sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Claude Farrère — Fumaças de Ópio – O Pesadelo

O PESADELO

Este é o fim, o fim de tudo…
Já fazem oito, nove, — quantos? — Quarenta dias? Que não consigo comer, — que nem um gole de chá passa pela minha garganta; havia, no começo alguma coisa que o impedia, alguma coisa, na borra, no ópio, eu não sei. Fazem quarenta dias ou quarenta meses que eu não bebo nem um gole de chá…? Nem que seja o que for, naturalmente… e quantos anos, que eu não durmo?
Eu não sei mais. Eu não sei mais nada. Mais nada.
Ora! Para saber, para contar, para obter uma certeza qualquer sobre não importa o que, se faz necessário a verdade? Ver, ouvir, ou sentir, — usar enfim disso que os homens chamam seus sentidos, seus cinco sentidos. Cinco? — Só cinco? Pouco importa, o resto. — Sim, se faz assim. Mas eu, eu não tenho mais os sentidos. Já faz, na verdade, muito tempo que eu não tenho mais. Eu não vejo. Eu somente contemplo a lâmpada e o ópio amarelo que encrespa e borbulha sobre ela. Eu apenas contemplo a noite, arregalando meus olhos (horrorizados) para os forçar a ver isso que os homens não vêem mais, — o lado de lá, o mundo apavorante e pálido dos fantasmas; — meus olhos os vê a todos e é por isso que agora, eles não vêem mais nada, — salvo a lâmpada, a lâmpada do ópio. — Sim, os fantasmas… Dê fato, isso não é verdade, não existem fantasmas: porque eu já cessei de vê-los. Uma alucinação, uma alucinação disparatada, eis tudo. Eu sei bem que não existem fantasmas, pobre de mim! Não há nada. Há apenas o Nada…
Também não ouço mais nada. Ouvi demasiado os ruídos do silêncio, os ruídos que ninguém jamais ouviu, além de mim, que vai morrer; — os ruídos do ar imóvel, e da terra que repousa, e dos infinitamente pequenos que vivem e que morrem. E o burburinho de tudo isso enterrou-se tão formidavelmente em meus ouvidos, de modo que eu não preciso mais de tampão. Agora, nenhum som de fora penetra em minha solidão. E somente meu cérebro clama e urra em meio a meu crânio, — mas tão forte, que tudo se quebra em mim e me desmancha e me retorna em poeira; nessa poeira que em breve serei.
Diga, — esta poeira, — acredita que ela cheirará a ópio? Não? Eu porém fumei muito. Trezentos, quatrocentos cachimbos por dia; mais, quem sabe?
Eu não vejo mais e não ouço mais. Assim é tudo. E não há uma sensação humana que me reste e nenhum ato humano que eu possa fazer. Nem um, nem um. Nada. Ah, mas sim, uma coisa, um verbo: sofrer.
Oh, o sofrimento que eu sofro! Oh, o fogo que dilacera e devasta e tinge de branco minhas entranhas! Dentro de mim, uma chaga arde, uma chaga que começa em minha garganta e termina mais baixo que os meus tornozelos; uma chaga que não perdoa nada, nem veias, nem intestinos, uma chaga de onde, perpetuamente, jorram as chamas. Os rios, os lagos, o mar, todos os oceanos podem correr sobre essas chamas e não as apagarão. E isso é para sempre, sempre, sem pausa, sem prazo, sem sono. Até o nada, ao nada mais assustador…
Sob minha pele, o comichão do ópio me ha mordido tão forte que eu não tenho mais epiderme: eu a arranquei a golpes de unha, inteiramente.
E se isso era tudo! Sem isso não haveria nada mais!
Ele teria a sede e a fome do ópio. Dias e dias passei sem comer e sem beber, isso não é nada, menos que nada; — uma volúpia. Mas uma hora sem ópio, aí está, aí está o horrível, a coisa indizível, o mal de que não se cura. Não se cura, porque para essa sede não há saciedade. Antes de fumar, eu morro da falta de ópio, eu morro ainda, depois e durante e sempre. Meu corpo agoniza desde que abandona o cachimbo. Mas, desde que eu prossiga, uma outra agonia se abate sobre meu corpo. E estou condenado a repousar na brasa ardente, encontrando somente o chumbo fundido.
A condenação. É aqui, é aqui mesmo. O inferno onde eu estou por essas duas penas. Ao sofrimento dos sentidos se ajunta o dano. Ao mal da carne, o mal do espírito. Ao fogo, o pesadelo.
Logo, — que há muito tempo! — Eu não terei mais que sonos breves, prostrações de algumas horas, de alguns minutos, entre duas embriaguezes; — sonos fulminantes, prostrações completas, de onde eu me levantarei mais cansado que do mais violento aperto de amor; — sonos reais, livres de imagens, livres de fantasmagorias, sonos fechados aos apavorantes do lado de fora. Pois, está chegando o dia das letargias febris, delirantes, repletas de sobressaltos, de atrocidades, de apocalipses. E se estabelece então uma sorte de proporções espantosas: a medida que o ópio abreviava, encurtava meus minutos de repouso, — pois, isso ainda era um repouso, quase, — o mesmo ópio os enchia, me cumulava, me estufava de mais espantos, de mais atrocidades, de mais apocalipses. Até ao limite super-humano de certa série que ainda matemática não se somará jamais: o limite que reduz a zero o sono, e a porta do pesadelo a um valor inverso, um sobre zero, ou seja: o infinito.
1÷0 = 
E eu não durmo mais. E o pesadelo, excede os limites mais fechados do meu sono e se derramou em minha insônia. Eu sonho o tempo todo. Isso é o mais atroz.
O pesadelo. Ninguém, fora os fumantes de ópio, sabe o que é um pesadelo.
Eu sei de pessoas que dizem: essa noite eu tive um sonho pavoroso: as paredes me esmagavam chegando cada vez mais perto. Ou também: eu caía de um precipício. Ou então: eu via minha mulher e os meus filhos sendo torturados sem que eu pudesse socorrê-los. — Essas pessoas colocam suas mãos enfrente os olhos e dizem com horror: que pesadelo!
No meu pesadelo, para mim, não há nem precipício, nem paredes, nem mulheres, nem crianças. Não há nada. Ele é vazio, de nada e de negro. Ele é a assustadora realidade da morte; — tão próxima, tão próxima, que o condenado que aguarda sua guilhotina não vê a eternidade de tão perto como eu.
A morte, ao meu redor, roda e paralisa. Ela bloqueia a porta e a janela; ela se arrasta pela esteira, ela se desabrocha entre as moléculas da atmosfera. Ela entra nos meus pulmões com a fumaça negra e quando eu sopro a fumaça, ela não sai.
Um homem, aqui, está morto, de antemão, como eu. Se há jogado num poço Então, onde vai dar, de fato, esse poço?
Isso não é nada. Se jogou dentro do poço. Há uma enguia no fundo do poço. Uma enguia ou uma cobra d’água. — Ou uma cobra d’água! Você entende?
A cobra mordeu o cadáver. E ela morreu por sua vez, naturalmente. Se a pescou, porque essa era uma enguia. E o gato mordeu a enguia. O gato, entende?
O gato está aqui. Grande como um tigre, — naturalmente. Mas com uma cabeça de gato bem pequena. Ele vai morrer. Ele ronda ao redor da lâmpada. Mesmo assim, ele ronda; em sentido inverso. Nós haveremos de nos reencontrar… nos reencontrar
Ah! Ah! Ah! — Socorro!…

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - O Palácio Vermelho


O PALÁCIO VERMELHO

Infalivelmente, eu não sou mais um homem… Mas sou um homem completo.

Disso, não há nenhuma dúvida. Já não há nada em comum entre Eu e a raça humana, mais nada: nem sentidos, nem pensamentos. Apenas, é claro, a vida — pois ainda vivo e essa é uma coisa paradoxal! É claro que a vida funciona em mim por forças essencialmente diferentes e que engendram os fenômenos vitais sobre uma forma totalmente nova e superior. Mas, aventura certamente única! Eu não me transformei em outra coisa: nem em cadáver, nem em fantasma. Absolutamente em nada. Meu corpo está aqui, eu o vejo e eu o toco; um corpo de homem, certamente. Para adquirir sua constituição atual, meus sentidos e meu pensamento não necessitaram deixá-lo. Se bem que, mesmo conservando minha aparência precedente, esse que foi o meu semblante deve ter mudado. Eu rompi com a terra, mas sem prender o pé no mundo do além. E agora sou parecido a uma alma penada, oscilando entre o interregno de suas duas épocas, qualquer coisa como uma criança rejeitada já no ventre materno, mais ainda, elevada à claridade do dia.

Por mais barroco que isso seja, eu não estou assombrado. Em suma, eu simplesmente cheguei a isso, porque meu ego aperfeiçoou-se muito rapidamente — antes da época marcada — e nada mais. Eu me recordo de ter visto outrora o incêndio de uma propriedade no meio de um pomar. Isso foi na primavera. Do início da noite até o amanhecer, os pêssegos e os abacaxis ficaram pesados e vermelhos, mortos pelo fogo. Entretanto eles não caíram, porque os ramos que os seguravam estavam demasiados verdes. Assim como o meu corpo mantém-se vivo, criador de mim — criador de mim — enquanto que estou morto… e já nascido para a vida superior do além.

Verdadeiramente não; eu não estou surpreso. Pois, refletindo melhor: qual a razão de uma simultaneidade obrigatória entre nossas duas mortes, a morte do ser e a morte do envelope? Nenhuma! O envelope pode tocar a sua segunda vida — a podridão. Enquanto que o ser, jovem e inculto, permanece de fato impróprio ao mais além, e assim reciprocamente. Nada de mais verdadeiro e de mais lógico. Basta algum incidente, um calhau sobre a estrada, uma causa qualquer imperceptível, o incêndio que deveria matar os meus pêssegos, o ópio que, pacientemente, cachimbo após cachimbo, já substituiu o sangue das minhas veias. Pois eu já fumei meu próprio peso em ópio, durante minha vida e muito mais ainda depois que o meu ego morreu. E o ópio certamente foi a causa. A vida do meu ser foi acelerada, e portanto encurtada, enquanto que a matéria orgânica do meu envelope prosseguiu normalmente a sua evolução.

Mais uma vez… nada de mais verdadeiro e nada de mais lógico. O ópio imaterial, o ópio prodigioso, pode… e isso é bem a seu gosto, não é? — Alçar um homem acima de todos os homens e o resgatar absolutamente dessa substância grosseira, e, se for necessário, pela deterioração, pela ruína, pela supressão desta mesma substância?

Esse é um pouco o meu caso. Meu corpo ainda está vivo, sim, mas não intacto; o ópio com o seu emagrecer acentuado, o atenuou na verdade, para que ele não me estorve mais; para que o além me seja mais acessível. Portanto, sou mais herói do que foram os ascetas, quanto a força de disciplina e de penitência, — procedimento bárbaro e pueril — eles quase domaram os seus sentidos animalescos. Quanto a mim, há muito tempo que os meus sentidos ingressaram no vazio!

Entretanto, meu corpo: diminuído, atrofiado, amputado, vive! Ele aí está, eu o contemplo e o toco. E por ele conservo uma ligação com a Terra. Este céu, o céu de todos os homens, é o mesmo céu que eu vejo: azul para mim assim como para eles, e pontilhado de estrelas brilhantes. Este é o mar salgado que marulha nos flancos do meu barco, e o nevoeiro das ramagens que me dá frio. Eu escuto o barqueiro cantando a sua canção, harmoniosa aos ouvidos humanos e não me parece discordante. E ainda conservo, certamente, o ar de ser humano.

 

 

Eis a costa e a escadaria de pedra que me serve de cais: atrás de mim, o Boghasi geme sua queixa noturna e corrói eternamente os dois continentes por ele separados. Em frente, o Palácio Vermelho, deteriorado e deserto, esconde o horizonte com sua massa sangrenta.

Na entrada, a sentinela se apoia pesadamente sobre seu fuzil e o vermelho do seu turbante se confunde com o vermelho da muralha. Aqui, ninguém entra de maneira alguma, sob pena de perder a vida. Mas eu trago ópio para o sentinela, que também é um fumeur, portanto, a franco-maçonaria da droga nos liga. Quando passo, ele nem me vê mais. Caminho de encontro a antecâmara, sob as grandes vigas que tombarão dentro em breve, corroídas pelo tempo, subo as escadas revestidas de tapetes — de tapetes usados somente pelo pó — e, num dos quartos altos de onde se distingue, por detrás, o parque em anfiteatro sob as cumeeiras… foi ali que fiz a minha fumaria.

Ela não é mais que um tapete, — um velho Bockhara esquecido na mansarda — uma bandeja de cobre fundido, um cachimbo de bambu negro e uma lâmpada que fumega sob seu vidro remendado. As paredes de madeira estão nuas e a pintura das vigas já se descascaram. Mas pela janela sem vidro, vejo o parque, quarenta vezes centenário, e me deixo entrar livremente nesta sua majestade formidável.

E nenhum ruído o perverte, salvo o cingir do vento que se rasga nos ramos pontudos das árvores mortas.

Agora, me deito sobre o flanco esquerdo, e antecipadamente, preparo meu primeiro cachimbo.

 

O Palácio Vermelho é uma residência antiga, construída não se sabe por quem. Muitos senhores já o habitaram, e quase todos morreram de uma morte trágica. Um destino perigoso ronda em torno dessas muralhas e se embosca junto às portas e sob as espessas sombras das árvores do parque.

Antigamente, morou aqui um príncipe: um príncipe grego, célebre na história; seu nome significa traição. Naqueles tempos, o Palácio Vermelho estava repleto de luxo e esplendor. Vários escravos de todas as raças o circulavam e somente os visitantes nobres vinham saudar o Senhor, sempre trazidos em barcos capitanias de quatorze remadores. O príncipe estava velho e poderoso. A idade e o orgulho lhe forjaram um coração de ferro. Frequentemente, por pequenas ofensas, ele condenava aos piores suplícios seus servidores e seus eunucos. Inúmeras cabeças tombaram sob a sua cimitarra, e o terraço do parque impregnou-se de sangue. — E eu sei que esse sangue veio mesclar-se com os traços de um outro sangue mais antigo, de um sangue horrivelmente derramado sobre este mesmo terraço, e a tantos séculos antes, que dele não há mais lembranças.

Ora, uma tarde, vários mudos transpuseram o portal. Um chefe os comandava, trazendo um pergaminho verde, defronte o qual todo mundo se ajoelhava. O príncipe, brutalmente detido em seu próprio quarto, não opôs nenhuma resistência e dobrou-se a essa assinatura augusta. Aqui, neste prego da viga, uma corda foi pendurada e o príncipe nela pendeu. Quando o sangue violeta verteu dos lábios exangues, quando os artelhos contráteis cessaram suas convulsões, os carrascos cortaram a corda, depois extirparam a cabeça, para levarem-na ao soberano. Por três dias, o corpo decapitado permaneceu sem sepultura — aqui, sobre essa tábua do assoalho. Os escravos fugiram espantados. E foi uma mulher, vindo não se sabe de onde, que enterrou furtivamente o cadáver, — ali abaixo, no parque, ao pé da mais alta zaragatoa — no mesmo lugar onde, cem anos mais tarde, uma outra mulher enterrará o cadáver de um cão.

Depois, o Palácio Vermelho viu outros senhores. Mas nenhum deles dormiu sem temor, e ele levou a desgraça a todos. Mesmo o soberano, cujo selo, marcado sobre o pergaminho verde, ousou transpor o maldito umbral e comandar sob seu teto perigoso, conheceu um futuro sombrio: deposto por seu povo, ele foi morto, estrangulado dentro de um calabouço. Seu império desmoronou na vergonha e no sangue. Os povos belicosos o assaltaram de todas as partes. Os príncipes aureolados pelo destino partilharam seus despojos.

E agora, o estandarte imperial, farrapo irrisório, se agarra apenas a alguns campos agrestes, a algumas praias desertas e a alguns fortes demolidos — trapos vis que foram desprezados pelos vencedores.

E o Palácio Vermelho, hoje em dia desmoronando e vazio, o Palácio Vermelho, coisa misteriosa, aguarda apenas, para acabar de tombar em poeira, que o império termine de agonizar.

 

Sim… eu não sou mais um homem. Sou um homem completo. Porém, ainda não me transformei em outra coisa.

Eu estou assim, como que no meio da ponte, longe de uma margem e longe da outra. E certamente, ninguém pode viver no meio da ponte. É necessário passar, avançar ou retroceder.

Recuar, voltar a ser homem, eu não penso mais nisso. Pois, mais exatamente, eu já estou morto, e isso me faria ressuscitar. Coisa claramente impossível. Ressuscitar, retornar, eu não posso mais, eu não conseguirei mais.

Avançar, eis o que se deve fazer. Mas avançar o quê? Tornar-se, — tornar-se o quê? Tornar-se fantasma, de quê maneira? Me matar, isto é, matar meu corpo? Mas esse procedimento, brutal e repugnante, não me dá nenhuma certeza. Sei eu exatamente o que resultaria de minha morte física? Seria prudente aventurar dessa maneira, com um lance de dados essa prodigiosa parte, essa casca única que é minha? Certamente que não. Acima de tudo, é importante nunca se desfazer de nada que depois não se possa reabilitar.

Eu desconfio portanto, que não posso me matar. Mas, sabendo disso, eu ainda continuo na incerteza.

O melhor então, por consequência, é aguardar, — aguardar, ainda que a espera seja penosa e fatigante, — aguardar e fumar.

Se estou aqui, dentro do Palácio Vermelho, nesta tarde, após tantas outras tardes, não é para desatar esse nó górdio que me envelopa, — porque eu ainda não sei desatar esse nó e nem vejo como cortá-lo. Não, é somente para esperar e para fumar.

O ópio, aliás, é o único calmante a essa minha ansiedade, porque somente ele poderá me aproximar dos nomes dos fantasmas, afastar o véu opaco que separa o aquém do além. E justamente nessa hora, ele me mandará desatar o nó por mim mesmo, e me transformará em fantasma. Enquanto isso, a cada noite, ele me entrega, visíveis e tangíveis aos sentidos novos que ele me dá, os seres do outro mundo, do mundo ao qual estarei em breve. E eu saboreio, graças ao ópio, a joia dolorosa do exílio que contempla, do alto dessa ilha, as longínquas costas da minha pátria.

Esse cachimbo aqui é o trigésimo, pelo menos é o que eu pude contar. É o suficiente para abrir bem os meus olhos. Agora, examinando o parque, eu começo a ver menos claras as moitas e os maciços, menos claras as tílias do terraço, que retorcem para o céu negro, seu ramos de serpentes entrelaçadas; — mais claras as formas imprecisas, descoloridas e vacilantes que escorregam aqui e ali pelas brumas da noite…

O ópio não evoca os fantasmas. Muito pelo contrário, seu poder obscuro e soberano os assusta. Eu sei que a fumaça negra, dispersa agora sobre meu tapete, basta para me proteger de qualquer ataque fantástico. As delgadas aparições que erram pelo parque não ousarão jamais transpor o encosto dessa janela, — jamais! Mas eu, graças ao ópio intrépido e clarividente, eu os vejo ali onde eles estão. E assim livremente eu passeio dentro dessa minha próxima pátria.

E eis porque eu escolhi o Palácio Vermelho como asilo. Eis porque, a cada tarde, penosamente, eu arrasto para cá minha fadiga dolorosa de fumeur insaciado. Onde, melhor que nessa morada manchada de sangue, do teto às pedras do chão, encontraria eu as visões com as quais alegrar unicamente meu ser já quase morto?

 

Os fantasmas erram próximo aos lugares onde estão os seus cadáveres. O Palácio Vermelho, horrível e lamentável necrópole, formiga de pálidos fantasmas chorosos.

Eis meu sexagésimo cachimbo. Esta tarde, eu fumei mais que normalmente. E eu vejo fantasmas desconhecidos, fantasmas mais antigos e mais tênues, fantasmas que são para as sombras recentes como essas sombras são para os homens vivos.

Normalmente, eu surpreendo a ronda habitual das almas deste século aqui. Elas são delicadas aparições mais ou menos deploráveis, de maneira alguma estranhas ou terríveis. Seus esqueletos estalam ligeiramente com a brisa e os farrapos das mortalhas e das vestimentas ainda flutuam ao redor deles.

Mas agora, eles se cercam chorosamente das suas tumbas, inquietos pela vinda desses espectros dos séculos passados. E vejo sair dos ciprestes toda uma gama dolorosa de seres levemente perceptíveis, que trazem consigo cordas, cimitarras e malhas. Estes são os supliciados e eu já os conheço, pois eles hoje se revelaram a mim desde o quinto cachimbo. Estes são os escravos, os eunucos e as mulheres infiéis. Suas aparições diáfanas nem mais fazem ruídos ao entrechocarem-se. E mal posso distinguir a forma esfacelada de seus corpos de outrora. Ainda que, eu leia em suas aparências de sofrimento e de temor e noto que sua dança grotesca evita o terraço das grandes tílias, evita também a ala negra que conduz à zaragatoa da tumba. Até mesmo na eternidade as vítimas têm medo do carrasco e fogem de seu fantasma mais terrível. A tumba permanece deserta e o príncipe continua a dormir sem ser perturbado em seu sono profundo. Entretanto, olhando melhor, se me parece que ali embaixo, os ramos das moitas se encresparam e eu vejo um esqueleto de cão rondando ao redor.

Outra vez, outra vez com o ópio. Eu vou andar hoje para além da fronteira que separa a embriagues da morte.

 

Já fumei cem cachimbos, todos muito grossos, e este ópio é uma mistura possante do Yunnam com o de Bènares. Todos os laços que a pouco me ligavam ainda ao meu andrajo acabaram de se romper. E dentro desse andrajo, só resta a força para levantar o bambu e para cozer a droga sob a chama.

A substância quase imaterial de minha alma está livre. E eu flutuo a vontade sobre a relva do parque. Vou ver a tumba do príncipe grego decapitado, e porquê se estremecem os ramos e as folhas das árvores…

 

Isso é bem dele. Sua alta estatura espanta os ciprestes e eles tremem. Eu o vejo erguer-se de seu fosso, — com o sangue correndo ainda em seu pescoço decepado. Suas roupas bordadas em ouro acabam brilhando apesar da podridão do solo úmido e sua cabeça cortada range os dentes ao seu lado.

Agora, ele caminha. Assustados e apavorados, todos os fantasmas retornam à sua insignificância.

Ele traz a sua cabeça pelos cabelos. Eu percebo os pelos brancos de sua barba se embaraçarem nos espinhos do caminho. As gotas vermelhas se coagulam sobre a areia e o cão esqueleto se acompanha farejando com passos furtivos.

Ele toma a aleia mediana que conduz ao interior do Palácio Vermelho. Mas defronte a porta, o odor da droga monta a guarda; e sem se deter, ele passa. Ele sobe nos degraus de mármore que levam ao terraço, — o terraço das grandes tílias, o terraço impregnado de sangue, de sangue antigo.

Ele sobe com grandes passadas lentas, — uma maneira de príncipe e de senhor. Sob as estrelas suas mãos luzem de anéis e às vezes ele a firma sobre uma coluna ou uma balaústra, imperiosamente.

Ele sobe. O cão trotando logo atrás por vezes se detém, inquieto. Os largos degraus se alternam de aléias em cornijas. Na sombra, por debaixo das rampas firmes, o Palácio Vermelho mal se distingue, e não se percebe mais que o mar, batendo lugubremente ao fundo dos patamares.

Bastante alto, o terraço se ergue como um cadafalso. As tílias o cobrem com um véu de folhas negras e os musgos esfarrapados arrastam-se a seus pés como uma mortalha funerária.

A silhueta sem cabeça chega aos últimos degraus. Mas eu a vejo deter-se de súbito, como defronte a um precipício. E o cão esqueleto, que já avançava se estremecendo todo, volta e foge a toda pressa, com pulos fantásticos por cima dos espinheiros. A cabeça cortada estranhamente estremece sobre o solo, com cada um de seus cabelos eriçados de terror.

E como eu me aproximei, ansioso por conhecer essa causa assombrosa, o fantasma vacila e se descolore. E então eu pude ver através dele; e não havia nada mais que um vapor cinza, onde brilhavam ainda, aqui e ali alguns dourados, um pouco das lantejoulas do bordado ou das joias. Depois, mesmo isso se atenua e se esfaz, e se confunde dentro do negro. A cabeça cortada subsiste ainda por um segundo, o clarão dos olhos brancos sobrevive nos contornos perdidos. E tudo se dissipa. E não há mais nada que a noite.

O terraço está absolutamente negro. Os terríveis fogos-fátuos retornam sobre a terra. Os troncos mortos das tílias tremem de pavor, desprendendo pequenos pedaços de casca que vão se ocultar sob os musgos.

Entretanto, os fantasmas tristes que erram aqui não são nada terríveis. Eu os vejo: dois corpos de crianças degoladas que choram com lágrimas silenciosas. E nada mais…

Mas sim, há sombras ainda, confusas, mescladas, obscuras, muito próximas do nada. Alguma coisa que se arrasta ao rés-do-chão; — que fervilha na lama vermelha: — isso é uma fervura horrível de membros amputados, de cabeças exangues e de corações arrancados de seus peitos. Crimes indizíveis emergem confusamente da terra farta. E agora, eu sei, eu sei… Eu remontei o curso de todos os séculos. E vejo vir do fundo da bruma antiga a criatura que verte todo esse sangue.

A vejo… Ela é quase como um morcego gigante, uma mulher-morcego-gigante que roça as árvores com seu vôo aveludado. Eu aprecio a beleza mortal de sua face que inspira o amor e a opulência de sua sombria cabeleira embaraçada de serpentes venenosas.

Eu a reconheço. Ela se chama Medéia. E é aqui que ela apanha seus filtros, aqui que ela envenena e que dilacera. — Aqui os heróis louros, conquistadores de ouro, a deitam palpitantes sob a erva amorosa. — Aqui que ela se vinga sob a carne de sua carne e pune cada beijo roubado com um cadáver de criança.

 

………………………………………………

 

Será que meu corpo, ali embaixo, na fumaria do Palácio Vermelho, estará agora de fato morto?

 

 

Euximogrado, 24 de outubro 1902

 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Claude Farrère - Fumaças de Ópio - Além do Silêncio


ALÉM DO SILÊNCIO

 

 

Não, ainda não é noite. Eu imaginava que já fosse noite. Mas ainda não é. É que está difícil de ver… Desde que fiquei pegado, um véu de brumas tombou defronte os meus olhos, um véu escuro que flutua e que ondula. E através deste véu eu apenas entrevejo penosamente os objetos... É muito esquisito. Mas eu continuo a fumar e a fumaça dos cachimbos se infla e torna-se enorme, opaca, tal como a fumaça que sai das chaminés dos vapores — a fumaça desagradável do paquete que outrora me fez voltar de Tonkin chorando… Bah! Eu não quero pensar mais nisso.

Não, ainda não é noite. Sorte. Uma hora ainda talvez, uma hora para viver satisfeito e tranquilo dentro da brilhante solidão do dia. Pois o dia é cheio de ruídos. Cheio de barulho e de tumulto, mesmo nos confins desse país perdido, mesmo dentro do isolamento absoluto de minha fumaria, dentro do isolamento absoluto de minha casa, dentro do isolamento de meu cemitério; longe da cidade, longe das granjas, longe do último casebre. As pessoas daqui não se aproximam do cemitério, elas sentem medo. Ninguém dentre eles queria ser vigia. Foi necessário me terem encontrado — eu, o velho sargento da legião, que morria de fome nas calçadas de Paris… E então me dignei a guardar. Eu, eu não tenho medo de cemitério. Eu nunca tive medo…

Já é noite? Não, deve ser a fumaça desse cachimbo. Satânico cachimbo! Ele está tão cheio de borra, que o bambu já está todo negro… Assim mesmo, eu vou fechar as portas na hora… Acho melhor ir agora, antes da noite… Antes mesmo do crepúsculo. — Me vou…

 

 

Bom, está fechado. Bom deus, quanto barulho há dentro deste cemitério cheio de sol! É de se ficar surdo. São as abelhas e as libélulas que voam com um horroroso zumbido. Os pássaros também, que clarineiam seus trinados no ar carregado de ecos multiplicadores. E depois, as árvores e a brisa estridente esfregando suas folhas, o murmúrio furioso dos grilos e das cigarras; e outros tantos sons crepitantes e longos, ou agudos, ou profundos, mas todos ensurdecedores. Isso sem calcular as sonoridades distantes que me chegam implacáveis: os animais das fazendas, os camponeses no trabalho, a usina da outra cidade — distante a cinco léguas somente… Eu os escuto alegremente bem! E todos reunidos, me impedem de adivinhar os outros ruídos, ruídos menores que murmuram em voz baixa, os ruídos da noite que se espalham por tudo… Ainda não é     noite, hein? — Para vocês é indiferente? — Por certo, também eu antigamente não entendia de todas as coisas.

Isto é o ópio. Eu tinha como que cera dentro dos ouvidos, e a fumaça quente a fez fundir. Eu me recordo os tempos de minha juventude, e mais tarde a época de militar no Sul-Oriente e no Saara. Naqueles tempos, eu não escutava nada mais além do que os outros homens escutavam. O deserto era mudo, pois desde que a aurora expulsava os chacais noturnos para suas tocas, as misteriosas areias se enchiam de silêncio. Cheia de silêncio era também, antigamente, a minha cidade cinza no flanco das Cevennes escuras; o sol, sobre as encostas rochosas, sobre os vales nas pastagens magras, sobre as matas emaranhadas de espinhos e de charnecas, este ainda era o silêncio, o silêncio soberano que só se abatia com a noite…

Velhas fantasias! Ali havia a bela melodia que eu não ouço mais, o silêncio. Isso é um sonho, um mito — uma utopia. A utopia dos brutos e dos animais de carga. A utopia das pessoas que não fumam. Pois não existe o silêncio.

Tudo começou em Tonkin, desde que fumei pela primeira vez. Sim, minha fé caiu por terra. Eu me recordo de quando cheguei lá embaixo, sobre a ponte de transporte[1]. Tínhamos feito escala em Saigon e, à tarde, os que tinham licença podiam ir até a cidade. Eu, como os outros, não sonhava senão com farras, bebedeiras e mulheres. Mas, apenas passado os portões, eu me detive subitamente defronte um grande muro que margeava a primeira rua. Por detrás dele vinha um odor jamais sentido, inquietante e doce, — um odor que desde o primeiro golpe me entrou pelo nariz até a alma e me subjugou. Eu não sabia ainda que isso era a droga. Bem como, esqueci de todo o resto e me demorei até a aurora encostado ao muro, — ao muro da fábrica de ópio — cheirando e fungando tudo aquilo que me vinha com o vento. E pouco a pouco, dentro da obscuridade muda, ouvi, longe, muito longe, bem ao longe, os risos dos meus camaradas que forçavam as portas dos lupanares…

Depois, essa coisa continuou, com os meus primeiros cachimbos, em Pak-Nah, num pequeno posto terrivelmente distante, nos confins da floresta montanhosa — uma floresta de mistério, cheia de folhas mortas e fermentadas que engendravam a febre e a loucura. Nós fumávamos muito lá embaixo. E à noite, ouvíamos muito bem os passos dos tigres, ainda que suas patas almofadadas pousassem no matagal mais docementes que as patas de um gato. E então, foi ficando divertido reconhecer esses ruídos imperceptíveis, mas que nós percebíamos infalivelmente. Uma tarde, um pirata do bando de Doc-Then veio espionar o posto. Ele escorregava mais silencioso que uma cobra ao redor das paliçadas. Mas nós o ouvimos assim mesmo, e tão preciso, que tão logo ele trepou sobre os bambus, meu Cabo lhe meteu uma bala no ventre, na suposição, sem o ver. Uma outra noite, o sino do posto disparou, e os sentinelas bateram os dentes convencidos de que os gênios da floresta nos advertiam de uma morte próxima. Mas eu, ao mesmo tempo em que o bronze disparou, já havia percebido o pisoteado delicado do nosso cavalo que havia rompido sua corda e que se batia com a cabeça baixa contra o cordel do badalo.

Sim, tudo continua perfeito. É isso que eu acho o mais admirável.

Oh, logo mais, esses inconvenientes serão pouco importantes. Até cômicos, aliás. No Tonkin, dentro do posto, eu vivia longe dos homens, e os ruídos silenciosos que eu escutava, rapidamente me eram todos conhecidos. Mais tarde, na França, em Paris, eu ouvi outros sons, mais simples, mais humanos… Desde a minha chegada ao pequeno hotel onde fiquei alojado, que isso se mostrou de uma maneira minuciosa e enervante: a agitação nos movimentos de cada viajante em cada quarto — aquele que ronca, aquele que não consegue dormir, aquele que faz amor, aquele outro despejando água em sua bacia… Então, eu fui morar ao fim do Montparnasse, num quarteirão morto, especialmente escolhido — E que bem escolhido! Desde o primeiro dia, eu escutava os vagabundos da noite, as fechaduras forçadas, as grades escaladas — como antes, em Pak-Nah, o pirata pulando a paliçada. E eu crispava as unhas no lençol do meu leito, perpetuamente preocupado em ver subitamente se abrir minha porta e qualquer malandro entrar, e de ter que o receber a golpes de porrete…

Eu tive que mudar. Agora com outra ideia, fui procurar uma morada bem no centro de Paris, bairro Saint-Antonie. Desta vez, o barulho era tal, — dia e noite — que eu não chegava mais a distinguir os ruídos uns dos outros. Era como uma orquestra formidável onde todos os instrumentos berravam de acordo. Só que, decididamente, eu não dormia mais. O ópio já não é totalmente amigo do sono! E eu simplesmente não conseguia mais dormir. E isso me fez descobrir outra coisa. Para o cúmulo do absurdo, minha provisão de ópio já soava vazia. Eu vim bem fornecido, de tudo quanto havia podido, mas rapidamente, esses sujos aduaneiros me roubaram uma caixa, e além disso eu julguei que na França fumaria menos que lá embaixo, e ocorreu o contrário. Acabei tendo que procurar um farmacêutico complacente. Mas essa droga não era mais que uma porcaria, e depois, meus novecentos e sessenta e cinco francos da reforma morriam como moscas. Naturalmente tinham me oferecido trabalho em uma tabacaria — eu coxeava de uma perna, depois do meu ferimento em Son-Tay. Mas isso é para um filho de padre, não para mim! — Então, eu requisitei este posto aqui, e agora eu guardo o cemitério.

Aí está! Faz-se noite… Já ouço os morcegos que começam seu voo aveludado. Parece-me também que os pássaros já soaram seu toque de recolher. E o vento está calmo. Só me faltava essa!

Agora, isso que vocês não sabem: eu ouço muito bem as noites do meu cemitério. Estes são outros ruídos, menos claros, menos simples, menos precisos que os barulhos do dia — mais perigosos de se ouvir, mais angustiantes, mais tortuosos. Nos primeiros tempos eu acreditei que os mortos se deslizavam para fora dos sepulcros para dançar ao clarão da lua a dança dos esqueletos. Mas não, isso não é o que acontece. Os mortos são mortos e não revivem mais. Se eles por acaso revivessem, seus passos seriam tão furtivos que nem eu os ouviria — nem eu!

Não, eu não escuto a ronda dos esqueletos, eu ouço outra coisa…

O que eu ouço são os ruídos proibidos, esses que nenhuma outra pessoa jamais escutou, os ruídos macabros e macilentos que estalam ao pé das criptas e dos mausoléus — os ruídos noturnos que têm medo do sol, da brisa viva e do canto dos pássaros; os ruídos frios que gelam o corpo dos homens e eriçam o pelo dos seus medos.

Eu ouço a madeira dos ataúdes que rangem e gemem sob a umidade viscosa do solo molhado de chuva. Eu ouço os pesados caixões se afundarem lentamente na lama pegajosa, se afundarem eternamente. Eu ouço as carnes apodrecidas, fervilhantes de vermes ágeis, e os secos rasgões de quando eles penetram um a um no pano das mortalhas. E nesse quadrado cercado de muros, onde centenas de cadáveres são postos para dormir, um após o outro, centenas de ruídos apavorantes se escapam e escorregam cada noite até meus ouvidos afinados — centenas de gemidos de tantas tumbas, cujas, cada qual insinua seu grão de loucura em minha cabeça já arruinada.

Assim é. Minha lâmpada de ópio é a única a amarelar as minhas paredes, pois não entra mais que um reflexo do crepúsculo por minha janela sem persianas; e de lá de baixo, já ouço os fogos-fátuos que roçam os pequenos teixos. Essa é a noite, a noite negra. — Hein, os ataúdes gemem? Vocês escutam?

Meu Deus! Sim, eu sei bem! Eu deveria deixar este cemitério penetrante. Mas eu não posso. Onde encontrar o ópio, o ópio que me faz viver, o ópio mágico que me inebria de delícias e de ilusões, o ópio intrépido que me mantem aqui, tremendo, mas firme no posto, e desafiando a loucura ao redor? Onde? Se é este cemitério aqui que me o dá. — É verdade, eu não havia dito ainda: as papoulas negras crescem em toda parte aqui. Mas ainda não é como em Yunnam, e em toda Índia também, que o ópio ressuda como a cera das colmeias ressudam as gotas de mel. — E eu, eu fiquei inutilmente tentando fazer ópio na França, até o dia em que minhas papoulas tonkinesas, plantadas sobre um cemitério fértil de cadáveres, se recuperaram maravilhosamente de suas virtudes. Agora, desde que incisei suas tetas inchadas de suco, as lágrimas negras jorraram a contento. E quando eu enovelei todas essas lágrimas e as fundi em uma bola grosseira, e quando dissolvi esta bola na água de minha chaleira, quando eu a filtrei, quando eu a aqueci, quando eu a purifiquei, Ah!

Bom, meu ópio negro e liso chafurda todas as drogas de Bènares e da China. E é esse cemitério aqui que faz o milagre. Vocês vêm bem porque eu não posso deixá-lo…?

Hein, eu escutei… Não, eu não escutei. Eu não escutei isso. Não, não é verdade que um estalido mais forte brotou do solo mortuário. Não é verdade que um ataúde se estremeceu dentro da sua lama. Não é verdade que uma tábua sacudiu-se, rangendo ainda horrivelmente contra seus pregos inexoráveis…

Parece que sim, que isso é verdade, que este será o sexto enterrado vivo que agoniza em meu cemitério — o sexto desse ano. O sexto que me fará ouvir, um a um, os gemidos, os soluços, os estertores. O sexto que fatigará lentamente seus esforços moribundos contra a madeira sólida do seu caixão. O sexto que eu escutarei retalhar enfim suas mãos débeis — a dentadas. E chorar, chorar de medo e de desespero. Sim, toda essa atrocidade, eu a tenho aguentado cinco vezes desde o início do ano… E eu vou suportar uma vez mais, visto que — para que mentir? — Essa é a verdade: o enterrado vivo comove, eu ouço seu respirar agonizante, cada vez mais próximo da insensibilidade letárgica a que se destina…

Ah sim? Vocês creem, boas pessoas, que isso não existe, que isso é uma simples invenção de um louco ou de um romancista, que as tumbas são sempre inertes, e que não existe isso de ser enterrado vivo? Vocês creem imbecilmente sob a fé no atestado de óbito, que a ciência de hoje não se engana mais, e que o que ela enterra não são mais que cadáveres? Confiram ali embaixo e durmam tranquilos, os que puderem… A mim, a quem o ópio há dado ouvidos para ouvir, eu ouvi. E sei que a cada dez enterrados, há um que ainda não está morto. E sei também que a sua agonia, aquela ali, a segunda agonia, ultrapassa em horror tudo isso que a sua pobre cabeça obtusa possa imaginar de apavorante. Vocês podem admitirem, ainda, este disparate dos médicos: que o bom homem em letargia, que está enterrado a seis pés sob a terra, acorda somente pela metade, que perde rapidamente todo o senso junto com o ar, e que portanto, não revive mais que um minuto. Ah, pois sim! Vocês não sabem nada do que é a vida, e com quantas unhas um moribundo se agarra, quando ele a sente escapar! No Tonquin, antigamente, eu apreciava ficar à espreita — na caça dos grandes gamos ruivos de pernas finas. Bem, um dia, eu dei dois tiros com a Lebel numa maravilhosa fêmea que caiu dura, o peito arrancado — meus dois punhos teriam entrado pelo buraco. Aproximei-me e bati com o pé em sua carcaça vermelha — e a carcaça se ergueu sobre suas três patas, arrastando pedaços dos seus intestinos, seu coração e seus pulmões! Eles são parecidos, meus enterrados vivos: quase tão mortos quanto seus vizinhos os esqueletos, eles berram com todas as forças de suas gargantas e viram-se para tentar erguer com os ombros suas tampas! Escute, escute, está ouvindo a tábua que range? Afortunadamente, a terra é pesada. Ele não sairá, o pobre diabo! Eu não o verei, todo pálido e sujo da lama viscosa, galopar loucamente através das tumbas. — Felizmente!

Bom… Mais um cachimbo, então! Bom Deus, como é longa a noite!



[1]  Lá embaixo significa o oriente, e sobre a ponte (cobertura do navio) corresponde a fazer parte de uma tripulação. (n. do t.)