas e terríveis, eriçada de picos e crivada de abismos. A viajante assustada não reconhece mais o seu caminho. E como ela se detém apanhada pelo pavor, o guia joga seus dois sabres e despojando repentinamente sua forma humana, aparece aos últimos raios da lua, como o que ele realmente era, — um kitsouné de longo rabo que urra fantasticamente para a princesa traída e dança a dança sobrenatural dos Kitsounés.

Depois, com passos furtivos, a besta-mágica caminha para sua vítima, e bruscamente lhe rouba o tamborim de Yositsouné. Pois era esse a causa de todo o mal. Esse tamborim de pele de raposa que o kitsouné reconheceu como o seu, pois o havia perdido por engano ao preparar um pergaminho, e o instrumento enfeitiçado retornou logicamente ao seu feiticeiro original. Quanto a Sidzouka, a mais fiel, dispensada do tamborim nefasto, reencontra sem esforço o caminho correto, e a lua em seus olhos azuis a quis prontamente para o mosteiro que ela havia escolhido ao chorar o seu amado.

… O cachimbo de concha sabe de muitas histórias japonesas, e me as reconta de vez em quando em voz baixa, durante as vigílias de inverno, enquanto o ópio borbulha e crepita sobre a chama.

 

Meu segundo cachimbo é todo de prata, com um fornilho de porcelana branca.

Ele é antigo e precioso.

O tubo muito longo, não é espesso, mas delgado, para que o cachimbo não seja demasiado pesado às mãos do fumante. O nó é uma saliência de prata maciça, cinzelada na forma de um rato. E o fornilho foi cuidadosamente polido e arredondado como uma pequena bola de neve.

Em todo o comprimento do cachimbo, o artista gravou maravilhosos adornos chineses. Pois este meu segundo cachimbo é chinês, — cantonense. Ele me fala minuciosamente da China meridional onde passei antigamente três doces anos.

Enroladas ao redor do cachimbo de prata, estão as flores, as ramagens e as ervas. As flores são de belos hibiscos desabrochados, as ramagens, folhas de menta selvagem, e as ervas são delicadas hastes de arroz. Tudo isso recende à China de Kouang-Toung, aos caminhos frescos, aos arrozais fecundos, às cidades lindamente atapetadas em meio aos bosques de árvores.

Enrolados ao redor do cachimbo de prata estão os homens e as mulheres. Os homens são alternativamente trabalhadores e piratas, e tanto uns como outros: delicados e impassíveis. As mulheres são as filhas de Pak-Hoi, de Nau-Cham ou de Hainam. Sua pele doce reluz como o cetim cor de âmbar. Suas mãos e seus pés fazem inveja as mais nobres de nossas marquesas. Oh minha amante Ot-Chen, onde estás? Essa é a tua lembrança que me visita, é a lembrança dos teus dedos destros a manejar a agulha. —Quando eu sonho ao seio da fumaça negra, o teu cachimbo de prata repousa em minhas mãos…

 

Meu terceiro cachimbo é de marfim, com um fornilho de jade branco e com dois engastes de jade verde.

Ele é mais antigo e mais precioso que os dois primeiros.

Foi talhado de uma presa de elefante. Ele é muito espesso e bem pesado, pelo que se advinha feito por homens de outrora, mais robustos que nós. O nó foi elaborado na própria superfície e tem a forma de um signo rusticamente esculpido. O fornilho, quadrado, brilha como o leite verde de um pedaço de pistache, e algumas veias opacas serpenteiam em meio ao jade transparente.

Antigamente, o cachimbo de marfim era branco, branco como a raça ocidental que doma os elefantes além dos montes. Mas a borra paciente o amarelou pouco a pouco, e depois o escureceu, pelo que ele é hoje mais parecido à raça oriental que fuma o ópio. E a alma das duas raças rivais, se mesclam dessa maneira no cachimbo de marfim.

A Índia fecunda que fervilha do Ganges ao Dekkan; o Tibet sábio, agachado sobre suas estepes de neve; a Mongólia nômade, onde trotam os camelos desengonçados; a China inumerável e divina, a China imperial e filosófica; o cachimbo de marfim evoca misteriosamente toda a Ásia.

Pois ele é velho, mais velho que muitas civilizações. Eu sei que uma Rainha Ocidental, — Persa, Tártara, Cita? — o ofereceu em um dia histórico a um Imperador Chinês que ela visitou. Isso foi há trinta séculos. Eu sabia o nome da Rainha e o nome do Imperador, mas o ópio desdenhoso os varreu da minha memória; assim que me recordo somente da nobre história pacífica desses grandes príncipes vindos um à frente do outro através de seus impérios, para trocar por cima das fronteiras abolidas juramentos de paz semelhantes aos juramentos de amor. Trinta vezes cem anos… Cachimbo de marfim, quantas bocas imperiais te passaram em todo esse tempo? Quantas majestades vestidas de seda amarela foram buscar em teus beijos acalentadores o esquecimento de suas tristezas e de suas preocupações, o esquecimento das ruínas e das injúrias que a cada dia mais difícil, se abateram sobre o Império sacro de Hoang-Ti? E se te vejo agora envelhecido e enegrecido, é que esse é o luto com que te portas, o luto de tantos séculos sábios, mortos para dar lugar a esse nosso século fraco e vão?

 

… Eu nem sei mais do que meu quarto cachimbo é feito. Ele foi o cachimbo de meu pai, e ele morreu à força de fumar.

Este é um cachimbo mortuário. Ele está saturado de borra, saturado em todos os seus poros e em todas as suas fibras. Dez peçonhas todas ferozes se emboscam em seu cilindro negro, semelhantes ao tronco de uma cobra venenosa. — Morfina, codeína, narcotina, narceína, — que sei eu? Meu pai está morto por ter fumado demasiado. O ópio quando se evapora em seu fornilho desprende um sabor misterioso de morte.

Esse é um cachimbo fúnebre. Todo negro, por causa da borra, e revestido com gravados de ouro, que brilham como as lágrimas de uma mortalha de ataúde. Eu não ouso aproxima-lo de minha boca, — ainda não. Mas somente o contemplo, — como se olha a uma tumba entreaberta — com desejo e vertigem.

Meu pai está morto de o ter fumado, — meu pai que eu amava. Entre a vida e a morte, — a vida desagradável e fútil, a morte serena, fecunda de uma maravilhosa embriagues, — ele escolheu a morte. Quando meu dia chegar, farei como ele.

E então, buscarei sobre o cachimbo negro aplicado em ouro, o gosto frio dos lábios paternos, — piedosamente.

 

 

Ora, aqui estão: a lâmpada acesa, as esteiras sobre chão, e o chá verde que fumega na taça sem asa.

E também meu quinto cachimbo, todo preto. Ele não é antigo e nem precioso. Eu comprei seis iguais de um fabricante de ataúdes. É um simples bambu marrom, completado com um fornilho de barro vermelho. O nó do próprio bambu é o suficiente para reter os dedos.

Ele não tem nada de ouro, nem de jade, nem de marfim. Nenhum príncipe, nenhuma rainha nele fumou. Ele não evoca magicamente as províncias distantes e poéticas, nem os séculos de glórias passadas.

Mas assim mesmo, é a ele que prefiro há todos os outros. Pois é nele que eu fumo, — os outros, demasiados sagrados. — É nele que, a cada noite, me verte a embriagues, me abre a porta deslumbrante das voluptuosidades lúcidas, me arrebata triunfalmente horas de vida entre as esferas sutis dos fumantes de ópio; — as esferas filosóficas e benevolentes onde habitaram Hoang-Ti, o Imperador Solar, — Kouong-Tseu, o Perfeito sábio, — e o Deus sem nome que o fumou primeiro.